“Papai tenho que te falar uma coisa, mas não quero que você fique triste”, disse meu filho de 9 anos, João Pedro, que já há alguns minutos me rodeava como querendo dizer algo. Tentando encorajá-lo a ir em frente falei:

“Tranquilo João, pode falar.”

“É que eu acho que eu não vou ser poeta” e com os olhos baixos continuou: “Eu estou escrevendo uma produção de texto e as ideias não vêm…”

Em um primeiro momento tentei ajudá-lo na realização de sua tarefa escolar, para depois continuarmos a conversa sobre ser ou não ser poeta.

Ao ouvir tal lamento, eu que sempre reservei um tempo para estar inteiro com meu filho buscando diversificar experiências para a partir de nosso vínculo afetivo ampliar a seu repertório e vice-versa, fiquei tentando puxar pela memória, buscando em nosso farto histórico de conversas e vivências, algum momento que eu pudesse supor que teria servido como disparador desse desconforto sentido por ele… sei lá, uma fala autoritária, um comentário equivocado de minha parte. Dizem que nossa memória é seletiva, mas honestamente não achei um fato que pudesse servir de mote para tal sentimento.

Lembrei-me, inclusive de meu pai, médico, de uma geração muito mais autoritária, mas que nunca “forçou a barra” para que meus irmãos e eu fizéssemos medicina. Acredito até que ele tenha sonhado em segredo com isso, como aconteceu com muitos amigos de minha geração que  escolheram a mesma especialidade do pai ou da mãe e herdavam instrumentos, consultórios e até os pacientes (alguns, com a verve do pai, fizeram sucesso na carreira, outros, depois de algum tempo buscavam outros caminhos). Portanto seria inconcebível que eu, que me julgo um pai moderno, sensível, libertário pudesse, mesmo que sem intenção ter levado o João a pensar que este teria de ser o seu caminho. Lembrei de um dizer corriqueiro de uma tia-avó: “Se não puder ajudar, pelo menos não estraga o menino!”

A conversa continuou, e eu disse a ele que há muitas coisas e descobertas por acontecerem na vida dele e que ele ainda vai ter vontade de fazer e experimentar muitas coisas. Disse ainda que estava grato por ele se importar comigo, com minha alegria ou tristeza, e até enfatizei que minha profissão é ser professor, que havia estudado para isso e que escrever poemas para crianças veio bem depois. Completei dizendo que sou aprendiz de poeta, poetas com o P maiúsculo são Manoel de Barros, Carlos Drummond de Andrade e tantos outros.

Meu filho João escutou tudo atentamente e ao final de minha resenha deu o seu inocente “pitaco”:

“Pai, mas você também é famoso! Tem um monte de gente que vai nos lançamentos de seus livros, as pessoas te curtem no facebook…”

Neste momento, não tive escapatória e tive que colocar os pés do João no chão. Frustrando-o momentaneamente, brinquei: “Filho, sabe aquele jogo Banco Imobiliário? Pois então, ser bastante conhecido no facebook é mais ou menos como ter bastante dinheiro no Banco Imobiliário.”

João riu um riso gostoso, meio que sem graça com as covinhas ressaltando um certo rubor nas magras bochechas.

Não tem nada mais poético que o sorriso de uma criança, quanto mais um sorriso de um filho. Motivado pelo semblante receptivo do João continuei:

“Sabe filho, para ser poeta não precisa necessariamente escrever e publicar poesias. Ser poeta tem a ver com o nosso jeito de ser, de olhar para o mundo e, quer saber, tenho uma notícia pra te dar.”

Breve pausa antes de prosseguir: “Você se lembra do que você me falou na estrada, quando viajávamos para Franca para dar um abraço na mamãe quando o vovô Ivo morreu!?”

Naturalmente, João, que tinha quatro anos na ocasião não se lembrava e eu, como se diz, refresquei a sua memória:

“Era um sábado pela manhã, o céu estava azul com generosas nuvens brancas, nós dois dentro do carro, Beatles nos alto-falantes, na rodovia Cândido Portinari. Tinha começado a te contar, que daquela vez, você não veria o seu vovô Ivo, porque ele estava no céu… Aí, então você falou: “Papai, agora o vovô Ivo pode comer todas essas nuvens de algodão doce” Eu que não havia entendido te perguntei: “Como assim João!?” Ao que você me respondeu: “Uai papai, agora ele não tem mais diabetes.”

É isso que eu quero te dizer João, você tinha apenas 4 anos, ouviu minha triste notícia, olhou para as nuvens do céu e nelas conseguiu ver poesia. Você inventou uma cena poética, você tem olhos de poeta. Entendeu?”Já mais leve e contente, respondeu: “Acho que sim!” E saiu para cuidar de suas coisas.

Vovô Ivo e as nuvens de algodão doce. Lucy In the Sky with Diamonds no rádio, João e suas pérolas.

 


Colunista: André Luis de Oliveira

  • André Luís Ferreira de Oliveira
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André Luís Ferreira de Oliveira
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Psicopedagogia e Escritor (Literatura Infantil)
André nasceu em Ribeirão Preto, em 1964. Pedagogo, com especialização em psicopedagogia clínica e institucional. Iniciou em 1983, no Colégio Pequeno Príncipe( Ribeirão Preto – SP) como recreacionista. Fundou a Escola Calidoscópio, atuando durante 10 anos como diretor da Educação Infantil. Em Campinas, foi instrutor pedagógico na Fundação Síndrome de Down. Na UNIFRAN( Universidade de Franca) exerceu durante 4 anos a função de docente nos cursos de Pedagogia e Fonoaudiologia. Em 2000, retornou ao Colégio Pequeno Príncipe, onde atua como diretor, psicopedagogo, desenvolvendo projetos de jogos corporais e atividades ligadas à leitura e escrita. Ministra cursos e oficinas para professores, além de oferecer atendimento psicopedagógico clínico para crianças. É autor de A CIDADE DOS CACHORROS, BICHOS DIVERSOS, POEMINHAS RADICAIS, entre outros livros, para o público Infanto-juvenil. Criou o JOGO DA ACESSIBILIDADE – Ministério da Educação – Ministério das cidades – ABEA – MEC. André é colunista na revista “Leque” de Ribeirão Preto.

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