O extenso treinamento é a base para dar aos professores a autonomia para trabalhar da maneira que eles quiserem. O resultado é uma profissão altamente valorizada e um sistema de educação sempre nas primeiras posições nos rankings internacionais. Mas como isso funciona?

Em uma sala de aula tranquila, decorada com desenhos produzidos por estudantes do ensino infantil, o professor Ville Sallinen está vivenciando um pouco da rotina que faz com que as escolas da Finlândia causem inveja em todo o mundo. Ele está ensinando as crianças de oito anos a ler e chegando ao fim de um curto estágio que faz parte de seu mestrado em Ensino para Educação Básica, com duração de cinco anos.

A escola de formação de professores Viikki, ao leste de Helsinque, descreve a si própria como um laboratório para formação de docentes. Aqui, Sallinen e outros colegas podem experimentar as teorias que aprenderam na universidade. Isso seria o equivalente aos hospitais-escola universitários para estudantes de medicina. O diretor da escola, Kimmo Koskinen, diz: “Esta é uma das maneiras de mostrar o quanto nós respeitamos o ato de ensinar. Ele é tão importante quanto o treinamento de médicos.”

“Queremos produzir dissonância cognitiva. A tarefa de um bom “didata” é perturbar o pensamento de alguém que assume que sabe tudo sobre o ensino “, diz Scheinin. “Só porque você está fazendo algo por 20 anos e funciona para você não significa que funcione para outros professores, outros alunos, ou em outros assuntos.”

Os professores da Finlândia tem mantido o país no topo dos rankings de desempenho internacionais (Pisa) desde que os primeiros dados foram publicados, em 2001. Isto tem criado um intenso fluxo de “turistas educacionais” como professores, coordenadores e diretores, que tem se esforçado para aprender com a expertise finlandesa.

Atuamente a Finlândia está passando por uma profunda crise econômica, e existem pressões financeiras sobre as escolas – assim como no resto do setor público. Mas o mestrado de cinco anos para professores do ensino primário é algo inquestionável, tanto que a concorrência continua feroz. Neste ano apenas 7% dos inscritos foram aprovados, deixando mais de 1.400 candidatos decepcionados.

Leena Krokfors, professora na Universidade de Helsinki, relata que o ponto alto no sistema de formação de professores finlandeses é o tempo que os alunos tem para aprender. E ainda segundo ela, enquanto os políticos entenderem que é necessário à Finlândia produzir bons professores, tudo bem. Segundo a docente, a formação de alto nível é a base para dar aos jovens professores uma considerável autonomia para escolher quais métodos eles devem usar em sala de aula, com liberdade e o merecido respeito à ela. Na Finlândia, os professores são, em grande parte, isentos de avaliações externas, tais como inspeções, testes padronizados e/ou controle do governo. Inspeções escolares foram abolidas na década de 1990.

“Os professores precisam ter acesso à essa educação de alta qualidade para que realmente saibam como usar a liberdade que lhes é dada, aprendendo a resolver problemas baseando-se em pesquisas e fontes confiáveis”, diz Krokfors. “A coisa mais importante que ensinamos a eles é a tomar decisões pedagógicas e julgamentos por si próprios, com liberdade e responsabilidade.”

Para uma nação pequena, agrária e relativamente pobre, educar toda a sua juventude seguindo o mesmo padrão de qualidade, era visto como a melhor maneira de recuperar o atraso em relação à outros países industrializados, de acordo com Pasi Sahlberg, um educador finlandês em Harvard que tem trabalhado para popularizar os métodos de ensino de seu País ao redor do mundo.  O sonho finlandês, como ele diz, era que todas as crianças, independentemente da sua origem familiar ou condições pessoais, deveriam ter uma excelente escola na sua comunidade – um ponto que permaneceu inalterado durante as últimas quatro décadas.

Na fase inicial, durante os anos 70 e 80, havia grande direcionamento central e controle sobre as escolas, com inspeções constantes e os currículos prescritos pelo Estado, o que dava ao governo finlandês um certo controle sobre as instituições e os professores. Em uma segunda fase, a partir do início dos anos 90, surgiu algo fundamental para criar uma nova cultura educacional, caracterizada pela confiança entre as autoridades educacionais e as escolas, desenvolvimento do controle local, do profissionalismo e da autonomia. As escolas tornaram-se responsáveis por sua própria avaliação e planejamento do currículo, enquanto inspeções estaduais foram abandonadas. Para isso, foi necessário que os professores tivessem credenciais acadêmicas elevadas e ser tratados como profissionais. Um processo com começo, meio e que ainda não terminou.

Krokfors explica, sob sua ótica, um motivo para a manutenção do alto reconhecimento do SER professor: “Se olharmos para trás, na história da Finlândia os professores sempre foram vistos como as pessoas responsáveis por trazer a civilização à pequenas aldeias” o que é um pensamento aceitável para um país modernizado em meados do século passado.

Não é somente a formação de professores na Finlândia que é fortemente baseada em pesquisa, mas todos os alunos do curso de mestrado de Ensino para Educação Básica estão envolvidos na investigação em si – um ponto de orgulho para Patrik Scheinin, decano da faculdade. O curso tem como objetivo produzir “didatas” que podem se conectar intervenções no ensinar com provas sólidas, diz ele.

“Queremos produzir dissonância cognitiva. A tarefa de um bom “didata” é perturbar o pensamento de alguém que assume que sabe tudo sobre o ensino “, diz Scheinin. “Só porque você está fazendo algo por 20 anos e funciona para você não significa que funcione para outros professores, outros alunos, ou em outros assuntos.”

No Liceu Normal de Helsinque, um dos 11 centros voltados à de formação de docentes, professores-alunos estão praticando em oficinas multidisciplinares de um dia inteiro, tendo alunos com idades de 13 a 19 anos. Em uma delas, Maria Hyväri de 24 anos, está discutindo Dewey, Steiner e Montessori, e pedindo aos alunos que pensem criticamente sobre os métodos de ensino na escola. As turmas e aulas são misturadas e não há streaming de áudio ou vídeo. “Eu quero fazer a diferença”, diz ela. “Existem todas essas novas ideias e ferramentas de ensino, e isso é ótimo, porque aqui podemos experimentar coisas diferentes – Isso me faz sentir inspirado” Porque a escola está cheia de professores-estudantes, os pupilos são “acostumados a se envolver”.

Hyväri está no meio de um curso de graduação em Francês e Inglês, mas ela optou por ter um ano adicional em pedagogia no meio de seu diploma de cinco anos. Isso proporcionará a ela um direcionamento para sair qualificada como um professora do ensino secundário. Durante este ano, ela gasta cerca de metade de seu tempo na escola, e a outra metade no departamento de ensino da universidade.

Para Olli Mättää, educador e formador de professores, os resultados obtidos pela Finlândia no Pisa são um subproduto do sistema, e não um objetivo central. “Quando obtivemos os resultados, nós estávamos pensando, se somos tão bons, quão ruim são os outros? Fomos pegos de surpresa “, diz ele. Isso mostrou que o país estava fazendo as coisas direito, ele diz, e justifica a decisão na década de 70 para criar todo esse processo de formação de professores.

Educadores apontam para fatores específicos que, historicamente, ajudaram a moldar as escolas da Finlândia, como a pequena população do país, o seu traço relativamente tardio para a modernidade, e ampla aceitação de valores como a igualdade e a colaboração, que são incorporados na versão do modelo de “bem estar nórdico”. Mas é inegável que a decisão de tornar a qualidade no ensino um assunto de grande relevância, deu uma cara diferente à sociedade finlandesa e a forma como o país é visto pelos demais.

“Os professores na Finlândia são profissionais autônomos, respeitados por fazer a diferença na vida das pessoas mais jovens”, diz Sahlberg.

Como resultado, aqueles que escolhem participar deste programa de treinamento são dedicados a ensinar para a vida, diz ele. “Minha preocupação é com os programas de preparação de professores, pois transformam o ato de ensinar em algo que você faz por um tempo, passa adiante e depois praticamente qualquer um pode fazê-lo.”

Voltando na escola primária, Ville Sallinen foi “picado pelo inseto” do ensinar há oito anos quando ainda estava na escola, quando começou a treinar futebol. Ele despertou seu interesse em trabalhar com crianças. Ele não é particularmente acadêmico, diz ele, mas como muitos alunos sua paixão por ensinar o levou para o mestrado.

“Eu gostaria de ter mais experiência em escolas como essa que estou tendo agora”, diz Sallinen. “No próximo ano nós não temos nenhuma disciplina prática. É bom para obter experiência em uma escola real. ”

Ao final de cada dia, ele se senta com sua mentora, Tunja Tuominen, e desconstrói momentos de ensino para então teorizá-los. Tuominen diz orgulhosa: “Os professores estagiários vêm aqui como pintinhos, com seus bicos abertos e ansiosos para aprender.”

 

Referência: The Guardian

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