O título do artigo deste mês pode parecer um pouco estranho, mas na verdade, estranho mesmo é acreditarmos em contos de fada!  Nós “meninas” fomos e ainda somos educadas ao som das belas histórias dos contos de fada.  Inevitavelmente, as lindas histórias de amor como Bela Adormecida, Cinderela e Branca de Neve habitam mesmo o imaginário das meninas muito mais do que dos meninos. Festas de casamentos, o sonho do vestido de noiva com calda de princesa e a esperança de encontrar um príncipe encantado, dominam as mentes femininas muito mais do que podemos crer.  O século XXI inovou os contos de fadas e Shrek surgiu em 2001 como uma animação computadorizada misturando os gêneros fantasia e comédia. Como todo conto de fadas, este também tinha seu príncipe e sua princesa, mas apresentados pelo lado avesso! A história todos conhecem, afinal já são várias sequências do filme, além de especiais de Natal.  Este filme tornou-se um sucesso de crítica e grande parte das pessoas comemoraram o fato de que finalmente um conto de fadas apresentava um toque de realismo cotidiano envernizado pela comédia, mas o fato é que Shrek continua sendo um conto de fadas bem ilusório. É inegável que existem muito mais “Shreks” do que príncipes na vida real, mas os “Shreks” da vida real não gostam de Fionas. Devemos nos apaixonar pelo Shrek. Só que devemos ser princesas! Belas formas, sempre lindas, unhas feitas, cabelos reluzentes, roupas lindas e sapatinhos caros, bem caros! As mulheres agora estão sendo educadas para desmistificar os príncipes! Devemos nos conformar e beijar o sapo!

Outro dia vivi uma situação reveladora. A escola em que trabalho indicou um livro para leitura de férias cujo título era: “A princesa que não queria aprender”.  Um pai de aluno questionou-me: O meu filho vai ler este livro nas férias? Eu prontamente respondi: Sim.  O pai: Mas é um livro com título de princesa? Eu respondi novamente: Sim. O pai mais uma vez questionou: Mas meu filho é menino! Este livro é realmente para ele? Continuei o diálogo explicando que sim e disse que meninos também podem ler livros de príncipes e princesas, e brinquei dizendo: Afinal como ele irá encontrar sua princesa se não souber reconhecer uma? E como ele será escolhido por uma princesa se não souber ser um príncipe?

Enfim, este diálogo tem profundezas oceânicas para discutirmos. Afinal, fica evidente que este pai de aluno, aliás, muito educado e jovem, pertence; mesmo sendo tão jovem, a uma criação machista. Tendemos a acreditar que machismo é um conceito bruto e caricatural. Mas o machismo é mais sutil do que podemos crer. Ele está presente nas entrelinhas. No encanador que tentou dar uma rasteirinha financeira na mulher que foi contratá-lo e que na ausência de um “macho” achou que podia cobrar mais caro porque ela não entenderia “destas coisas”. No pai que pensou ser muito “afeminado” dar um livro para seu filho ler, cuja protagonista é uma princesa! Em sua fantasia seu filho se colocará no lugar dela? Estará se projetando em uma personagem feminina? Qual o real problema disso?

No dia em que meninos ninarem bonecas e trocarem suas roupinhas, poderemos ter mais pais especiais e maravilhosos, que ao cuidar de seus filhos não irão proferir a terrível e assustadora frase machista: Eu AJUDO a minha esposa. Ajudar? Como assim? Ajudar não é bem o verbo, afinal a responsabilidade é de ambos! Os homens podem sim arrotar como o Sherek, soltar gases mal cheirosos sim, tudo bem, isto não é invenção dos contos de fadas, faz mesmo parte da criação divina! Mas o que cheira mal de verdade são os pensamentos que ainda habitam a mente de grande parte dos homens! E quanto aos contos, gosto mesmo da Bela e A Fera, afinal Bela é fera e a Fera é mesmo um príncipe!


Colunista: Patrícia Manzoli

  • Patricia Rachel Pisani Manzoli
    Patricia Rachel Pisani Manzoli
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Patricia Rachel Pisani Manzoli
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Atuação: Educação, Sociologia e Antropologia, Pedagogia, Serviço Social.
Patricia Manzoli é Cientista Social (UNESP – Araraquara), Mestre em Serviço Social (UNESP – Franca). Pesquisa: Responsabilidade Social: um estudo sobre o compromisso ético e cidadão do empresariado brasileiro com a educação. MBA em Elaboração, Análise e Avaliação de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ) – Pesquisa: Gestão da Qualidade em Projetos Educacionais de Responsabilidade Social. Docente Universitária da Estácio -Uniseb. Sócia e coordenadora educacional do Colégio Monteiro Lobato de Ribeirão Preto. Autora de material didático na área de Ciências Sociais direcionada para Ensino Fundamental II. Palestrante da área educacional.
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