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Consumir é uma atividade humana. Certo, mas o que consumimos? Rapidamente vem à mente uma resposta elementar: bens materiais e serviços. Contudo, mesmo sem uma reflexão mais profunda, é possível concluir que isso não é tudo. Consumimos também tempo, espaço e, principalmente, representações. A representação da perfeição, da beleza, da força, da atuação sobre as possibilidades. Por exemplo: quando um indivíduo compra um carro, além do bem material, ele adquire o domínio sobre a distância e, dependendo do modelo do veículo, status, virilidade etc.

Na sociedade contemporânea, consumo e felicidade estão intrinsicamente ligados. Segundo Baudrillard, eles se associam, principalmente, quando a Indústria Cultural mostra em suas produções (novelas, propagandas, filmes) personagens realizados porque adquiriram bens materiais. Todavia, quem compra objetos crendo que obterá felicidade, muitas vezes não a encontra e, assim, cai em um vazio que só um novo consumo pode preencher. A incessante decepção de encontrar a felicidade no consumo leva a indústria a sempre produzir lançamentos para trocar a insatisfação por uma nova necessidade. Epicuro dizia que a ambição é a grande vilã da felicidade, pois o sentimento de insaciedade conduz o homem a buscar incessantemente mais do que o necessário para viver bem.

Não é exagero afirmar que tudo é mercadoria na contemporaneidade. Mesmo as relações do indivíduo com o outro e consigo mesmo são coisificadas. Exemplo elucidativo: uma empresa suíça promete “imortalizar” o ente querido cremando o corpo e o transformando em pingente. Até a morte torna-se produto.

Muitas pessoas só conseguem encontrar raros momentos de felicidade nas festas, passeios, novelas, filmes, músicas, entorpecentes, ou seja, apenas fugindo desta vida estressante, conflituosa, e contraditória. Mas não há efetividade sem contradições. E, assim, novamente cai-se na decepção. Trabalha-se seis dias da semana para ter condições financeiras de desfrutar um sábado nas festas, um domingo nas praias ou uma viagem de uma semana. E quanto mais se desfruta mais traumatizado pode tornar-se e acabar mais viciado neste processo catártico. Theodor Adorno afirmava: “Divertir-se significa que não devemos pensar; que devemos esquecer a dor, mesmo onde ela se mostra. Na base do divertimento planta-se a impotência.”

O filósofo francês Gilles Deleuze classifica a sociedade contemporânea como a sociedade do controle. Afirma que as instituições sociais modernas produzem indivíduos mais flexíveis que antes e com isso cria um paradoxo: o indivíduo não pertence a nenhuma identidade e pertence a todas, pois sente a necessidade de aceitação em determinado grupo social (que por apropriação vira nicho mercadológico) e, ao mesmo tempo, a necessidade de diferenciação dentro do próprio grupo. Todavia, a flexibilidade da sociedade de controle é apenas aparente. Mesmo fora do seu local de trabalho, o indivíduo continua a ser intensamente governado pela lógica disciplinar. Há uma vigilância contínua, concretizada, por exemplo, pelas câmeras espalhadas por toda parte. É possível, por assim dizer, trabalhar sem horário fixo, mas a necessidade de alcançar a melhor performance impõe um stress constante. Toma-se banho pensando num projeto; ouve-se rádio à noite preparando uma apresentação para o dia seguinte. Assim, perpetua-se uma escravidão silenciosa. Trago Adorno novamente: “no capitalismo, não há tempo livre, apenas tempo liberado.”

Guy Debord descreve a sociedade contemporânea como a “sociedade do espetáculo”, que substitui o cogito cartesiano “Penso, logo existo!” por “Sou visto, logo existo!”. A mídia, obviamente, é o centro de seus exames. Mesmo quando se veste de criticidade, é preciso analisá-la com ressalvas, pois, na maioria das vezes, ou ela é descritiva ou sensacionalista. E, além disso, é nos meios de comunicação que se propaga o que deve ser consumido. Dilui-se a fronteira entre o suplício e o prazer, entre o são e o doentio: de um lado um anúncio convida covardemente aos deleites de um delicioso chocolate. Do outro, inúmeras revistas estampam corpos perfeitos em suas capas e revelam “receitas” para alcançar tal perfeição. Cientificiza-se o discurso midiático, como nos casos dos cremes de beleza que são testados nos melhores laboratórios, pelos melhores cientistas. Perde-se a credibilidade no vazio discursivo, como se observa na capa de uma revista de circulação nacional: “Chegue com todo gás aos cem anos!”. Cabe a questão: estamos preparados para viver cem anos? Difícil, pois na sociedade contemporânea, a vida do sujeito resume-se à vida “ativa”.  E para ser “ativo”, este sujeito precisa trabalhar oito horas por dia (às vezes mais) em um local que muitas vezes não gosta. Como consequência, ele acaba subutilizando sua capacidade crítica, reflexiva e estética e, sem perceber, abre mão da sua humanidade. Vale tamanho sacrifício em prol do consumo?

 


Colunista: Matheus Arcaro

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Matheus Arcaro
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Professor de Filosofia e Escritor.
Matheus Arcaro nasceu em 1984 em Ribeirão Preto, onde vive atualmente. Graduado em Comunicação Social e também em Filosofia. Pós-graduado em História da Arte. Atua como professor de Filosofia e Sociologia, artista plástico e palestrante. Desde 2006 tem artigos, crônicas, contos e poemas publicados em veículos regionais e nacionais. Seu livro de contos ‘Violeta velha e outras flores’, publicado em 2014 pela Patuá, vem recebendo ótima crítica em âmbito nacional. Seu romance será publicado em 2016.

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1 COMENTÁRIO

  1. Nossa!
    Eu poderia assumir a autoria desse artigo!
    É exatamente como vejo a realidade em que vivemos.
    A ferramenta fundamental utilizada pelos globalistas para alcançar seu objetivo é o “group think”.
    O artigo acima poderia ser intitulado de “Group Way of Life”.

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