Estou em Budapeste há cerca de um mês, realizando um trabalho voluntário com crianças e adolescentes de um orfanato.

A realidade do Brasil, eu diria que é bem pior. Quando se dá a volta ao mundo, vemos coisas diferentes, o que torna normal a nossa comparação. O máximo de ofensa que levei foi uma fumaça de cigarro na face e alguns objetos atirados contra mim, mas que não tinham a intenção de me acertar.

Lógico que todos esses atos, ao me mostrar ofendida e brava, vinham com um pedido de desculpa em inglês do tipo “sorry”. Não levava muito em consideração, afinal qualquer criança e adolescente carente necessita de atenção. Alías, eu acho que muito mais, porque a própria palavra já demostra “carente”, de afeto, de família, como são os casos desses meninos.

Tão carentes que a primeira vez que conheci Máté, pude denotar essa necessidade. Eu não sabia muito bem como puxar assunto com ele, além de um “szia”, um olá em húngaro. E pra meu espanto ele me respondeu com um “hello”. Mas não sabia mais nada em inglês. Eu estava lá pra isso. Mas pra estabelecer meu primeiro contato, não iria aplicar o verbo to be. Lógico que ensinar, mesmo o básico em inglês, seria um tanto complicado para ele. Mas ensinar a se comunicar de outras formas seria fácil.

Foi então que desenhei o jogo da velha para Máté e seu irmão. Um olhou pra o outro, depois Máté apertou a língua entre o beiços e fez uma bolinha no papel. Eu imediatamente fiz o X, e estabelecemos comunicação, diga-se empatia. Junto, seu irmão que era um ano mais novo, o ajudava a tentar ganhar de mim. Descobri também que o jogo da velha é mundial. Coisa boba – que achei que ninguém lembrava mais.

De certa forma existe uma linguagem mundial. Principalmente entre as crianças. Existe uma carência global também, que poucos denotamos. Existe violência em todo lugar, a única diferença é como tratamos essa violência. No caso do instituto que prestei trabalho, eles ficavam felizes de trazer alguém de fora. Que pudessem trazer curiosidade e dar vida a estas crianças que tiveram tão pouco de suas famílias. Além disso, o conhecimento em outras línguas, embora poucos quisessem aprender, era um dado importante.

Mesmo sem querer estudar, eles tinham outras curiosidades, como é o futebol brasileiro por exemplo, o samba e as comidas, além da língua natural do Brasil, que chamavam de “Portugalo”. Queriam fotos, significados e surpresas. Quem não gosta?

Para matar um pouco a curiosidade lhe mostrei alguns álbuns, e a atenção era mútua. Tanto que podemos explicar o fato através dos grandes acessos ao facebook. Aliás, todos tinham acesso a rede. Já os significados, é o que sempre estaremos em busca, queremos saber o porquê disso ou daquilo e não é diferente com as crianças e adolescentes. Na verdade, eles são os que mais desenvolvem a busca por este sentido. Por isso perguntam mais, questionam, querem saber a lógica. Nós adultos infelizmente não buscamos tanto o sentido na nossa vida como fazíamos quando éramos mais jovens. Mas mesmo assim, sempre estaremos a sua procura.

Finalmente estabelecemos a surpresa, aquele prazer inesperado, que vem com um ato de espanto duvida ou alegria. Todas estas coisas fazem parte de nosso ser. E que, apesar dos diferentes tipos de culturas, comidas e línguas, temos a mesma expectativa: construir um mundo melhor, com famílias menos desestruturadas, com mais amor e educação, com mais paciência e dedicação e principalmente menos violência. Não tinha como não ver isso estampado nos olhos daquelas crianças e adolescentes, que se deixavam levar por cada trago de cigarro, ou por cada xingamento para sorrir, não de felicidade, mas para escapar da tristeza que é ter uma vida sem um sentido familiar.


Colunista: Sâmara Azevedo

  • Sâmara Azevedo
    Sâmara Azevedo
    Colunista
Sâmara Azevedo
Colunista

Possui graduação em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário Barão de Mauá (2012). É autora do livro reportagem “Violência na Escola: O desafio de enfrentar o bullying e reconstruir a paz”, publicado em 2013 pela editora Kiron. Foi monitora do curso de Psicologia Social, na USP Ribeirão. Trabalha atualmente como redatora e dedica-se à escrita nas horas vagas. Acredita em um mundo mais humano e cooperativo.

email: samyy.azevedo@gmail.com

Perfil Facebook: https://www.facebook.com/samara.azevedo.14?ref=bookmarks

Perfil Instagram: https://www.instagram.com/samynhaazevedo/?hl=pt-br


DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here