Lugar comum é dizer que as pessoas não lêem no Brasil porque o livro é caro. Mito. Não posso compactuar com visão tão simplista, ou melhor, tão simplória. As pessoas não lêem por uma questão de hereditariedade: o avô não lia, o pai não lê e o filhos idem.  Essa “tradição” é assim perpetuada de geração a geração ad infinitum.

Fui criado, cresci e vivo na periferia de São Paulo. No entanto, possuo uma biblioteca de cerca de 1400 livros, que venho adquirindo desde os meus 14 anos, quando comecei a me interessar por literatura. Fui inspirado pela convivência com dois tios jovens, entre o fim dos anos 80 e idos dos 90, que não saíam de casa sem um livro debaixo do braço e, acredito que, por esse motivo, sempre cultivaram interesses tão diversos do convencional.

O jovem precisa de parâmetros, de um espelho. Durante a infância refletimos através dos gestos, olhares, atitudes dos nossos pais. Quando saímos do casulo e passamos a ter contato com o mundo exterior a nossa casa, naturalmente buscamos outras referências. O professor seria o ideal para fomentar o acesso a leitura entre os jovens, mas a sua figura anda tão desgastada, por conta de anos de descaso em relação à escola pública, sustentada por um Estado que não permite uma didática mais libertária, que o ensino da Literatura acaba se resumindo a descrição de movimentos artísticos e a enumeração de obras e autores. Decorar é a regra para sobreviver às provas.

Tempos depois de concluído o ensino médio, devido à leitura de uma matéria numa revista semanal a respeito de diversos saraus espalhados pela cidade, passei a freqüentar um na Vila Madalena. O contato com o sarau, o teatro, ou mesmo o cinema de qualidade, só me foi possível pelo interesse e a curiosidade despertados pelas minhas leituras pessoais.

“O livro é caro”, mas o acesso a internet, ao celular e a tevê a cabo, não.  No ambiente universitário, especificamente no curso de Letras, ocorre um fenômeno similar: boa parte dos alunos não lêem 1/3 do programa de leituras obrigatórias exigidas pelo curso. São especialistas em séries americanas do momento e sabem tudo sobre a nova sensação do rock inglês, mas ignoram a alta Literatura. Preferem best-sellers como “o livro que deu origem ao filme”.

Reflexo da sociedade, do momento histórico ou da falta mesmo da cultura do livro? É claro que o livro é caro! Em qualquer sebo, com apenas 10 reais você sai, pelo menos, com um livro nas mãos. Sem contar que para ler um livro não é necessário adquiri-lo. Existem feiras de trocas de livros, bibliotecas públicas, ônibus-biblioteca semanalmente nos bairros, fora as bibliotecas das próprias escolas.

O jovem não lê por “tradição” e também por conta do bombardeio diário, a que é exposto, da indústria cultural focada na imagem. Um exemplo disso é que ao lado de um dos maiores shopping centers da América Latina, o Shopping Aricanduva, fica a Biblioteca Milton Santos. A qualquer hora do dia, o Aricanduva está lotado e a Milton Santos, às moscas.


Colunista: Andri Carvão

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Andri Carvão
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Letras
Andri Carvão nasceu em São José do Rio Preto, interior de São Paulo, em 1978, auge do movimento punk. Artista plástico frustrado, poeta fracassado e crítico literário iletrado, segue
tentando graduar-se em Letras, com habilitação em espanhol, pela Universidade de São Paulo. Publica poemas regularmente na revista online Labirinto Literário, é colunista do site Educa2 e autor da trilogia poética “Um Sol Para Cada Montanha”, livro inédito e impublicável. Participou da Antologia Gengibre: Diálogos para o Coração das Putas e dos Homens Mortos.
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