Há um texto que vira e mexe vejo alguém compartilhando nas redes sociais: “A Mãe Desnecessária” cuja autoria varia de Dalai Lama passando por Clarice Lispector e chegando a jornalista Márcia Neder. Para mim, pouco importa quem escreveu. Eu discordo de tudo.

O texto afirma que a boa mãe é aquela que vai se tornando desnecessária com o passar do tempo e toma como medida se fomos uma mãe certinha o fato de quando adultos nossos filhos não mais nos procurarem para algum conselho, pois, se tornaram seres autônomos, independentes e confiantes.

Isso para mim soa não somente falso como beira o absurdo. A minha força, definitivamente, não está na solidão. Preciso sempre ser orientada e jamais busquei a independência. E, sinceramente, não conheço ninguém completamente seguro de seus passos nesse planeta. A pergunta que nos acompanha e nos atormenta “E se…?” faz parte, acho eu, da essência e da vida do ser humano.

No mais, esse texto me incomoda porque cria a ilusão que os adultos são maduros ou, pelo menos, devem ser. Daí, pergunto-me: o que esse autor, seja lá quem for, pensa sobre maturidade? Somado ao fato de que insistem em nos dizer que somos o resultado de nossas decisões, o texto corrobora a ideia de que é possível ter certeza, um dia, de que acertamos em nossas escolhas.

Antigamente, não tínhamos lá tantas opções. Às mulheres eram dados como caminhos, digamos assim embora discorde dessa metáfora radicalmente, estudar no magistério ou casar – e uma vez casada sempre casada não importava o traste que fosse o marido. Hoje, até para comprar absorventes ficamos perdidas. Com aba ou sem aba?, com perfume ou sem perfume?, cobertura seca ou suave?, fluxo pequeno, moderado ou intenso?, e uma vez decididas todas essas opções, qual a melhor marca? Esse foi um exemplo, mas temos vários outros. Até comprar um pão requer expertise: tradicional, light ou premium?, com leite de vaca ou de cabra?, com ômega 3?, com glúten, com ovos orgânicos ou com ovos de galinhas estressadas e turbinadas de hormônios? Aff.

Se no supermercado estamos assim, quando saímos dele a coisa piora. E muito. Como escolher uma profissão se nem sabemos todas que existem? Antes havia três: medicina, direito ou engenharia. Hoje podemos ser dentre muitas outras coisas trendspotter, gestor de responsabilidade socioambiental, gerente de trade marketing e merchandising, silvicultor e pesquisador de fezes de baleia. Fala sério. E ainda querem que eu não consulte a minha mãe e que faça com que os meus filhos achem certo não terem dúvidas e decidirem tudo sozinhos. Como fazer isso se eu mesma estou hiper confusa nessa budega?

O que podemos fazer, penso eu, é deixar de perguntar para nossos pais o que eles acham melhor para nós, mas impossível não perguntarmos para outras pessoas ou infinitamente para nós mesmos. E para que trocarei meus pais por outras pessoas? Nessa esteira de devaneios, na minha educação com meus filhos, eu procuro fazer com eles sempre me procurem e tenham confiança de que os ajudarei a pensar. E, para deixar claro, não porque eu sei mais do que eles. Por mais que leiamos e experimentemos, as escolhas são infinitas e o ser humano é ímpar e dinâmico se vivo estiver. Eu só sei que nada sei e a única coisa que posso fazer como mãe é conversar com meus filhos menos para lhes explicar algo e muito mais para trocarmos angústias, dúvidas e curiosidades sobre seja lá o que for.

Meus filhos não precisarão mais de mim (assim como não precisarei mais dos meus pais) quando estiverem mortos em vida. Quando, enfim, satisfeitos. Deus me livre desse conforto… Eu quero ter sempre o direito ao desatino e desejo isso também para eles. Se maturidade tem a ver com paz e descanso, quero ser uma eterna criança cansada e desesperada buscando o colo da mãe. Que eu não tenha vergonha nem medo de ainda desejá-la.

Perguntam-me: O que mais você quer da vida depois que casou, fez doutorado e teve três filhos lindos? Oras. Quero uma primeira vez outra vez. Um beijo que me traga uma sensação que nunca tive, caminhar em ruas floridas jamais vistas, estrear sentimentos, perder as virgindades que ainda trago recatadamente comigo. Quero perder o recato, quero a dúvida até o fim dos meus dias pois a certeza de seja lá o que for é o que nos mata. Zona de conforto é óbito respirando dendagente.

E, se tenho como certo que viver no plural é muito mais interessante do que no singular, faço com que a minha companhia para meus filhos seja não somente necessária como extremamente desejada. Eu não quero ser o porto seguro deles como termina esse texto “A Mãe Desnecessária”. Eu quero estar navegando pelo mar revolto ao lado deles, assim como meus pais estão em uma canoinha sempre ao lado – se não à frente – de meu transatlântico. E que fique claro, não para me dizerem: isso, minha filha, é melhor ir por esse caminho!. Mesmo porque, por melhor que sejam os pais, eles não têm bola de cristal. Eles permanecem ao meu lado para me lembrar de que as minhas ideias pouco abençoáveis formam a minha essência. Tangenciando-me sempre, eles são as melhores pessoas para não me deixar esquecer de que eu devo arejar sempre a minha biografia.

E podem ter certeza, se aumento a minha velocidade nessa viagem dependo e muito das ondas emitidas por essa canoa. Quando um dia, não tiver mais ninguém remando dentro dela, amarrarei uma cordinha e farei com que ela continue me acompanhando porque a presença deles será para sempre necessária nem que seja em forma de ilusão ou saudade que é quando sentimos a presença de alguém distante dentro de nós.

Se não sou uma boa mãe desejando com que meu transatlântico navegue, agora, ao lado de navios do porte de petroleiros que são, como vejo daqui, os guiados pelos meus filhos, paciência. Se incentivo os meus filhos a conviver com a dúvida e fugir das certezas, mais paciência ainda. Se sou anormal e quero ser uma mãe necessária que fortalece a estrutura do cordão umbilical a cada dia em que convivemos, Je m’en fous du passéI! É normal termos o colesterol, triglicerídeos, pressão, sono e ansiedade controlados por remédios e acharmos que vivemos com saúde. É normal gastarmos rios de dinheiro para viajar e chegando ao lugar do destino perdermos tempo tirando e postando fotos e mal percebendo o que está a nossa volta. É normal chegarmos em casa reclamando para mostrarmos, a nós mesmos e aos outros, que trabalhamos muito e tivemos um dia duro, como se isso fosse algum tipo de mérito… Quero distância da normalidade.

‘Normal’ nada mais é um conjunto de hábitos admitidos pelo consenso social que, na realidade, são patogênicos em graus distintos se observarmos bem. Ser uma mãe desnecessária é considerado necessário, bacana, o normal a ser feito. Está nos manuais de auto-ajuda, dos psicólogos, nos compartilhamentos nas redes sociais e, como diz Chico, consta nos astros, nos signos, nos búzios, tá lá no evangelho, garantem os orixás! E ainda consta na pauta, no Karma, na carne, passou na novela, está no seguro e pixaram no muro essa cascata! Dane-se Dalai Lama, Clarice Lispector, Márcia Neder. Seja quem for que escreveu que tenho que ser desnecessária para quem eduquei, dane-se. Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas, os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos, profetas, sinopses, espelhos, conselhos. Que se dane o evangelho e todos os orixás.

Serei necessária.

Serei para sempre mamãe precisando de mamãe.


Colunista: Elika Takimoto

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Elika Takimoto
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Doutora em Filosofia, mestre em História, professora e coordenadora de física no CEFET, Vencedora do Prêmio Saraiva de Literatura, autora do blog Minha Vida é um Blog Aberto e de dez livros. Mãe de três artistas.
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