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Enquanto pensava se escolhia “Dr Músculo” ou “Casa e Perfume” no mercado para deixar um cheiro bom na minha casa a fim de agradar as visitas, franzi os olhos e pensei sobre como os rótulos são importantes para nós.

Não falo dos produtos de limpeza, nesse caso, e sim sobre colocar uma post-it na testa do próximo e conseguir defini-lo como algo. Várias vezes nos deparamos com questionamentos do cotidiano sobre alguém. O vizinho novo, o professor, o novo colega, o instrutor da academia e paramos no mesmo: Será que fulano é homem mesmo? Ele fala assim, gosta disso..hum suspeito.

Mas de onde tiramos esse check-list para saber se alguém entra num determinado padrão?

Fiquei observando, enquanto almoçava no Balada Mix do Plazza Shopping, o comportamento das pessoas a minha volta. Têm um homem e uma mulher, a minha frente, ambos bem arrumados, formando um casal bonito. Ele sorri, ela sorri também. Poderiam ser um casal de namorados? Sim. Um casal de amigos? Sim. E continuo a observar se consigo DEFINI-LOS como algum tipo de casal. E quanto mais diferente é a situação, mais ficamos instigados a investigar pela observação e análise, o que realmente são e dizer no final: Ah sim, é isso. Mas que obsessão é essa em que entramos? Por que precisamos classificar as pessoas?

Numa outra situação, andando no calçadão da praia com amigos, vimos um casal com  seus 35 anos aproximadamente, se beijando intensamente como se não houvesse amanhã. Prontamente, é acionada a glândula do post-it na testa.

– Iii gente, desse jeito que estão devem ser amantes. Com certeza.

Como um beijo intenso numa praia pode nos levar a pensar que aquele casal não poderiam ser simplesmente namorados muito apaixonados? Porque deveriam ser algo diferente, proibido? E por que isso era importante para nós?

A resposta disso é porque acreditamos na organização para tudo. Tudo tem que obedecer a lógica, um instrumento, uma sistematização. Ficamos debruçados horas e horas fazendo uma lista do que temos que fazer dentro da semana. Ou pensando como deixar a nossa casa mais linda possível de modo a não aparecer um fio sequer. Ou mais, nos matando numa dieta para aquela gordurinha não pular para fora quando colocarmos as calças porque não fica dentro da forma.

Forma.

Somos pautados no parnasianismo social. Não quero me atentar no culto à forma, pois seria muito piegas para um texto sobre comportamentos. Mas quero ressaltar que se você não faz uma pontuação X no check-list de alguém, você pode ser rotulado como vagabundo, burro, egoísta, desviado dos caminhos de Deus, não apto para uma profissão e mais, existem pessoas que concluem dizendo: Você não será nada na vida!

Mas como conseguem prever o futuro de alguém fazendo esse tipo de análise?

O rótulo é a placa que nos colocam todos os dias pelo simples fato de interagirmos socialmente. É um Bom dia e uma placa imposta, no seu pescoço, pela pessoa sentada no ônibus enquanto você está em pé. É um boa tarde e outra placa colocada pelo amigo que diz que sua roupa não está muito colorida e isso te leva ao item 5 do check-list: Brega, Não combina.

Tem como fugir deles? Não. Tem como não se incomodar com eles? Tem. Como? Vivendo feliz consigo mesmo.

Os rótulos só vão te definir se você acreditar que a opinião das pessoas pode dizer quem você é. Você não é uma calça 36, você não é menos homem por chorar, você não é um filho ruim por não concordar com tudo que seus pais dizem, você não é pecador se você deixar de ir a dois cultos seguidos, você não é bem sucedido porque não tem um carro do ano, você não é uma péssima pessoa porque pensa em você em algumas ocasiões, você não está fadado a solidão por não estar namorando.

Se aceite do jeito que a vida te fez. Os agentes rotulantes não analisaram todas as experiências e influências que contextualizaram sua vida. Por isso, eles não podem fechar um diagnóstico da sua essência. Você possui uma essência que muitos querem sentir várias vezes, como o cheiro de livro novo. Sabe cheiro de livro novinho? Você vê a capa do livro antes de alguém te oferecer para cheira-lo? Provavelmente não. Você se lança como se fosse o último livro da Terra. Assim são as pessoas quando você tem uma essência maravilhosa, elas se lançam em você, pouco se importando com sua capa.

Ainda trabalhando nesse texto mentalmente, assistia a um filme na Netflix que muito me fez pensar nisso. Sex and The City. Sarah Jessica Parker estrela esse filme que fala sobre vários tipos de relações, na pele de Carrie Bradshaw. No final do filme, Carrie encerra uma das franquias de Sex and the City (são dois filmes) dizendo: Alguns rótulos devem permanecer dentro do Closet, pois quando rotulamos,esquecemos-nos de olhar a pessoa por trás do rótulo.

Bradshaw, sem dúvida, quis apontar que não há pessoa que consiga nos definir. A vida tem algumas regras de base, mas a sua construção e maneira de viver só dependem de você mesmo. Se não te acrescenta nada, não compre esse produto.

E é isso que devemos fazer.

Esqueça o resultado do check-list, sinta o aroma do próximo e deixe ele sentir o seu.

Faça como eu que, no mercado, não escolhi entre “Mr Músculo” nem “Casa e Perfume”. Eu preferi ir pra casa e deixar o cheiro natural dela dar conta do recado.

 


Colunista: Raí Rocha

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Raí Rocha
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Raí Rocha é Bacharel e Licenciado em Enfermagem pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Pós-graduado em Gestão e Docência do Ensino Superior (UNESA) e em Estratégia de Saúde da Família (UFF). Mestre na área de Neonatologia e Doutorando na área de Educação(UFF). Possui 12 anos de experiência na área da educação atuando nos níveis médio, técnico e superior. Autor de artigos científicos na área da Educação e Saúde. Premiado como “um dos 10 trabalhos mais relevantes da área da Saúde” no Seminário Vasconcelos Torres da UFF.

Atualmente é Sócio/Diretor Pedagógico do Curso A+ Educação Complementar, empresa prestadora de serviço na área educacional com ênfase no Ensino Superior. Atua como Professor da área de Saúde da Criança e do Adolescente no Centro Universitário Anhanguera de Niterói e da Pós-Graduação em Saúde da Família do Centro Universitário Celso Lisboa.

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