A sociedade moderna assiste a uma mudança na sua constituição. Nas últimas décadas, com os avanços da tecnologia e do capitalismo, vem aumentando significativamente a valorização do ter, em detrimento do ser. No interior dessas transformações, as relações de amizade, a valorização de atividades socialmente úteis e os princípios éticos são transferidos para um plano secundário das relações sociais. E pessoas de sucesso não são mais aquelas que vivem bem a sua realidade, mas sim as que alcançam prestígio, poder, dinheiro. Inseridos nesse contexto, os educadores – pais, professores e, em sentido mais amplo, o conjunto da sociedade – estimulam a produtividade dos jovens. O conteúdo programático das escolas prioriza a habilidade de elaborar informações de maneira lógica.

“…Por questões culturais, sociais e familiares, nem sempre nos é permitido expressar as emoções autênticas. Criam-se, inconscientemente, os disfarces, ou seja, emoções substitutivas e socialmente mais aceitáveis. Por exemplo, numa sociedade em que se diz que “homem que é homem não chora”, os garotos geralmente desenvolvem reações de agressividade ao sentir tristeza. Alguns disfarces mais comuns são: deboche, ironia, depressão, ansiedade, angústia, agressividade…”

As ações pedagógicas frequentemente orientam-se pela preparação de crianças e jovens para um mundo muito competitivo. Crianças e jovens são submetidos a uma sobrecarga de atividades, com o intuito de diferenciar-se dos demais: judô, jazz, língua estrangeira, etc. Espera-se deles que passem em vestibulares concorridos, façam estágios no exterior, alcancem ótimos cargos e salários.

Nesse ambiente atual, a demonstração de sentimentos tende a ser interpretada como inadmissível sinal de fraqueza. Considera-se fundamental o predomínio da racionalidade na condução da vida. Entretanto, todo pensamento e toda experiência relacionam-se com algum tipo de sentimento, que possui uma energia vital, da qual não se escapa. Quando reprimido, o sentimento pode adquirir proporções desmedidas e direções inadequadas.

Alguns fatores indicam que a supressão das emoções não tem alcançado bons resultados para os seres humanos:

– Crianças têm sido levadas a psicólogos cada vez mais precocemente (aos dois anos de idade, por exemplo), num claro sinal de que pais e escola não sabem lidar com suas emoções.

– O número de jovens trocando de curso universitário é cada vez mais alto, num sinal de escolha inadequada por falta de conhecimento de seu potencial e de suas habilidades.

– Os índices de abuso de álcool e de drogas entre adolescentes são muito preocupantes, revelando, dentre outros problemas, a insatisfação consigo mesmo.

Sendo assim, parece evidente que é necessário resgatar os relacionamentos, integrar os sentimentos ao pensamento, aceitar que todo indivíduo é movido também pela força dos seus sentimentos.

Segundo o psiquiatra Eric Berne, são cinco as emoções autênticas do ser humano:

Tristeza. É provocada pela perda de algo ou alguém que estimamos. Gera atitudes introspectivas, choro, paralisação dos movimentos.

Raiva. É a emoção proveniente de uma agressão externa. Quando expressa de maneira autêntica, através da luta, tem uma força que funciona como defesa para a pessoa.

Afeto. Deriva dos estados de amor (fraternal, filial, romântico). Geralmente induz a contato físico, como abraço, beijo, toque.

Medo. Provém de situações de perigo real para a integridade física e moral. Induz a atitudes de fuga e, às vezes, de luta.

Alegria. A conquista de algo ou alguém gera uma aproximação de outras pessoas, para compartilhar uma sensação boa.

Por questões culturais, sociais e familiares, nem sempre nos é permitido expressar as emoções autênticas. Criam-se, inconscientemente, os disfarces, ou seja, emoções substitutivas e socialmente mais aceitáveis. Por exemplo, numa sociedade em que se diz que “homem que é homem não chora”, os garotos geralmente desenvolvem reações de agressividade ao sentir tristeza. Alguns disfarces mais comuns são: deboche, ironia, depressão, ansiedade, angústia, agressividade.

Pode-se dizer que, ao ser impedida de viver sua autenticidade emocional, a pessoa apresenta dificuldades nas diversas áreas da vida: familiar, social, escolar e, na fase adulta, inclusive conjugal. Nos tempos atuais, sob primazia do ter, essa situação manifesta-se intensamente em crianças, jovens e adultos, que não aprendem a lidar com suas emoções autênticas e são estimulados à adoção dos disfarces. E como não existe verdadeira comunicação sem a interferência dos sentimentos, vive-se hoje uma situação análoga à Torre de Babel. As pessoas não se entendem e não falam a mesma linguagem, quer dizer, caminham em direções divergentes – fato bastante notável, por exemplo, nas salas de aula.

Algumas atitudes por parte dos educadores podem favorecer o estabelecimento de relações mais saudáveis, promovendo um ambiente propício ao aprendizado:

Conhecer seus próprios sentimentos e disfarces. Entendemos melhor essa necessidade se observamos, por exemplo, que um pai que se retrai e se cala ao passar por problemas no trabalho, pode expressar, sem perceber, indiferença por seu filho. Em perspectiva semelhante, uma classe pode sentir-se desprezada por um professor que se torna mais agressivo, simplesmente por ter medo de não ser aceito.

Falar sobre si mesmo. Quando o educador permite-se mostrar seus sentimentos, sendo mais humano, também está ensinando que é possível sentir raiva, medo, alegria, e ter reações pacíficas. Mostra inclusive que é possível desenvolver serenamente atividades cotidianas, independentemente dos sentimentos vivenciados.

Demonstrar empatia e interesse. Significa estar atento aos movimentos dos jovens, procurando entendê-los, e predisposto a reconhecer suas necessidades. Numa sala de cursinho, por exemplo, um professor, ao perceber o clima de alta tensão entre os alunos, ofereceu-se para ouvir e orientar aqueles que estivessem passando por problemas maiores. Esse simples gesto de colocar-se no lugar deles promoveu mais conforto e segurança para todos.

Valorizar as habilidades individuais. Cada ser é único. Alguns se destacam por suas habilidades intelectuais, outros manifestam inclinações artísticas, outros demonstram facilidade para os relacionamentos. Toda expressão de individualidade deve ser estimulada e respeitada, assim como as expressões autênticas dos sentimentos.

O sentimento expresso de forma autêntica colore a vida, trazendo energia e vitalidade às relações. A felicidade só poderá ser plena, ainda que cíclica, quando conseguirmos resgatar nossa capacidade de comunicação e, consequentemente, aprimorar nossas relações humanas, pois como disse John Donne, poeta inglês do século XVI, “nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo.”


Matéria por: Mariana Abdala Garcia

  • Mariana Abdala Garcia
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Mariana Abdala Garcia
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Psicóloga formada pela USP de Ribeirão Preto.
Possui experiência em psicologia organizacional e clínica. Atua há 27 anos como psicoterapeuta de adolescentes e adultos, na abordagem Gestáltica, e em orientação profissional.

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