Há poucos dias li essa pergunta postada no facebook pelo meu amigo, André Godoi. Redator publicitário e diretor de cinema, André possui grande sensibilidade e capacidade para observar e tentar compreender o comportamento humano.

A postagem teve mais de 110 curtidas e cerca de 30 comentários. Deles, três me chamaram a atenção.

1. “Quando você fala, eu te escuto.”

Um elogio ao André, sim. Porém, uma prova de que filtramos as mensagens que nos chegam. Prestamos atenção somente naquelas que julgamos importantes. Qual o problema? Ora, o nosso preconceito. Quantos bons ensinamentos estamos perdendo apenas por não considerarmos a fonte digna dos nossos belos e preciosos ouvidos?

2. “Diálogo é coisa de cinema e literatura. Não existe na vida real.”

Uia, será? Será que hoje somente a ficção é capaz de produzir conversas inteligentes e produtivas? Será que a realidade ficou limitada a encontros que só geram bate-papos estéreis? Será que a humanidade está condenada à superficialidade e robotização?
Ironias à parte, não será verdade? Não em sua totalidade, claro, mas na maioria das relações sociais, não é o que acontece? Falta entendimento. Falta de diálogo.

3. “Aprender a escutar é sábio.”

Essa máxima não é novidade para ninguém. Goethe dizia: “Falar é uma necessidade, escutar é uma arte”. Bem, se temos consciência disso, por que não praticamos a arte de escutar em nosso dia a dia? É tão difícil assim?

Vou repetir a pergunta, por que não escutamos os outros? Por quê?
Algumas possíveis respostas:
Por falta de tempo.
Porque estamos distraídos, com os olhos voltados para nós mesmos.
Porque o outro não tem nada a nos acrescentar.
Porque já sabemos o que o nosso interlocutor irá dizer.
Porque a nossa opinião é a que vale de fato.
Porque estamos pensando no futuro. Ou no passado.
Porque não temos paciência.
Porque não toleramos pensamentos divergentes dos nossos.

As respostas são muitas, no entanto nascem da mesma raiz. Rubem Alves, escritor, educador, filósofo, já alertava: “Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa vaidade e arrogância.”

Bingo! Nós só estamos interessados em expor as nossas ideias, opiniões e convicções. Mas não estamos dispostos a entender os pontos de vista dos outros. Com isso, perdemos em conteúdo e novas perspectivas.

É nítido, o diálogo não se concretiza, então somos protagonistas de monólogos alternados, sucessivos e enfadonhos. Saímos de uma conversa da mesma maneira que entramos: incólumes.

E como deveríamos sair? Transformados, mais ricos, melhores, graças a uma interação efetiva/afetiva. Mas não, só queremos nos expressar. Só queremos falar. E queremos que os outros nos escutem.

Rubem Alves de novo: “Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir.”

Permitam-me, portanto, sugerir que todos nós façamos uma reflexão profunda a respeito. Em silêncio. Depois, que tal falar em voz alta aquilo que você concluiu? Exato. Escute o que você tem a dizer, palavra por palavra. Acostume-se a ouvir, mesmo que no início seja a sua própria voz. Mas não pare por aí. O que vai fazer a diferença em sua vida é o que os outros têm a dizer para você. Escute todos. Está me ouvindo?

P.S – Para constar: os mais de 30 comentários sobre o post “Você escuta a outra pessoa ou só espera a sua vez de falar?” foram, em sua maioria, gracejos. As poucas respostas sérias provocaram alguns breves e bons diálogos. Talvez seja um bom sinal.


Colunista: Raul Otuzi

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Raul Otuzi
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Raul Otuzi é Redator, Professor e autor do livros: “Tristes Finais para Começos Infelizes”, “Cenas de um casal publicitário”, “25 contos sobre relacionamentos humanos, seus abusos e absurdos”.

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