Na busca por nossa eterna necessidade de conhecermos o mundo a nossa volta, podemos e, em certos casos, até devemos nos aventurar em lugares e situações das mais diferentes estirpes.

Bibliotecas, internet, museus, antiquários, palestras, cultos, reuniões com pessoas “vividas”, “descoladas” ou “colunáveis”, e até os mais divergentes etecéteras podem ser um bom começo.

Dias atrás, sem necessariamente estar buscando alguma nova resposta para velhas questões humanistas, me peguei de boca aberta diante de um espetáculo no mínimo fascinante. Fui ao circo, com minha família.

Durante a apresentação, me senti tomado por um misto de emoções que iam do riso escancarado, passando pela admiração mágica, até chegar a uma tensão ofegante.

Cores, sons e enigmas se misturavam de forma tão harmônica, que chegava a ofuscar uma discreta placa que nos informava que aquela família circense vinha rodando o mundo a cento e sessenta anos.

Cento e sessenta anos rodando o mundo significa dizer que, debaixo daquela lona azul se transpira experiência, determinação e crença naquilo que se faz.

Das empresas ou famílias que você conhece, quantas resistem ou resistiram tanto tempo, dentro de seus projetos?

Em determinado momento, quando acreditava, por todo o brilho do espetáculo, estar recompensado de ter me deslocado de casa (coisa que inicialmente não queria), veio a grande surpresa que me desbancou.

Nada de tão novo, pois quando criança eu já havia presenciado o fato, porém sem a dimensão que hoje me toca.

Durante o intervalo, apareceram vendedores de balas, refrigerantes, água, salgadinhos e lembrancinhas de todos os tipos. Estranho, vendedores maquiados?

Sim, os artistas que até minutos antes eram os heróis de toda aquela parafernália, se despiam de suas vestes (símbolos de força e galhardia) e se transformavam em reles mortais que diariamente precisam se desdobrar em “n” funções, para ter o direito de se sentirem membros enquadrados naquilo que a sociedade espera deles.

Todos se desdobrando com serenidade, certos de que é muito além da lida da vida que está a razão de se viver.

A trapezista vende doce, o ilusionista refrigerante, as bailarinas montam cachorros-quentes e o palhaço faz descontos nos mais diferentes suvenires.

Mas não pense que a metamorfose se restringe às duas horas do espetáculo. Durante o dia se revezam nas funções de motoristas, alimentadores de animais, faxineiros, cozinheiros, divulgadores da apresentação, esposos, pais e mães, gente.

Qual será o papel mais importante?

Caetano Veloso, na década de 80 cantou: “gente é pra viver, não morrer de fome”.

Gente é para experimentar e ser experimentada pelo mundo.

Nossos problemas nunca são grandes em si. Eles crescem de acordo com nosso julgamento, a partir da pequenez (pode chamar de especialização) que acreditamos ser.

A glória do acrobata, por mais que resplandeça na noite, se materializa e se firma nas relações que ele mantém com seus pares, à luz do dia.

A grande sacada é que não somos dotados de ferramentas únicas.

O psicólogo americano Larry Crabb, se referindo ao fato de que muitas vezes nos vemos tão presos ao que somos, ou seguimos, que acabamos por ver o mundo por um único ângulo, disse que “quando somos martelos, todos os problemas se parecem pregos”.

Queremos que as adversidades da vida se enquadrem às nossas receitas, quando na realidade cabe a cada um de nós, se redescobrir a cada novo momento ou necessidade.

Você pode procurar respostas para suas dúvidas existenciais em muito lugar bonito e interessante desse mundo.

Hoje eu te recomendo: vá a um circo.


Colunista: Guilherme Davoli

  • Guilherme Davoli
    Guilherme Davoli
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Guilherme Davoli
Colunista

Psicólogo atuante como psicoterapeuta, professor de psicologia, consultor empresarial e educacional. Autor dos livros:
“Admirando a tempestade e brincando com o vento”
“Vítimas e aprendizes da própria história”
“Somos mais que um simples espetáculo” “Colecionadores de histórias”
Articulista das revistas: “Evidência”, “Profissão Mestre”, “Conectado”, “Ultimato online”, SME-Sistema Mackenzie de Ensino” e do jornal “The Brasilians” (New York). Palestras, cursos e oficinas em empresas, órgãos públicos e instituições de ensino, desenvolvendo temas pertinentes à educação, relacionamento interpessoal e qualidade de vida.

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