É o início de mais um ano, quando simbolicamente fazemos promessas pessoais, estabelecemos novas metas, expressamos desejos de mudanças. Parece importante questionarmos o que origina essa necessidade de renovação, uma vez que a mesma é comum à maioria das pessoas.  Talvez ela não se mostrasse tão intensa, se estivéssemos vivendo melhor, com um estilo de vida realmente escolhido por nós.

Somos treinados para atender a expectativas sociais, familiares, conjugais, muitas vezes ignorando nossas aptidões, desejos, talentos. Ao contrariarmos nossas necessidades pessoais, precisamos empreender um esforço maior para desempenharmos as atividades cotidianas. Isso gera um cansaço muitas vezes crônico, desgaste físico e psicológico. Despertar todos os dias para uma vida que não nos permite sermos autênticos significa quase sempre viver sem prazer.  Inconscientemente, para não enfrentar a situação, nos afastamos do presente, deixamos de vivenciar o aqui e agora, e nos transportamos ao passado ou futuro. Quando vivemos no passado, oscilamos entre recordações de bons momentos, e mágoas por sofrimentos e dificuldades que nos acometeram. Ficamos presos a emoções que julgamos importantes, mas que já tiveram seu papel nas nossas vidas, e podemos inclusive desenvolver mágoas, angústias, e até um estado depressivo. Ao projetarmos o futuro, geralmente propomos metas muito altas, que sugerem uma fórmula mágica que nos traga a felicidade almejada. Sonhamos em ganhar na loteria, receber uma promoção inesperada, conhecer um príncipe encantado. Viver à espera de algo muitas vezes irreal pode gerar uma ansiedade excessiva, sensação de frustração, medo do fracasso. Ambas situações (estarmos presos ao passado ou futuro) nos paralisam, impedindo que sejamos proativos e obtenhamos autonomia. A esperada mudança de vida só ocorrerá através do enfrentamento da realidade e de nós mesmos, e consequente tomada de atitudes e posições que gerem novas vivências. Alguns passos são importantes:

1) É necessário diagnosticar o que nos incomoda na situação atual, aquilo que causa mal estar. Muitas vezes generalizamos a vida como ruim, quando na verdade apenas uma área não está bem, como por exemplo um trabalho opressor. A mudança profissional pode nesse caso ressignificar a vida.

2) Analisar erros e acertos da trajetória da vida pessoal e profissional ajuda-nos a tomar atitudes mais acertadas. Alguém que se lance intensamente às relações amorosas, sofrendo muitas decepções, por exemplo, pode perceber a necessidade de conhecer melhor as pessoas, antes de assumir compromissos.

3) Toda mudança oferece riscos, o que nos leva à acomodação mesmo numa situação ruim, por ser conhecida. Assumir a possibilidade de novos desafios pode ser altamente motivador, se considerarmos que somos capazes de resolver os problemas que surgirem na nova trajetória.

4) Propor a si mesmo metas atingíveis completa um ciclo de mudanças. Existem as metas a curto, médio e longo prazo. Trabalhar por metas a curto prazo desenvolve a autoconfiança e propicia mais situações de prazer, assim como conduz a objetivos maiores e mais complexos.

Só poderemos viver o aqui e agora de uma forma tranquila, serena e agradável quando alcançarmos a coerência entre nossa forma de ser, e nossas atividades e relacionamentos com as tarefas e as pessoas. Portanto, comecemos a renovação acolhendo nosso presente, valorizando nossas conquistas, nosso cotidiano, para que o planejamento de vida seja viável e eficaz.

 

 


Colunista: Mariana Abdala Garcia

  • Mariana Abdala Garcia
    Mariana Abdala Garcia
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Mariana Abdala Garcia
Colunista

Psicóloga formada pela USP de Ribeirão Preto.
Possui experiência em psicologia organizacional e clínica. Atua há 27 anos como psicoterapeuta de adolescentes e adultos, na abordagem Gestáltica, e em orientação profissional.

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