Há tempos ando percebendo que estou sendo uma marionete de um sistema. Tudo começou quando fiz meu mestrado em História das Ciências e logo depois o doutorado em Filosofia. Sou formada em física e leciono no ensino médio há quase vinte anos. Somente há cinco ficou claro que o conceito de ciência que eu formava em meus alunos em minhas aulas de física – e que eu havia recebido tanto na Escola quanto na Universidade – estava tremendamente equivocado. Por que fizeram isso comigo? Mais ainda: por que me forçaram a fazer o mesmo com outras pessoas?

Estudando os documentos oficiais tanto brasileiros quanto de outros países no que diz respeito ao que deve ser ensinado nas escolas, ficou claro que há conceitos que devemos discutir e “ciência” é apenas um deles que, hoje, vou deixar de lado. Gostaria de propor com esse texto uma reflexão sobre algo maior:  a “Educação”. O que vocês lerão aqui é um breve ensaio de um estudo aprofundado sobre o tema. Não estou inventando a roda ou, melhor, desinventando. Apenas coloquei aqui o resultado dessa minha recente pesquisa com as minhas próprias palavras. Há tanto o que dizer e revelar que pretendo escrever um livro, mas a vontade e a necessidade de compartilhar é tamanha que me arrisquei a fazer esse breve texto economizando maiores detalhes. E afirmo, qualquer um que esteja preocupado com justiça social deve primeiramente refletir sobre a “Educação”.

É comum não pensarmos a respeito de conceitos que usamos no nosso dia a dia. “Sabemos” do que tratam certos vocábulos até o momento em que passamos a refletir sobre eles. Educação. Quase não se fala sobre isso, mas a Educação Pública e Obrigatória foi inventada em um determinado momento da nossa história. Na Antiguidade, havia espaços para a conversação e a reflexão. A instrução obrigatória por muito tempo era coisa somente para escravos. No mundo ocidental, a “Educação” esteve nas mãos, por um bom período, da Igreja católica e não possuía ainda as características que a definem atualmente. Somente no final do século 18 que se criou o conceito de Educação pública, gratuita e obrigatória. A Escola, tal como a conhecemos hoje, começou na Prússia com o objetivo de evitar as revoluções que se sucediam na França. As escolas prussianas se baseavam na forte divisão de classes e, tal como o regime espartano, pregava a obediência e o autoritarismo. Os monarcas até incluíram alguns princípios do Iluminismo certamente para satisfazer o povo, mas mantinham o regime absolutista. E o que buscavam os déspotas esclarecidos? Um povo dócil, disciplinado e que se pudesse preparar para as guerras que aconteciam na época entre várias nações que estavam nascendo. Diderot, uma figura famosa dentre os iluministas, ajudou a elaborar como seria a formação desses cidadãos obedientes e súditos do Estado.

O mundo gira, a Lusitana roda e, em poucos anos, a América e outras nações da Europa visitaram a Prússia para se capacitarem. “Educação para Todos” já era uma frase que se usava assim como a bandeira da igualdade quando justamente a essência do sistema educacional provinha do despotismo buscando perpetuar os modelos elitistas e a divisão de classes. Napoleão importou essa “educação” para também formar seu corpo docente e poder dirigir a opinião dos franceses.

A escola nasce em um mundo que começa a ser regido por uma economia industrial, portanto, busca obter os maiores resultados observáveis com o menor esforço e investimento possível aplicando, em muitos casos, fórmulas científicas e leis gerais. Nessa esteira, a escola era a solução e a resposta ideal à necessidade para se preparar  trabalhadores. Não foi sem motivo que foram os grandes empresários do século 19 que financiaram a escola obrigatória e não é difícil perceber que o modelo de formação industrial como uma linha de montagem era perfeito para ser usado nas escolas. A educação foi comparada à manufatura de produtos e por isso a importância e necessidade de uma série de passos determinados.

E hoje? Se olharmos de cima, bem do alto, percebemos que atualmente a educação também funciona como a melhor ferramenta para formar trabalhadores úteis a um determinado tipo de sistema e também para fazer a cultura permanecer a mesma – o que significa conservar a estrutura da sociedade.

Qual o papel do professor? Ele era (como hoje continua sendo) o encarregado de ensinar uma série de conteúdos determinada por alguns administradores. Percebam o que eu acabei de dizer: a Educação não foi preparada por educadorese sim por administradores. Na “linha de produção” uma pessoa estaria a cargo de uma pequena parte do processo que é propositadamente insuficiente tanto para conhecer o mecanismo em sua totalidade e as pessoas em profundidade. Nós, como professores, temos várias turmas com uma média de 40 alunos por ano o que torna o nosso trabalho, de fato, puramente mecânico de uma forma geral. As exigências e as pressões terminam por desumanizar a todos seja professor, seja aluno, seja diretor, seja inspetor.  Somos um mero funcionário que obedece a uma autoridade que dita o que temos que ensinar e de que forma devemos fazer isso.

Esse esquema de “linha de montagem” foi aplicado na indústria, no exército e em grande parte das escolas no mundo, principalmente, as do ocidente. Será que é uma coincidência o fato de as escolas serem imagem e semelhança das prisões e das fábricas priorizando o cumprimento de regras e tendo um total controle comportamental e social? Pelo muito que li e estudei posso garantir: não. A escola, no formato que a conhecemos, foi feita para ser uma fábrica de cidadãos, como já dito acima, obedientes, mas mais do que isso: consumistas e eficazes para o sistema.

Outra pergunta interessante a se fazer é: por que todos têm que saber o mesmo? Quem disse e escreveu isso? Se somos tão diferentes, se cada um de nós constitui senão um universo uma galáxia talvez, por que todos temos que aprender do mesmo jeito e ao mesmo tempo? As nossas escolas não têm capacidade e muito menos se propõem a responder às necessidades de cada um. Por quê? Porque ela não foi feita para educar  e sim para instruir.

Nosso sistema “educativo” é um sistema de exclusão social que seleciona o tipo de pessoa que vai para a faculdade para fazer parte de uma elite. A nossa “Educação” nas escolas não tem como função olhar e trabalhar cada um, ou seja, até hoje seguimos o mesmo modelo das escolas prussianas dos idos dos novecentos: ensino padronizado, aulas obrigatórias, divisão de séries por idade, currículos desvinculados da realidade, pressões por parte dos professores que por sua vez são pressionados por coordenadores e diretores, prêmios e castigos, horários rígidos e uma estrutura vertical.

O que a escola tem a ver com “Educação”? Nada. Absolutamente nada dependendo de como você compreenda o que seja educar e, por tabela, o que é considerado como uma boa educação. Somos, por um acaso, bem educados para você se conseguirmos adquirir conhecimentos que naturalmente não nos interessariam e superarmos barreiras que outros nos impõem? Ou seríamos bem educados quando somos encorajados e estimulados a alcançar uma boa qualidade de vida que não tem absolutamente nada a ver com nosso conforto material?

Vou propor a você um experimento de pensamento. Esqueça, por um momento, tudo o que disseram que deveríamos aprender na vida. Feche os olhos por alguns minutos e tente ver cada coisa como se nunca tivéssemos visto. Avalie, ao seu modo, cada ação, cada costume. Saia da caixa e veja de fora dela. Se pudéssemos escolher como deveríamos ser educados, a forma que temos hoje está lhe parecendo uma boa maneira de fazê-lo? Quem formamos nesse sistema de ensino? Respondo me colocando como fruto desse sistema tanto como aluna que já fui como professora que sou há duas décadas: formamos pessoas que sabem logarítmos e diferenciar briófitas de pteridófitas, mas não sabem como se relacionar com outras pessoas e com o meio ambiente.

O sistema sempre exige muito mais do que o ser humano – seja ele criança, seja ele adolescente – pode dar. Veja que as médias das turmas jamais são “dez”. Isso gera uma criança estressada, um adolescente com a auto-estima baixa e sem vontade de aprender, pois “aprender” se tornou um processo tedioso e difícil. São raras as crianças que aos doze anos, por exemplo, peguem um livro para ler por livre e espontânea vontade e curiosidade. Quem fez isso com ela?

Informação é definitivamente diferente de compreensão. A última é uma ferramenta em constante crescimento com características únicas que variam para cada indivíduo. Compreensão implica estabelecer relações entre conceitos e critérios e resolver problemas e construir novos conhecimentos. A primeira é o que é passado na maioria das escolas. Nossos alunos viram depósitos de informações e são bem recompensados por isso quando têm sucesso nessa empreitada. A informação que a escola deve passar para seus alunos é o que constitui o currículo. Mais uma vez cabe a pergunta: Quem fez o currículo aplicado nas escolas e com qual objetivo?

A aprendizagem profunda é aquela que se dá baseada no interesse, na vontade e na curiosidade. É muito mais do que estar bem informado. Porém, tanto a escola como a sociedade em que vivemos levam a assumir motivadores externos para alcançarmos nosso objetivo; dito de outra forma, a meta que nos forçaram a ter se resume a “ser alguém na vida” que por sua vez se traduz como “ser alguém bem sucedido” que todos aprendemos como sinônimo de poder ter riquezas materiais. Se buscarmos a origem da palavra “educação” veremos que ela vem do latim educare, por sua vez ligado a educere, verbo composto do prefixo ex (fora) +ducere (conduzir, levar), e significa literalmente ‘conduzir para fora’. Não para dentro. Significa, por essa esteira, motivar. E percebam com clareza uma coisa: uma pessoa pobre, sem dinheiro, não é, na sociedade, vista como uma pessoa bem sucedida. Aquele que estuda por prazer e não gera dinheiro com seu conhecimento é visto como louco ou burro por grande parte das pessoas que o rodeiam. Temos de uma forma geral, a ideia de “educação” como uma única via de ascensão sócio-econômica.

A tarefa do professor deveria ser mostrar mistérios, mostrar situações na natureza mesmo que já estejam descritas pela ciência de modo que o educando se surpreenda. E já que falamos sobre ciência, vale lembrar que ela se apresenta na sua história como composta de muitos mais erros do que acertos. Thomas Edison, o inventor da lâmpada elétrica, fez mais de mil tentativas antes de conseguir o modelo final. Quando um jornalista perguntou como ele se sentia depois de ter fracassado mil vezes, ele respondeu: “Não fracassei mil vezes, a lâmpada é uma invenção que requer mil passos”. E são raríssimos (nem sei se existem) os livros de ciência do Ensino Fundamental e Médio que apontam os erros dos cientistas.

Voltemos à nossa reflexão maior sobre “educação”. Outro ponto a entender: por que os alunos são agrupados por idades? Para que haja uma maior homogeinização: se uma criança fala pouco, ela tem que falar mais. Se uma criança fala muito, ela tem que falar menos. Há um protótipo que deve ser buscado. Porém, para quem tem mais de um filho como eu ou tem irmãos ou primos, fica muito claro que cada um tem um ritmo e uma maneira de aprender diferentes, motivações distintas assim como são também as formas de se relacionar. Mas as nossas escolas desprezam isso e a educação sem liberdade e sem esse respeito ao tempo de cada um gera uma vida que não pode ser vivida em sua plenitude.

Já imagino você me perguntando, como pai ou professor, se a falta de um discurso autoritário e de uma ordem não geraria uma indisciplina geral e um caos. Em outras palavras: há outra forma de se educar? Primeiramente temos que definir bem o que você está chamando de “disciplina”. Seria ela, por um acaso, uma forma de impôr um determinado tipo de comportamento? De onde surgiu essa ideia que educação deve ser repressiva? E você como pai, mãe ou professor, ou seja, como “educador”… como as suas emoções são controladas? O que sentem quando estão educando? Sentem-se em paz ou em conflito? Se não somos felizes educando, estamos de fato educando?

O discurso na maioria das casas é algo parecido com isso: educamos para que nossos filhos saibam se adaptar à sociedade que eles vão viver e que sabemos que vai ser dura. Proponho pensar em encarar a educação, tanto em casa como na escola, como algo que sirva para o educando como um meio de ele perceber criticamente o que gosta ou não, como uma ferramenta para ele pensar como pode melhorar a sociedade e viver em paz consigo, com o seu entorno e o meio ambiente.

É muito difícil, concordo, pensar em tudo isso porque implica mudança. E toda mudança gera um medo danado na gente porque significa questionar o que acreditamos. Não podemos mudar mantendo as crenças e devemos abandoná-las. Por isso, em certa medida, mudar é morrer. Entretanto, “morrer em vida” pode ser sinônimo também de renascer. Por outro lado, a “morte em vida” pode ser sinônimo de se manter sempre na zona de conforto. Tudo é uma questão de coragem e precisamos tê-la se queremos ser educadores, pois, a aprendizagem não deixa de ser uma transformação. Se não aprendemos e se não enfrentamos a nossa própria mudança, como pretendemos mudar alguém?

É muito comum os pais perguntarem para os filhos: “como foi a escola hoje?”. A resposta é sempre muito superficial e geralmente assim: “boa”, “foi bom”, “normal”… o que não quer dizer rigorosamente nada. Experimente perguntar (ou imagine que perguntassem para você nos tempos de escola): “como você se sentiu na escola hoje?”.

Olhemos para trás e nos encontremos como quem fomos na infância e na adolescência. Muito pouco do que aprendemos na escola nos foi verdadeiramente importante a nível de currículo que, vale observar, é quase o mesmo no mundo inteiro e serve para treinar pessoas para o emprego e uma cultura acrítica de consumo. O que carregamos até hoje não foi escrito nos cadernos. Pode ter sido um exemplo de um professor, uma briga com um amigo, uma aula que tenha nos tenha deixado perplexos (uma dentre tantas)…. A escola não nos ensina a ser livres, muito pelo contrário. A escola não nos ensina a nos encontrarmos com nós mesmos, ao invés disso, dificulta esse encontro. Falamos muito de um mundo melhor e esse mundo não é ensinado e discutido nas salas de aula.

O que nos ensinam para vivermos “bem” quando adultos é estar longe um dos outros e a competir por coisas que não tem valor (moral) sem que esse possa ser descrito por algo diferente de um número. Pais e professores não prestaram atenção às nossas demandas assim como não temos escutado hoje nossos filhos e alunos. Pais e professores não nos perguntaram sobre nossa opinião, assim como não perguntamos a opinião de nossos filhos e alunos. Pais e professores não tinham ideia de como nos sentíamos assim como não temos ideia de como se sentem nossos filhos e alunos. Se tivéssemos a opção ontem e se dermos como opção para nossas crianças escolher entre ir ou não à escola diariamente, quantos de nós iríamos? Por que não nos deram e não damos a liberdade de podermos ser livres para escolher o que aprender e como aprender?

Estamos todos como mortos porque não mudamos. Cada vez que negamos escutar nossos jovens é como uma pá de cal sendo colocada a mais na nossa sepultura. Cada vez que escolhemos a meta no lugar do trajeto nos mumificamos. Cada vez que deixamos de criar algo novo, uma parte de nosso corpo apodrece.

Vamos olhar para outras formas de educação no mundo diferente da nossa tradicional. Se fizermos um breve estudo, veremos que as primeiras sempre promoveram sustentabilidade. Não quero dizer que sejam formas perfeitas de educar, mas sim ressalvar que outros tipos de educação promovem um conhecimento maior do solo, do clima, da água… e fazem os educandos seres responsáveis pela própria vida e pelo outro geração pós geração. Voltemos ao nosso sistema educacional. Não aprendemos nada sobre sustentabilidade, não aprendemos sequer primeiros-socorros, não sabemos nos comunicar com pessoas com deficiência auditiva, praticamos bullying com o diferente, não temos ideia de como é produzido o nosso alimento, nos livros de ciências das escolas fundamentais os animais são apresentados pelas suas utilidades para nós, aprendemos a confiar cegamente nos médicos e nada sabemos sobre a história da indústria de fármacos e como a ciência hoje é financiada e desenvolvida. Não temos ideia de como lidar com problemas ambientais e qual é a nossa parcela de responsabilidade na degradação do meio ambiente, mas sabemos logarítmos e utilizar a equação de Torricelli em problemas que jamais serão nossos na realidade.

A Educação que temos não passa de uma doutrinação para uma forma de saber, de aprender e, pior, de ser. E temos consciência de que diferentes formas de saber, de aprender e de ser criam diferentes culturas e indivíduos. A nossa Educação como temos hoje – que, vale sempre lembrar, segue o mesmo modelo de quando foi criada na Prússia – serve para alimentar um sistema de produção industrial. Migramos da sabedoria para o conhecimento, do conhecimento para a informação e da informação para informação incompleta e desintegrada. A maioria esmagadora de todas as atividades que acontecem sob o título “Educação” vem de um plano muito bem específico e elaborado que se mantém o mesmo há séculos. Em 1960, Walt Roston em “The Stages of Economic growth” afirmou que “a maioria da população deve estar preparada para aceitar o treinamento para um sistema econômico […] que cada vez mais confina o indivíduo em grandes e disciplinadas organizações que designam tarefas limitadas e especializadas”. Anterior a isso, em 1898, Ellwood P.Cubberly, da Universidade de Educação em Standford havia dito que “as especificações para a produção vêm da demanda da civilização do século 20 e é o dever da escola construir seus alunos de acordo com essas especificações dadas”.

Vejamos agora o projeto “Educação para Todos” sancionado por inúmeros países do mundo. Trata-se de um programa apoiado pelo Banco Mundial e pela ONU que tem financiamento de grandes corporações. O plano é colocar todas as crianças na escola. A alegação é que indo à escola as comunidades serão capazes de se desenvolver e de fazer parte de uma sociedade maior que, para mim está claro, significa tornar-se parte de uma economia global. Não é raro presidentes, ministros e até educadores confirmarem essa informação ao dizer que temos que educar para crescer como sociedade. O que eles querem dizer com isso?

A missão anunciada é “combater a pobreza global” pela educação. “É uma condição absolutamente necessária para a redução da pobreza”, afirmou Julian Schweitzer, diretor de desenvolvimento humano do Banco Mundial. Quais são os interesses que o banco serve? Ele mesmo, o próprio Schweitzer responde: “A demanda da educação está vindo de homens de negócios que estão descobrindo que eles não conseguem desenvolver suas fábricas porque há uma escassez de trabalhadores qualificados”. A questão que me faço lendo tudo isso é: quem se beneficia quando todas as crianças são educadas de uma mesma forma? Mais um pouco de Schweitzer: “Temos que ter cuidado para não sermos muito paternalistas com as chamadas culturas locais ou tradicionais [ele se referia às comunidades indígenas ou isoladas dos grandes centros]. Podemos não destruir essas culturas mas, por outro lado, ao tentar preservar essas culturas há um tipo de “congelamento” e para evitar isso, nós devemos ajudar educando as crianças”. Pergunto-me ao me deparar com isso: O que esses administradores de educação pensam sobre o “progresso”? Pesquisem vocês e vejam quantidade de crianças e adolescentes no mundo que sofrem de algum transtorno psicológico como a depressão, por exemplo. Vejam quantas tomam remédios psiquiátricos e quantos tentam o suicídio em nosso planeta.

Definitivamente, vivemos sob uma grande crença de que é através dessa educação que conhecemos que vamos tirar as pessoas da pobreza. Se prestarmos atenção, veremos que foi com o advento do colonialismo juntamente com o dito “desenvolvimento” e a ideia de “ajuda” que a pobreza foi criada no mundo. Nos outros sistemas de economia pré-modernas ou pré-desenvolvimento não encontramos o tipo de pobreza que se tem nas favelas. Futuro bom, para nós, é sinônimo de consumirmos muito e, vejam vocês, há pessoas estão se endividando para dar essa “boa educação” para seus filhos sob a grande esperança de que eles sejam futuros engenheiros ou médicos e “alguém na vida”. Quantos conseguem ter esse almejado “sucesso”? A grande maioria? Não. Pasmem. Menos de 10%.

Quando viajamos e visitamos culturas que não têm o nosso sistema educacional, deparamo-nos com uma economia sustentável, achamos pessoas extremamente desestressadas e vivendo em harmonia com o meio ambiente. Encontramos seres que interagem bem entre si e que se respeitam mutuamente. E acredita que ainda há quem defenda que devemos melhorar a vida dessas pessoas com escolarização? Tirar as crianças do contato com a natureza e colocá-las imersas em prisões de concreto, sem verde algum e darmos a elas livros que falam sobre a natureza da forma que falam? Para que faríamos isso? Com que propósito fazemos isso? Não é à toa que o grande mestre Albert Einstein disse ser “nada menos que um milagre que os métodos modernos de instrução ainda não estrangularam por completo a sagrada curiosidade da pesquisa”.

O nosso sistema educacional está classificando milhões e milhões de crianças e  jovens como fracassados. Pessoas extremamente talentosas e sensíveis se tornam os “rebeldes”, “problemáticos” e “repetentes”. O mais preocupante de tudo isso para mim é perceber que as pessoas que estão lutando pela justiça social não conseguem ver o gigantesco tipo de hierarquia e desigualdade que a nossa “Educação” gera. Vamos ligar alguns pontos: por que temos que aprender inglês? E se não tivéssemos aprendido? O que não estaríamos consumindo?

Todos os nossos índices de desenvolvimento não dizem nada sobre qualidade de vida. Ouvimos que “a renda per capita dobrou”. O que isso quer dizer? Devemos mesmo comemorar? Isso pode significar que algum agricultor saiu de uma economia agrária não-monetária para entrar em uma fábrica que explora seus empregados, não? A nossa qualidade de vida melhora, de fato, quando a nossa renda melhora?

Não quero, porém, desprezar tudo o que temos e sim propor um olhar mais crítico, pois quando analisamos a maneira que estamos ganhando o nosso dinheiro percebemos que ela é baseada em um paradigma econômico que segundo qualquer definição científica está mudando a bioquímica do planeta. O “sucesso” que a educação tradicional e a mídia nos fazem sonhar deteriora a olhos vistos o nosso meio ambiente e a nós mesmos como indivíduos. E pior, nosso “sucesso” implica o “fracasso” de outros. A riqueza material não existe sem seu oposto: a pobreza.

Pensemos com carinho e seriedade sobre o assunto.


Colunista: Elika Takimoto

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Elika Takimoto
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Doutora em Filosofia, mestre em História, professora e coordenadora de física no CEFET, Vencedora do Prêmio Saraiva de Literatura, autora do blog Minha Vida é um Blog Aberto e de dez livros. Mãe de três artistas.
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