A utilização de substâncias para melhorar a qualidade do sono e aliviar as tensões cotidianas parece acompanhar o homem desde a Antiguidade. Na literatura, em rituais religiosos existentes antes de Cristo, é possível identificar relatos da utilização de plantas psicoativas, capazes de produzir estupor e certo grau de inconsciência.

No decorrer destes milhares de anos, a medicina foi evoluindo e, atualmente, nosso arsenal medicamentoso ganha particularidades ímpares. As drogas atuais são capazes de reproduzir efeitos sistêmicos ou localizados, por minutos, horas, dias ou anos. A individualidade de cada uma deve corresponder a um grupo de sinais e sintomas, o que as torna imprescindíveis para a melhora da nossa qualidade e expectativa de vida. Os benzodiazepínicos (BZD) por exemplo são medicamentos ansiolíticos e hipnóticos, indicados para transtornos psicóticos, crises graves de ansiedade e tantos outros problemas que, por teoria, estão aos cuidados dos médicos psiquiatras. Na atualidade estes medicamentos têm sido utilizados em grande escala para induzir o sono.

Um levantamento de dados realizado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) sobre a prescrição dos benzodiazepínicos em quatro países, revelou que a utilização demasiada desta classe medicamentosa foge das indicações encontradas no Guideline (diretriz) de tratamento psíquicos. Podemos entender o porquê desta falácia, já que estes medicamentos induzem uma rápida resposta terapêutica e de fato facilitam o sono. Acredita-se que no Brasil temos mais de 50 milhões de dependentes de benzodiazepinicos, citamos como exemplo o Diazepam (Valium), Clonazepam (Rivotril), Cloxazolan, (Olcadil) Bromazepam (Lexotan) e Alprazolam (Frontal).

Na década de 70, estes medicamentos eram considerados seguros e com baixa toxicidade. Hoje, após diversas publicações, sabemos que tais afirmativas devem ser encaradas com senso crítico, já que há descrições acerca dos inúmeros efeitos nocivos da sua aplicabilidade abusiva e prolongada.  Sabendo do déficit de informações verídicas para o púbico leigo, cabe aqui ponderarmos que os benzodiazepínicos apresentam efeitos colaterais alarmantes, dentre eles incluímos náuseas, depressão, sonolência, tonturas, diminuição da atenção e concentração, dificuldade de coordenação motora, alterações do apetite, visão borrada, pesadelos, confusão mental, diminuição da libido, sedação diurna, ansiedade, perda de interesse em atividades de lazer, incapacidade de sentir ou de expressar as emoções, abstinência, dependência, entre outros.

Na terceira idade, estes efeitos tendem ser ainda mais expressivos, pois os idosos têm facilidade em criar dependência física medicamentosa quando comparado aos adultos. Isso nos preocupa, pois se levarmos em consideração que as quedas, traumas e acidentes automobilísticos representam mais de 40% da morbimortalidade em idosos, devemos ficar atentos ao uso desses medicamentos sem sua real necessidade.

Recentemente um estudo  de caso-controle publicado pela Universidade de Bordeux na França, e Universidade de Montreal no Canadá, ganhou repercussão e fama internacional após sua publicação no “British Medical Journal” (um dos mais influentes e conceituados jornais sobre medicina do mundo). O estudo registra o acompanhamento de aproximadamente 9 mil pacientes acima de 66 anos dependentes de benzodiazepínicos por mais de três meses. Segundo os dados, a conclusão foi que nesta circunstância o risco para desenvolvimento de Alzheimer elevou-se para 32%.  Pasmem! Segundo o artigo quando o período de uso destes psicoativos ultrapassam seis meses, este risco amplia exponencialmente, podendo chegar a 82%.

O Alzheimer é uma enfermidade crônica, degenerativa e progressiva do sistema nervoso central (cérebro). Trata-se de uma doença que afeta a memória e as faculdades mentais podendo evoluir de maneira irreversível para um estado

Demencial. Sua ascensão entre a população mundial, principalmente em países e cidades desenvolvidas tem gerado a curiosidade de milhares de pesquisadores pelo mundo. Após este estudo, mesmo tendo resultado alarmante, ainda não podemos afirmar com precisão a interação destes medicamentos com a gênese de doenças demenciais, entretanto todo cuidado é bem-vindo e estes dados jamais poderão ser ignorados. Como diz o famoso ditado: É melhor prevenir do que remediar…

Nunca suspenda ou introduza qualquer medicação sem antes consultar um profissional. Por fim, muito cuidado com os “remedinhos” para dormir, se o seu desejo é ter um sono revigorante e de qualidade, sempre que possível opte por métodos naturais e inofensivos, começando pela introdução regular de atividade física, controle do estresse com técnicas de relaxamento, aumento do consumo de alimentos frescos, plantas e ervas medicinas naturais -de preferência orgânicos, que sabidamente auxiliam na qualidade do sono.

Em situações especiais, quando necessário, solicite ao seu médico fórmulas manipuladas de substâncias naturais que podem agregar em sua terapêutica, citamos por exemplo o triptofano, 5HTP, entre outros precursores naturais de serotonina e melatonina (hormônios que regulam o ciclo sono-vigília), magnésio, vitamina B3, passiflora, valeriana e etc.

Bons sonhos!


Colunista: Victor Dias Moreira

  • Doutor Victor Dias
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Doutor Victor Dias
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Medicina Integrativa. Médico por formação, o Dr. Victor Dias Moreira acredita no real papel da atenção e prevenção de doenças, bem como em medidas social-educativas a fim de atenuar algumas interrogativas frequentes na população. Procura também, tratar os desiguais de acordo com suas desigualdades, e de forma holística integrar a saúde psíquica à saúde física.
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