Extenso, mas necessário preâmbulo.

Em 2015, fui convidado pelo amigo Arnaldo Júnior, para dividir autoria em um projeto literário que tem como protagonista um garoto com Síndrome de Down. Por conta da falta de tempo, demorei para começar a escrever, mas o aceite foi imediato, nem pensei duas vezes, pois Arnaldo, além de um amigo querido, é um escritor muito talentoso. Fiquei animado para reativar mais uma parceria; ano passado, lançamos o livro “Poemas Siderais”, tendo ainda, como parceiros, Alexandre Azevedo e Marciano Vasques.

Para começar a escrever a parte que me cabia no texto, fui buscar, revisitar minhas memórias afetivas, pedagógicas, ou não, enfim, as relações ao longo de minha vida com pessoas, na maior parte das vezes alunos, portadores da síndrome. Nesse déjà vu, lembrei do CRI, Centro de Reabilitação Infantil, dos meus compadres Guilherme Davoli e Neucy Braga, onde trabalhei no longínquo ano de 1985, dos alunos que passaram pelo Pequeno Príncipe e os que estudam atualmente. Recorri ao cinema, assisti novamente a “O oitavo Dia”, ao fantástico filme nacional “ Colegas” e ainda ao curta, também nacional, “ Marina não vai à praia”. Todo esse revival foi muito importante para “mergulhar” no projeto literário. Entretanto, uma memória afetiva foi imprescindível, para trazer elementos que me ajudassem a compor o nosso personagem tão especial. Voltei ao ano de 1998, quando fui morar em Campinas, para trabalhar na Fundação Síndrome de Down. Alí foi o meu batismo, foi lá que comecei a desconfiar que temos mais a aprender do que ensinar para eles. Sim, as agruras fazem parte, mas quem não as encontra em seu caminho. Se a vida o presenteia com o privilégio de ter amigos, filhos, alunos, aproveite:  pode ser sua maior chance de se tornar uma pessoa melhor.

Recentemente, Arnaldo e eu, tivemos o retorno de uma editora que pretende publicar o livro. Feliz da vida, comemoro, lembrando-me de 1998, e, de alguma forma, agradecendo publicamente à grande educadora, querida amiga Ciça Balabem. Não fosse por ela, eu não teria aprendido o que relatei acima. Não fosse por ela, talvez eu não tivesse como aceitar o convite, para escrever o livro, juntamente com Arnaldo Junior. Gratidão, Ciça!

1998

O primeiro semestre de 1998 arrastava-se, opaco, sem brilho algum no calor de Ribeirão Preto. Crônica de uma morte anunciada com data e hora marcada: final da tarde, último dia de aula antes das férias de julho. Era hora de encerrar um trabalho de dez anos. A escola continuaria a existir nas mãos de novos gestores, provavelmente tomando caminhos e rumos bem diferentes dos que vinham sendo trilhados até o momento. Eu estava me despedindo para a escola da qual fui um dos fundadores.

O sentimento era meio de um pai, até a batizamos  com um nome emblemático: Calidoscópio, e não com o seu registro mais popular- Caleidoscópio – por questões místicas, de numerologia e afins. “Calidoscópio”, ludicidade e transformação em um só brinquedo, palavras chaves para uma “ Pedagogia Viva” . Enfim, um dos pais da ideia estava indo embora e, ao contrário, levando consigo um sentimento de orfandade.

Um pai que acertou, errou e sobretudo aprendeu, pois os pais mais aprendem com seus filhos do que o contrário. Não viu o filho ganhar o “mundo”, pois o mesmo não teve longevidade, mas se sente orgulhoso pelas marcas deixadas pelo filho no coração dos que com ele conviveu, participando da curta, porém intensa e frutífera existência.

Voltando ao dia “D”, o meu derradeiro dia à frente da Educação Infantil da escola, no horário da saída, com o microfone nas mãos, chamei a última criança, acenei para a mãe que esperava dentro do carro. Em seguida, abracei a Irene, funcionária responsável pela manutenção e saí correndo sem olhar para trás.

Correr, aliás, foi tudo o que consegui fazer naquele julho de 98. Logo pela manhã, eu calçava um tênis surrado e saía correndo pelas ruas e avenidas de Ribeirão Preto e, quando à tardinha repetia o mesmo ritual. Ao final de um mês, correndo como o personagem de Tom Hanks em “ Forrest Gump”, até que fiquei “ bem apanhado”, como dizia minha avó Lili. Se o corpo estava em plena forma, a cabeça não ia nada bem, preocupada com o que faria com a vida real: vender nosso trabalho para garantir a continuidade dos sonhos.

A corrida, naquele momento, era outra. Deixei meu currículo em algumas escolas da cidade, mas a oportunidade que eu esperava surgiu de um fortuito telefonema de uma amiga que há muito não via, Ciça. Ela saíra de Ribeirão nos anos 80 para cursar Pedagogia na UNICAMP, coordenava o núcleo pedagógico da Fundação Síndrome de Down, uma das referências de excelência de atuação nesta área em nosso país. As filhas de uma querida amiga, prima de Ciça, haviam estudado na Calidoscópio e durante um bom tempo “ trocávamos figurinhas” sobre a fascinante aventura de andar pela vida aprendendo e ensinando.

Quando comentei sobre o meu desligamento da escola, para minha surpresa, Ciça convidou-me para uma visita à Fundação a fim de o trabalho por eles realizado e, também, por que não, dar uma “desanuviada” na cabeça repleta de indagações e incertezas!? Sem outro compromisso relevante, fui até Campinas para o que seria, a princípio, um breve reencontro com amigos queridos.

Fui para a casa da Bel, pedagoga e musicista virtuosa que generosamente me convidara para lá ficar por um tempo indeterminado. Logo na primeira noite, fomos dar uma volta ao redor da Lagoa do Taquaral e conversamos por algumas horas. Minha anfitriã, assim como a Ciça, também lecionava na fundação e disse-me uma dessas frases meio clichês que hoje habitam o facebook, mas que na ocasião fez todo o sentido para mim: “Às vezes, a vida nos convida  a mudar de cenário para ampliar o nosso olhar”. Voltamos para casa em silêncio, como se permitem bons amigos e vivi um sentimento que há muito não experimentava. O total desconhecimento do que estava por vir inundava minha alma, não mais de ansiedade e medo, mas sim de confiança e coragem. Estava começando a gostar de meu exílio.

No dia seguinte, fomos até a Fundação localizada no distrito de Barão Geraldo. Do estacionamento, ouvia-se o “Bolero” de Ravel. À medida que entrávamos pelo prédio, íamos deparando pelos corredores e pátios com cenas de um inusitado baile matinal envolvendo os adolescentes portadores de Síndrome de Down, os professores e os funcionários. Entre eles, Ciça. Dançava no sistema “dois pra cá, dois pra lá” com uma de suas alunas. Mal acenei, fui gentilmente convidado a dançar por uma aluna ruiva que, entre um passo e outro, perguntava se eu gostava de música.  Juliana, -não me esqueço- era o seu nome. Depois de um tempo ou algumas músicas, não sei dizer ao certo, meio que anestesiado, vi os alunos dirigirem-se  para as suas salas de maneira organizada e harmoniosa, enquanto eu, conduzido pela secretária, chegava até a sala da coordenação onde encontraria Ciça.

Pausa longa. Foram seis meses de bailes matinais. O bom repertório musical servia como um suave e breve  preâmbulo para as aulas que viriam a seguir. Nas duas tardes semanais que os alunos permaneciam na Fundação, para  as atividades pré-profissionalizantes, a trilha sonora servida após o almoço ia do tango ao forró, que funcionava como um fôlego extra para criar um ambiente propício para as atividades como culinária, informática, ateliê, e o “carro-chefe”, a confecção de papeis e cartões reciclados que, por conta da qualidade, eram comercializados por uma papelaria localizada no Shopping Galeria. De tudo isso o mais interessante era o clima que prevalecia durante as atividades, sempre de muita cooperação e bom humor. As crianças menores, por sua vez, frequentavam a Fundação duas vezes por semana. Eram atendidas no Núcleo de Estimulação composto por fisioterapeutas, fonoaudiólogas , musicoterapeutas  e terapeutas ocupacionais, além de participarem das atividades pedagógicas. Nos demais dias da semana, frequentavam as escolas de Educação Infantil de Campinas e de municípios mais próximos, que contavam com a capacitação oferecida pelos profissionais da própria fundação.

Andar pelos corredores e pátios  da fundação nos remetia a um passeio pelas praças e vilarejos do interior, com a vida regada de simplicidade, quando o encontro na rua nos traz um “bom dia- boa tarde”, mostrando-nos a doce possibilidade de fazer caminhar juntos trabalho, alegria e espontaneidade.

Mas, o maior legado desses tempos vividos em Campinas e na Fundação, foi o acolhimento em uma dimensão nunca antes experimentada por mim. O acolher pelo prazer de se estar juntos, com cada um podendo ser o que se é, percebendo que não existe quem seja deficiente em tudo ou eficiente em tudo. Lembro-me dos saraus na casa de minha anfitriã Bel, onde amigos, colegas de trabalhos, alguns  jovens alunos e seus pais faziam-se presentes.

A qualidade de acolher pode ser aprendida. Um bom começo talvez seja uma lição que as pessoas portadoras de Síndrome de Down já sabem de cor e que pode ser sintetizada por essa frase, cuja autoria é atribuída erroneamente à Clarice Lispector: “O que importa não é a velocidade, mas sim a direção.”

 


Colunista: André Luis de Oliveira

  • André Luís Ferreira de Oliveira
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André Luís Ferreira de Oliveira
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Psicopedagogia e Escritor (Literatura Infantil)
André nasceu em Ribeirão Preto, em 1964. Pedagogo, com especialização em psicopedagogia clínica e institucional. Iniciou em 1983, no Colégio Pequeno Príncipe( Ribeirão Preto – SP) como recreacionista. Fundou a Escola Calidoscópio, atuando durante 10 anos como diretor da Educação Infantil. Em Campinas, foi instrutor pedagógico na Fundação Síndrome de Down. Na UNIFRAN( Universidade de Franca) exerceu durante 4 anos a função de docente nos cursos de Pedagogia e Fonoaudiologia. Em 2000, retornou ao Colégio Pequeno Príncipe, onde atua como diretor, psicopedagogo, desenvolvendo projetos de jogos corporais e atividades ligadas à leitura e escrita. Ministra cursos e oficinas para professores, além de oferecer atendimento psicopedagógico clínico para crianças. É autor de A CIDADE DOS CACHORROS, BICHOS DIVERSOS, POEMINHAS RADICAIS, entre outros livros, para o público Infanto-juvenil. Criou o JOGO DA ACESSIBILIDADE – Ministério da Educação – Ministério das cidades – ABEA – MEC. André é colunista na revista “Leque” de Ribeirão Preto.

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