Ilustração por: Cordeiro de Sá

Do ponto de vista neurológico, a aprendizagem se dá através de exercícios, que, ao mesmo tempo, operam como compreensão e ação.

Existe um algoritimo muito citado e bem conhecido de todos nós que se expressa assim: ação-reflexão-ação. Essa sequência decorre do fato de que o ser humano, ao enfrentar impasses, busca sua solução através da compreensão do que está ocorrendo (reflexão), o que possibilita um retorno à ação, com uma compreensão elaborada sobre o impasse, portanto, com a possibilidade de maior eficiência.

É dessa forma que a humanidade, através dos seres humanos que a compõem, estabeleceu entendimentos e soluções para sua sobrevivência, seu conforto, assim como a busca de compreender e agir frente aos mais variados desafios.

A forma mais comum — em nosso cotidiano — de aprender é receber o ensinamento das compreensões e soluções já elaboradas pela humanidade (a denominada herança sociocultural). Na escola, mas em muitas outras experiências do dia a dia, aprendemos dessa forma: alguém ensina aquilo que já sabe (teórica e praticamente) e alguém aprende.

Aparentemente poderia parecer que essa é uma forma passiva de aprender. Ledo engano. Passiva seria uma retenção de memória de um conjunto de informações, que teria parecença com uma aprendizagem; porém, de fato, esse modo de agir expressa somente uma retenção mnemônica mecânica (sem compreensão efetiva) de informações, que, dessa forma, não subsidia uma ação adequada.

A forma adequada de ensinar e aprender é ativa, ou seja, o professor ativamente transmite conhecimentos, o que quer dizer que subsidia os educandos para caminharem pela senda do raciocínio, do entendimento, de tal forma que assimilem (= compreendam, tornem seu) o conteúdo ao qual estão sendo expostos (seja por exposição oral, por documentários cinematográficos ou televisivos, livros, revistas…). Desde que tenha ocorrido a compreensão (= assimilação), importa que o aprendiz exercite repetidas vezes aquilo que compreendeu, a fim de que sedimente essa compreensão num “caminho facilitado”, um modo habitual de agir.

Assentado sobre esses caminhos facilitados, o aprendiz pode e deve recriar conhecimentos e, se possível, criar novos conhecimentos, isto é, novas soluções, que, de forma semelhante, serão incorporadas ao cabedal sociocultural da humanidade e, consequentemente, transmitido às novas gerações.

Na Ratio Studiorum, documento publicado em 1599, os jesuítas configuraram como deveria ser o ensino. Numa aula, haveria (01) uma exposição oral do conteúdo a ser aprendido por parte do professor; a seguir, (02) seria oferecido aos estudantes um exercício a respeito do conteúdo exposto; (03) os estudantes realizariam o exercício; (04) haveria a correção do exercício, inclusive superando as dúvidas; (05) um novo exercício (tarefa) para ser executado em casa. No dia seguinte, (06) antes do ensino-aprendizagem de novo conteúdo, deveria ocorrer a correção do exercício praticado em casa, com superação das dificuldades e com a confirmação da aprendizagem por parte dos estudantes. Só, então, entraria um conteúdo novo, através de nova exposição, à qual seguiria todo o ritual acima descrito, tendo em vista a efetiva aprendizagem por parte do estudante. O ensino-aprendizagem propostos eram ativos.

A construção de um “caminho facilitado neurológico” (habitual) de compreender e agir é ativa e, dessa forma, deverá ocorrer. Há uma imensa diferença entre “dar aula” e “ensinar”. No ato de “dar aula” não existe a exigência de uma aprendizagem; dá-se aulas…; o estudante aprende se se dedicar à aprendizagem com base na aula dada. “Ensinar” implica em orientar o educando em sua aprendizagem, até que aprenda, através de exercícios compreendidos — no caso da escola, o algoritmo do ato de ensinar usualmente segue — “reflexão (exposição) – ação”. Porém, nada impede que seja “ação” (diante de impasses, desafios) – “reflexão” (entendimento da situação) – “nova ação”, agora, de posse de nova compreensão.

Esse algoritmo necessita ser utilizado tantas vezes quantas forem necessárias para que o educando “tome posse” da nova aprendizagem, ou seja, até que ela se torne habitual. Para sentir e compreender como isso se deu — e continua se dando — em nossas vidas e se dará em nossos educandos, vale a pena relembrar como aprendemos a escrever. No início, era estranho e incompreensível. Com a repetição compreendida, escrever foi se tornando habitual, de tal forma que, hoje, cada um de nós escreve, sem perguntar “como é que se escreve”.

Um “caminho facilitado” foi criado e utilizamos em nosso cotidiano. Isso acontece que com todas as aprendizagens.


Colunista: Cipriano Luckesi

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Cipriano Luckesi
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Nascido em Charqueada – SP, o Professor Cipriano Carlos Luckesi, Doutor em Educação, é um dos nomes de referência em avaliação da aprendizagem escolar, assunto no qual se especializou ao longo de quatro décadas. Foi professor da Universidade Federal da Bahia, de 1972-2002, atuando na área de Filosofia, regendo disciplinas na graduação, assim como na Pós-Graduação em Educação. Na Universidade Estadual de Feira de Santana, BA (1976 a 1994), atuou nas áreas de Metodologia do Trabalho Científico e Metodologia da Pesquisa. Atualmente, aposentado oficialmente da Universidade Federal da Bahia.

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