Todos os seres humanos nascem com sua individualidade e são expostos às influências familiares, sociais e culturais. É exatamente essa somatória que torna cada indivíduo único, com seus princípios, valores, senso ético, habilidades e interesses. Ele busca, incansavelmente, um significado para sua existência, por meio da compreensão do seu modo de ser e das relações com outras pessoas. Segundo Erich Fromm, psicólogo alemão, “a principal missão do homem, na vida, é dar luz a si mesmo e tornar-se aquilo que ele é potencialmente”, e isso só é possível mediante o autoconhecimento e a coragem de viver à sua maneira.

Entretanto, na sua relação com o mundo, o ser humano é muitas vezes dominado por uma cegueira emocional, não reconhecendo suas características pessoais e as características das outras pessoas. Fecha-se, assim,  em uma visão estereotipada, porém cômoda, já que toda interação consciente requer autoconhecimento e mudança contínuos, e isso parece ameaçador para a integridade do ser. Para que uma pessoa consiga atingir o propósito de “dar luz a si mesma”, existem várias ferramentas, sendo uma delas a avaliação da posição existencial, proposta pela Análise Transacional (teoria da personalidade desenvolvida pelo psiquiatra Eric Berne).

De acordo com Thomas Harris, psiquiatra americano que utiliza a Análise Transacional, há cinco posições existenciais, baseadas na maneira como a pessoa percebe a si mesma em relação aos outros:

  • Eu não sou ok, você é ok. Trata-se de chamada posição Introjetiva, pois os indivíduos assumem como seus sentimentos negativos, demonstrando impotência e inferioridade em relação ao mundo. Geralmente são seres inseguros, submissos, dependentes, que não tomam decisões por si mesmos. Não sabem propor metas pessoais e são guiados por certezas destrutivas, expressas em sentenças como nunca obterei sucesso, não faço as coisas direito ou meus colegas são melhores que eu. Como exemplo de prejuízo pessoal acarretado por essa posição existencial, pode-se citar o vestibulando que escolhe um curso não por sua correspondência com suas habilidades, mas porque supõe que o curso escolhido seja fácil e pouco exigente quanto aos recursos intelectuais dos estudantes.

 

  • Eu não sou ok, e você não é ok. Essa é a denominada posição Fútil, pois as pessoas assumem uma postura de desinteresse tanto de si própria como do mundo, considerando que ninguém vale nada. São criaturas descontentes, negativas e pessimistas. Apresentam extrema dificuldade em cumprir tarefas do cotidiano, como trabalhar ou estudar. Em termos radicais, estas são algumas das certezas que demonstram: a vida não presta, não vale a pena viver e cada um que cuide de si. Quem se encontra nessa posição existencial tende ao isolamento social e raramente estabelece metas de vida, deixando-se guiar pelos acontecimentos, sem envolvimento pessoal com eles. No namoro, por exemplo, apresenta tamanho desânimo e descrença, que não consegue manter o vínculo por muito tempo, acumulando relações curtas e superficiais.

 

  • Eu sou ok, você não é ok. É a posição Projetiva, quando são atribuídos sentimentos e atitudes negativas aos outros e ao mundo. Geralmente são pessoas que não confiam em ninguém e julgam a humanidade responsável por seus problemas e dificuldades. Mostram-se egocêntricas e, muitas vezes, alcançam suas metas, porém nem sempre de forma ética. Podem-se observar algumas certezas que essa posição existencial gera: só eu consigo cuidar de mim, ninguém faz nada direito e a raça humana não é confiável. Essa posição existencial acarreta prejuízos, como, por exemplo, a mãe que não deixa o filho realizar as próprias tarefas, por julgá-lo incapaz. Dessa forma, além de ficar sobrecarregada, ela atrapalha o crescimento da criança e impede seu amadurecimento.

 

  • Eu sou ok, você é ok. Chamada por alguns teóricos de posição Maníaca, é aquela em que os indivíduos só enxergam as características positivas, tanto suas quanto dos outros. Sugere um estado de permanente bem-estar do mundo, e isso obviamente não corresponde à realidade. Indivíduos situados nesta posição apresentam baixa resistência a críticas ou frustrações, pois se baseiam em crenças como estas: as pessoas são boas e vão te ajudar, o mundo é maravilhoso e tudo vai dar certo. Um exemplo simples de prejuízo decorrente dessa posição existencial é o de alguém que começa um namoro visualizando o parceiro como um ente perfeito e, posteriormente, é surpreendido por presenciá-lo truculento e agressivo em determinada situação. Pode-se, nesse caso, chegar a uma depressão profunda, uma vez que suas expectativas raramente são alcançadas.

 

  • Eu sou mais ou menos ok, você é mais ou menos ok. Chamada de posição existencial Realista, consiste numa abordagem proposta pelo psiquiatra argentino Roberto Kertész. Significa que o sujeito tem consciência de que tanto ele quanto os outros possuem características positivas e negativas. Além disso, os indivíduos que assumem essa posição podem estar bem em determinados momentos e circunstâncias, não estando bem em outros. Possuem capacidade de aprender com seus erros, assim como são capazes de propor e alcançar metas. Teoricamente, é a melhor posição existencial, pois permite maior flexibilidade, menos expectativas irreais e capacidade de tomada de decisões. Suas certezas são: eu posso me modificar, a situação não é sempre boa, mas pode melhorar, posso dar e receber ajuda e sou capaz de solucionar problemas.

 

Vale ressaltar que a posição existencial pode variar conforme a área da vida. Algumas pessoas podem se situar numa posição equilibrada na vida profissional, por exemplo, e em uma posição negativa na vida afetiva. Assim, são bem sucedidas financeiramente, têm bela carreira, mas não conseguem fixar um namoro. As posições se modificam também conforme o dia ou o contexto específico. Entretanto, nesse caso, há sempre uma posição predominante, que se manifesta na maior parte do tempo.

A importância de se fazer uma análise pessoal e reconhecer sua posição existencial reside no fato de oferecer a possibilidade de intervenção na própria realidade. Pode-se optar por modificá-la ou não, a fim de tornar-se protagonista da própria vida, tomando decisões de forma autônoma, auxiliando outras pessoas, solucionando problemas e revisando continuamente seu sistema ético. Não há uma fórmula padronizada para a felicidade. Cabe a cada um encontrar a sua maneira de viver bem. Vencedor é todo indivíduo que se permite ser autêntico e vivenciar sua realidade com prazer!


Matéria por: Mariana Abdala Garcia

  • Mariana Abdala Garcia
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Mariana Abdala Garcia
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Psicóloga formada pela USP de Ribeirão Preto.
Possui experiência em psicologia organizacional e clínica. Atua há 27 anos como psicoterapeuta de adolescentes e adultos, na abordagem Gestáltica, e em orientação profissional.

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