Como vencer os grandes desafios impostos pelas mudanças na sociedade, decorrentes do avanço da tecnologia e da comunicação?

Nas reuniões com grupos de professores, ouvimos com frequência: “hoje, os alunos são muito indisciplinados, são desmotivados, não querem ler… Está muito difícil trabalhar na sala de aula!”. Porém, nestas mesmas reuniões deveríamos refletir sobre algumas questões: o que mudou na sala de aula nos últimos 200 anos? Houve modificação nos objetivos pedagógicos? E na relação com os alunos? O que o mundo cobra deles? Quais conteúdos e habilidades são necessários para ter sucesso na sociedade?

Com essas perguntas, vemos que as reclamações dos professores devem ser analisadas relacionando e identificando os problemas, as possibilidades e as respostas a cada uma das profundas mudanças que a sociedade sofreu nesse período. A simples constatação das consequências de nossas praticas pedagógicas é como recusar tudo que mudou, a velocidade dessa transformação, o mundo on-line, o dilúvio de informações associados ao maior respeito aos direitos humanos e à expansão da democracia.

Hoje, a função da escola não é somente ensinar. Seu maior foco é colaborar com o aprendizado dos alunos, trabalhando as competências e habilidades para o pleno exercício do trabalho e da cidadania e, assim, proporcionar aos alunos o desenvolvimento da capacidade de analisar, selecionar, questionar e construir novas soluções para velhos problemas da sociedade como um todo.

Como professores, temos que entender que o volume de informações disponível às pessoas é muito grande e cresce diariamente de forma acelerada, tornando praticamente impossível dominarmos totalmente a quantidade e as grandes transformações ocorridas quase que instantaneamente. Como as informações são públicas, estão sujeitas a comentários, criticas, sugestões e construções colaborativas; uma noticia é vista e analisada de forma imediata por todos que têm acesso à tecnologia, fazendo assim que se tornem formadores de opinião e agentes de transformação social. Consequentemente, quem está excluído do mundo digital tende a se tornar um cidadão de “segunda classe”.

Pensando nos grandes desafios a enfrentar, em primeiro lugar, é preciso compreender os múltiplos códigos e linguagens, as verbais e não verbais, a que estamos expostos desde o advento do livro impresso, passando pelo rádio, cinema, TV, até os computadores e a internet, cada dia mais acessada devido ao barateamento dos dispositivos e conexão mais rápida.

Infelizmente, as instituições de ensino superior não incorporaram a importância do domínio das linguagens multimodais na maioria dos cursos de licenciatura, deixando uma lacuna na formação de grande número de professores. Hoje é mais do que necessário sanar essas dificuldades para entender a linguagem dos meios de comunicação, das propagandas e dos novos materiais interativos. Ler, interpretar e compreender textos nas suas diversas formas, imagens, vídeos e animações, exige estudo, tempo e colaboração.

Um segundo ponto importante, é perceber que as mudanças sociais são muito impactantes na dinâmica educacional. No século XIX, a mão de obra para a indústria era voltada aos conhecimentos pontuais, para um processo normalmente repetitivo, que não exigia grande quantidade de informação. As mudanças eram lentas e graduais ao contrário de hoje, que vemos a necessidade dos alunos aprenderem de forma rápida e com acompanhamento individual, o que muda o foco do ensino para a aprendizagem. A facilidade e o “como aprender” se tornaram grandes diferenciais.

Esse processo de ensino-aprendizagem pressupõe uma mudança na relação da sala de aula, no papel do professor, retirando dele o papel de maestro e transformando-o em diretor de um espetáculo. A ele caberá desenvolver com o grupo as competências e as habilidades de forma coletiva e colaborativa para a construção de todo espetáculo; no caso da sala de aula, a construção do conhecimento dos alunos, reunindo as habilidades diferentes de cada um, facilitando as trocas e a busca, aproveitando as diferenças para construir um novo espetáculo “conhecimento”, fruto das interações e do melhor de cada aluno.

Neste ponto, temos a maior contribuição da tecnologia, que nos permite pensar na personalização da educação, tratando os diferentes de forma diferente. A educação personalizada não está relacionada ao tipo de dispositivo tecnológico utilizado na escola (notebooks, desktops, tablets), pois estes são meros meios de distribuição e anotação. A utilização de plataformas de gestão do aprendizado é uma das grandes contribuições trazidas pela tecnologia, pois nelas podem ser construídas propostas que permitam, a partir da definição clara do que se espera que o aluno aprenda, a construção de múltiplos caminhos para que os alunos atinjam suas metas, respeitando as diferenças e os interesses de cada um.

Aqui, sem dúvida, aparecerá uma nova incerteza: como isso é possível?

A tecnologia nos proporciona o trabalho em planos, com a apresentação dos conteúdos e dos desafios de forma gradual, permitindo que o aluno interessado mergulhe profundamente no tema. Conforme ele enfrenta os desafios, a própria plataforma reorienta os estudos, possibilitando sanar dificuldades e propondo níveis maiores ou menores de complexidade. Assim, o caminho do aprendizado é diferente para cada aluno. A missão dos desafios não é criar um corte “sucesso ou insucesso”, mas sim garantir ao aluno um processo contínuo da construção do conhecimento esperado, sempre respeitando seu tempo de aprendizagem.

O terceiro ponto a destacar é o grande impacto que a tecnologia produz na sociedade, particularmente na escola, é a possibilidade de todo cidadão se tornar um protagonista social. Todos temos acesso à informação e a nós, educadores, cabe mediar a relação tecnologia-aluno, orientando-o na utilização e produção consciente, sabendo selecionar o que é ou não adequado. A escola deve disseminar condutas responsáveis, deixando claros limites de direitos e deveres, em busca de eliminar os preconceitos e tornar inaceitável o desrespeito às diferenças.

Educadores, estamos prontos para atingir nossos objetivos. Para isso, basta sermos generosos com as nossas dificuldades e erros, compreendendo que vivemos em um mundo em transformação e a tecnologia está a nosso serviço para revolucionarmos a educação!

Finalizando, lembremo-nos: não é vergonhoso dizer ao aluno “não sei, vamos pesquisar na internet para descobrir a resposta!”.


colunista: José Tadeu Bichir Terra

  • José Tadeu Bichir Terra
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José Tadeu Bichir Terra
Colunista

Tadeu Terra vem atuando nos últimos 40 anos como professor de física no ensino médio e universitário, coordenador pedagógico de educação básica, diretor pedagógico e administrativo de unidade escolar, autor de material didático impresso e digital, articulista, palestrante, diretor de mídias e tecnologia digital e consultoria em empresas de vanguarda como o Sistema de Ensino COC, Editora Pearson Brasil e Samsung.
Respondendo nesse período por projetos inovadores, com a preocupação de organizar e aplicar a formação dos educadores em geral aos novos desafios, realizando consultoria para implantação de novas tecnologias e materiais didáticos.
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