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Trabalhar na Argentina como professor(a) de Português LE (Língua Estrangeira)

Certamente você deve estar se perguntando: mas a demanda é grande para aprender a Língua Luso-Portuguesa no país hermano? Como trabalhar legalmente na Argentina ministrando aulas e quais são os procedimentos que devo tomar para revalidar o meu diploma e os títulos? Qual a remuneração? Se eu for um engenheiro posso lecionar? Enfim, como funciona o mercado de trabalho na Argentina para o docente estrangeiro?

O Ensino de Língua Portuguesa como LE

Conforme a lei argentina 26.468 sancionada em 2008 e promulgada em 2009 houve na grade curricular das instituições públicas a inserção da língua Portuguesa como ensino de língua estrangeira (forma optativa), a implantação funciona da seguinte maneira: na capital argentina geralmente lá pelo sexto ou sétimo ano do ensino fundamental o discente terá um contato com o idioma e nas províncias do país a partir do primário.

Porém, algumas instituições não cumprem com a lei e alegam que há uma falta de profissionais qualificados ou porque a maioria do público ainda opta pelo ensino de língua Inglesa (realidade não muito diferente do Brasil se observarmos que o inglês é o carro-chefe e os outros idiomas vêm depois).

Em 2011, uma companheira da especialização e eu estivemos fazendo uma pesquisa de campo e havia muita carência de materiais didáticos, de docentes realmente licenciados em Letras, além de outra temática complicada como a do uso do “portunhol”. Na Argentina como no Brasil, havia um raciocínio de que não precisavam necessariamente aprenderem o idioma para que houvesse a comunicação, já que era muito parecido ao seu idioma materno, contudo, o Brasil nos últimos anos, antes de ocorrer toda essa crise econômica atual, cresceu consideravelmente e fortaleceu acordo comerciais tanto com a Argentina como com outros países do Mercosul, o que aumentou a grande demanda na procura pela aprendizagem do idioma.

E como geograficamente estamos mais próximos é muito comum que o turista “hermano” queira aprender a falar o Português do Brasil, que o de Portugal, apesar de existir o instituto Camões em Buenos Aires e muitos descendentes de portugueses em Buenos Aires.

Há o ensino de PLE para negócios voltado para executivos e funcionários (que precisam relacionar-se melhor no âmbito laboral) assim como cresceu o número de estudantes universitários nas áreas de Turismo, Hotelaria e Comércio Internacional que se interessaram em aprenderem o idioma para poderem trabalhar melhor com os turistas brasileiros que aumentam a cada ano.

Também há um interesse cultural por parte da população devido a importação de músicas e novelas brasileiras no país, além do turismo dos argentos em terras brasileiras.

Há também muitos institutos e escolas de línguas por toda a cidade de Buenos Aires e Gran Buenos Aires, que oferecem a língua Portuguesa como PLE. Felizmente não há um preconceito linguístico por aqui, o mercado é amplo para todos os sotaques, apesar de alguns cursos ainda direcionarem a língua do “carioquês” como estandar. Quanto a hora aula vai depender muito da localidade e da instituição de ensino. Nas escolas privadas, um sênior (como é nomeado o professor de PLE) pode ganhar entre 3000 mil a 8000 pesos ou até mais… Isso vai depender da carga horária semanal que a escola estipule e também se o professor tiver sorte de ser contratado ou conseguir quem o recomende, porque assim como no Brasil, aqui também não é diferente, há lugares que para trabalhar somente com QI “Quem indique”. A boa notícia é que a maioria dessas escolas trabalham em “branco” (e o que seria isso?) é o mesmo que trabalhar com relação de dependência, o profissional terá quase todos os mesmos direitos trabalhistas como quem assina a carteira de trabalho: férias, décimo terceiro etc. Para isso é necessário estar com os documentos argentinos em dia.

Revalidação de Diplomas e a burocracia argentina

Para revalidar o diploma pode levar um certo tempo se você deixar para resolver isso tudo na Argentina, primeiro tem que ir ao site do Ministério de Educação deles e agendar uma entrevista, na qual terá de apresentar todos os seus diplomas, incluindo históricos (autenticados e fotocopiados). Outra dica é que mesmo se você tiver concluído o ensino Superior em seu país, terá de apresentar primeiro o diploma do Ensino Médio para o MEC Argentino. Eles recebem e demoram como no máximo uns três meses para revalidar esse diploma (a demora se deve pela tradução e pela a verificação da autenticidade do documento). Por isso que há faculdades que estipulam um prazo longo ao aluno brasileiro, esteja certo de que o quanto antes você agendar isso é melhor.

Tome cuidado com a temporada alta, porque algumas vezes fica impossível de agendar, o sistema simplesmente fica congestionado, principalmente no início de semestres em que muitos estudantes se inscrevem.

Bom, depois desse procedimento, prepare-se para um outro agendamento e entrevista, dessa vez, com o setor que revalida o seu diploma acadêmico, sim! Porque você não pode agendar para os dois ao mesmo tempo, pelo menos quando eu fiz o meu há quase 5 anos, eles alegaram que o diploma do ensino médio deveria ser investigado antes e depois que comprovassem tudo, aí sim poderia revalidar o diploma universitário ou outros títulos. Logo nem tente arranjar um “jeitinho” brasileiro, porque não rola, sinceramente não há outra forma, que esperar mais uns três meses (e pelo que me informei recentemente muita coisa não mudou). Mas de qualquer forma, consulte antes pelo site do Ministerio de Educación.

Ah! E dependendo se faltar algum “carimbo” do Ministério das Relações Exteriores, que você tem que solicitar no palácio do Itamaraty-RJ, esteja quase seguro de que terá que regressar ao Brasil, porque corre o risco do MEC Argentino não revalidar nada, por causa dessas “pendencias”, o que acarretará muita dor de cabeça.

Em resumo: lá se foram seis ou mais meses…como se sustentar? Outra pergunta: E quando conseguir revalidar tudo será que o mercado de trabalho está mesmo favorável para a sua área?

Tudo isso é interessante pesquisar antes de aventurar-se em terras hermanas, entretanto, o impulso algumas vezes fala mais alto e não temos tempo de planejar.

Documentação, tipos de remuneração e as taxas de Impostos obrigatórias

Há muitos anúncios que buscam professores de idiomas para trabalhar em empresas ou em cursinhos. A hora aula está em torno de 150 pesos a 230. E creio que deve aumentar esse ano. E na época que eu cheguei aqui, isso em 2012, ficava entre 50 e 90 pesos e acredite tinham cursos pagando muito abaixo do valor, tipo 22 pesos. Sim! Há muitos cursos exploradores, mas se o seu objetivo é apenas ganhar referencias e adquirir experiência, recordando que por mais que você tenha bagagem do país de onde você veio (aqui você começara do zero!!) e ensinar PLE não é o mesmo processo que ensinar a língua materna para alunos nativos, pode valer a pena.

Lembre-se que por mais que você seja “fera” na matéria, vai perceber que a fonética e outras “cositas” mais são extremamente necessários para ensinar a um aluno estrangeiro e com certeza vai notar essa diferença logo nos primeiros dias de aula. Seja humilde e aceite os cursos de capacitação que o curso que te contratou proporciona, você vai aprender muito.

No quesito documentação há muita gente que prefere ir como turista no país e depois legalizar-se no centro de migrações em CABA a buscar informações precisas e desembolsar um valor significativo no consulado argentino, que fica localizado em Botafogo no Rio de Janeiro, sinceramente nem vale a pena, eu fiz na época e me arrependi.

A única recomendação válida é autenticar no cartório os seus documentos e apresentar nas relações exteriores ainda no Brasil, isso sim, é muito importante. Para entrar na Argentina não precisa de visto e nem de passaporte, por causa do Mercosul, basta apresentar apenas o RG atualizado, que não pode ter mais de dez anos. Muita gente entra como turista no país e depois solicita o DNI provisório (Documento Nacional de Identidad que é como se fosse o nosso Registro Geral) no centro de migraciones. Antes não precisava agendar, costumava ser por ordem de chegada, porém consulte a página desse órgão responsável e veja todas as informações necessárias, pode ser que tenham modificado e precise agendar agora. O procedimento era simples, se exigia: levar um comprovante de residência, dinheiro para pagar a taxa, que é um valor acessível.

Esse primeiro DNI geralmente é válido por dois anos e depois quando renovado a duração é por muito mais tempo. Garanto que é rápido e quando for renovar, o prazo máximo de recebimento é de uma semana. Em seguida, com a obtenção desse documento você deverá providenciar o CUIT (Clave Única de Identificación Tributaria) que seria uma espécie de CPF, procure a AFIP (Administración Federal de Ingresos Públicos) mais próxima de você e apresente os documentos solicitados (geralmente é o DNI e um comprovante de residência). Principalmente se você for trabalhar por conta própria (monotributista que é o equivalente a autônomo no Brasil) realidade da maioria dos docentes estrangeiros por aqui. É preciso se cadastrar na AFIP e ter um registro pela ANSES (Administración Nacional de Seguridad Social) que emite o CUIL (Código Único de Identificación Laboral) esse documento funciona como se fosse o nosso PIS.

É recomendável procurar um contador público de sua confiança, durante essa etapa, para poder te ajudar nessas tramitações, principalmente se você precisar declarar impostos para a ARBA (Agencia de Recaudación de la Provincia de Buenos Aires) caso você trabalhe nessa região ou a APR (Agencia Platense de Recaudación) na capital.  Sim aqui também tem leão!

Por isso, há muitas pessoas trabalhando em “negro” (sem documentação alguma e que não pagam nenhum imposto e nem taxas para a AFIP, mas também não têm direito a nada, nem mesmo a uma futura aposentadoria) trabalham por conta própria ministrando aulas particulares.

E não pense só que é o caso de pessoas físicas, há pessoas jurídicas também que não estão em dia com o seu CNPJ, por isso que é muito comum ir numa loja argentina e alegarem que não aceitam cartão de crédito/débito e provavelmente nem te darão nota fiscal…há uma falta de fiscalização muito grande por aqui e também denúncias trabalhistas contra esses tipos de comércios de “fachada” que agem ilegalmente, tenha muito cuidado ao prestar serviço a um tipo de estabelecimento assim. Uma empresa só será séria se te exigir a fatura do monotributo ou te contratar “en blanco”.

É bom enfatizar que ao pagar mensalmente a AFIP, está incluída uma obra social (essa última seria para o setor da saúde, mas não se iluda, porque não é nenhuma UNIMED ou AMIL da vida, contudo, dependendo, ainda é melhor que depender do SUS).

E se você trabalha em relação de dependência, a empresa desconta do seu contracheque tanto a obra social quanto o valor para a futura aposentadoria (assim como no Brasil) e a taxa da AFIP cairá significativamente, caso você continue trabalhando por conta própria e tenha que pagar. Existem também as chamadas categorias (Impuesto Integrado/Locaciones de Servicio): A, B,C,D,E. O que significa cada uma delas? O valor da taxa é crescente, ou seja, se você é da categoria B, pagará menos que o pessoal da categoria C ou D.

Outra pergunta comum? Quanto maior for a taxa que eu pagar, maior será a minha aposentadoria? Não. Definitivamente isso nada tem a ver com aposentadoria.

Lembre-se que tudo isso é obrigatório.

MERCADO DE TRABALHO

No meu caso, faltando uma semana para viajar, já estava espalhando CV via internet para diversos lugares, se todos me chamaram para uma entrevista? Não. Se consegui emprego em um desses lugares? Sim.

A questão é que com a crise econômica há muitos brasileiros graduados em outros cursos candidatando-se para trabalharem como docente de PLE no mercado de trabalho e que não possuem a mínima experiência em sala de aula, porque ainda não conseguiram revalidar o diploma ou já possuem tudo em dia, mas não obtiveram sucesso em conseguir emprego em suas áreas correspondentes, assim como há muitos estudantes universitários, que também almejam lecionar do que ter que trabalhar em comércios numa jornada completa.

Evidente que há alguns anos bastava que o sujeito fosse apenas nativo para dar aulas, mas isso tudo mudou, pois há muitos bons profissionais tanto brasileiros quanto argentinos licenciados em Língua Portuguesa ou especializados no ramo. E por isso a concorrência ficou acirrada.

Logo, o CCBA (curso oferecido pelo consulado do Brasil na Argentina) conhecido como antiga FUNCEB assim como o instituto de Lenguas Vivas promovem a formação de Professores, título reconhecido no país, que ajudam na capacitação desses futuros profissionais que poderão atuar em escolas, empresas e até em cursos de idiomas extracurriculares oferecidos por universidades. Tome cuidado com instituições que não estão registradas e nem autorizadas pelo MEC do território argentino e que se nomeiam “formadores de professores”, há alguns lugares que oferecem cursos intensivos, tipo seis meses e cobram muito barato ou valores exorbitantes, desconfie dessas ofertas utópicas.

Já participei de entrevistas e dinâmicas de grupo que eram muito comuns ouvir comentários como esses: “Os horários são flexíveis e posso fazer a minha faculdade pela noite”, “Aqui não pagam nada mal, dá para o gasto” ou “Não domino muito o Espanhol, mas acho que posso aprender com os meus futuros alunos”. O perfil dessas pessoas é muito comum: estão desempregadas e precisam desesperadamente ingressarem no mercado de trabalho para pagarem o aluguel, seja de um quarto de um albergue estudantil, de um apartamento que divide com amigos e/ou familiares ou de uma casa. A realidade não é muito distinta das necessidades de um trabalhador brasileiro, todos precisamos trabalhar por algum motivo e pagar as contas.

Claro que há pessoas que já trabalham em outros setores e desejam aumentar a renda dando aulas por conta própria, porém não é comum que se candidatem num curso ou em uma empresa, pois esses lugares escolhem preferentemente quem tenha disponibilidade total para que possam encaixarem nos diversos horários, que haja a possibilidade de formarem várias turmas. Não é válido para eles contratar um professor que só possa trabalhar num horário e que não vista a camisa da instituição.

Sem esquecer da maior barreira: o idioma, muitos brasileiros ainda não dominam bem o castelhano e acreditam piamente que não é necessário falar a língua do discente, já que o ensinará a sua língua materna. Há alguns colegas que concordam com essa teoria. Correta ou não, o mercado de trabalho está crescendo e as exigências, aumentando.  É muito importante sim que você fale bem a língua do país, o qual escolheu morar, ainda que não fale fluentemente como um nativo, mas sim, que saiba se comunicar. Porque em todo o ensino-aprendizagem há uma troca de conhecimentos. Pense bem: Como vou ensinar a minha cultura e a minha língua materna ao aluno, se não me interesso pela cultura e o idioma dele? Pode parecer dramático, mas tenha a certeza de que o aluno repara sim e muito!!

Para esse discente é interessante aprender um idioma estrangeiro, mas se sentir seguro que seu/sua professor(a) o esteja compreendendo, em especial, nos primeiros anos de familiarização com o idioma, é comum no início que o discente desenvolva o processo da interlíngua durante o curso básico. Tanto a língua Portuguesa quanto o Castelhano apresentam semelhanças e significados diferentes, que podem deixar o docente em situações trabalhosas, a ponto de que seja mal interpretado pelo discente. Todo cuidado é pouco, se não domina bem o idioma, procure estudar muito antes de lecionar, evite situações constrangedoras.

Mas voltando ao processo seletivo, é mais arriscado a efetivação de pessoas inexperientes do que de docentes habilitados, seria porque essas pessoas podem não terem tantos vícios de trabalhos anteriores e serem treinadas para o perfil da empresa? Pode até ser. Mas o mais provável é que seja pela remuneração salarial, que o curso teria de pagar a um profissional experiente, e resolve pagar menos a quem não tem experiência. Se isso é ruim? Vai depender da consciência alheia, se uma pessoa sabe que não tem qualificação como docente e precisa adquirir experiência e referencia poderia aceitar essa oportunidade de trabalho.

Calma licenciado! há ofertas de trabalho para todos! Por exemplo, há lugares que pagam um salário conforme o mercado, que exige formação e experiência, além de fornecer ao professor cursos de capacitação, inclusive para os docentes licenciados de outras disciplinas, que possuem didática, mas não o conhecimento específico na área de Letras. Felizmente é benefício para os discentes, pois com professores melhores qualificados, o ensino de PLE melhora significativamente.

O que é excelente para aqueles alunos que estão se dedicando em cursos preparatórios a fim de conseguirem aprovar no exame do Celpe-Bras (Certificação de Proficiência em Língua Portuguesa para Estrangeiros).  Além dos estudantes argentinos você vai se deparar com alunos de outras nacionalidades que vêm estudar ou que já estão radicados no país como por exemplo: chilenos, colombianos, paraguaios (que tem o guarani também como língua), peruanos (alguns falam aimara ou outras línguas herdadas dos povos originários, atualmente há uma política de proteção a esses idiomas de herança no caso de alunos peruanos e bolivianos que renderia história…é um assunto que pretendo abordar em outra coluna) entre outros estrangeiros, que também não são latinos, como canadenses, franceses, americanos etc.

Há também alunos da terceira idade que participam de projetos realizados nas universidades como a UPAMI (Programa Universidad para Adultos Mayores). Oferecem não só um programa de idiomas como desenvolvem diversas atividades, estimulando a autoestima e uma melhor qualidade de vida na melhor idade.

Enfim, trabalhar na Argentina assim como em outros países hispano-falantes é sem dúvida, uma experiência única e muito gratificante.


Colunista: Eloize Ribeiro de Oliveira

  • Eloize Ribeiro de Oliveira
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Eloize Ribeiro de Oliveira
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Área de atuação Idioma e Literaturas
Do Rio de Janeiro, mora faz 5 anos em Buenos Aires. Licenciada em Letras (Língua Portuguesa/L. Espanhola), especializada em Docencia de Língua Espanhola no Ensino Superior e Mestranda em Estudios Literarios Latinoamericanos. Atualmente leciona língua Portuguesa par estrangeiros em duas universidades argentinas.
Adora viajar e cozinhar.
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