Atualmente, as crianças e os adolescentes têm acesso, precocemente, a uma gama de informações proporcionadas pelos recursos tecnológicos disponíveis em nossa sociedade. Sob essa perspectiva, assimilam, mais rapidamente do que os adultos, as mudanças que ocorrem no mundo. Desenvolvem, dessa forma, uma falsa sensação de poder, sentindo-se senhores de si, de suas decisões e de um saber superior ao de seus pais e professores. De certa forma, têm a conivência da família e da sociedade, acomodadas por não precisarem acompanhar passo a passo seus jovens.

Nesse contexto, um fenômeno preocupante está em curso, a saber, estamos abandonando o treino das relações humanas. Envolvidas pelos equipamentos tecnológicos, crianças e adolescentes não aprendem a interagir, sentir, expressar suas emoções. Não experimentam a vida. Vivem num universo paralelo, quase sempre virtual. Uma das cenas mais comuns do cotidiano demonstra isso claramente: enquanto a família almoça num restaurante, crianças de pouca idade assistem a desenhos em seus celulares, tablets ou similares.

Assim chegam os jovens ao mundo real: fechados para a interação e para as possíveis influências do “mundo adulto”, numa atitude que denota autodefesa e insegurança. Ora expressam suas emoções com exagero, ora mostram-se frios e indiferentes. Os adultos, por sua vez, demonstram-se igualmente temerosos, pois não possuem o mesmo domínio da tecnologia, a mesma formação e a mesma vivência, e, além disso, cobram resposta para todo o “investimento” que foi feito. Fecham-se, então, num mecanismo de autoproteção, pois não sabem lidar com a cisão que esses jovens carregam, entre o pensamento e o sentimento. Revela-se, assim, o abismo produzido por um processo educacional deficiente.

“…é importante resgatar o que há de muito valioso: o potencial humano. Resgatar com respeito, regras e normas a relação com os jovens, mostrando que o aprendizado só é completo quando ocorre nas esferas intelectual, psíquica, emocional e social.”

Para que a educação seja coerente e consistente, é necessário mudar o enfoque da situação de aprendizagem do conteúdo programático para o relacionamento entre os jovens e os educadores. Segundo o psicólogo  Carl Rogers, “os educadores precisam compreender que ajudar as pessoas a se tornarem pessoas é muito mais importante do que ajudá-las a tornarem-se matemáticas, poliglotas ou coisa que o valha”. Precisa ser estabelecido um vínculo entre as duas partes, que crie um ambiente capaz de gerar mudanças no comportamento e sentimento de ambos. Educação, para ser efetiva, não pode ser unidirecional.

Se pretendemos modificar esse quadro atual, alguns pontos merecem reflexão:

– Definição de papéis

O adulto (pai, professor, sociedade como um todo) é o facilitador da aprendizagem, e responde pela manutenção de regras básicas para que ela ocorra. Essas normas devem ser claras, expressas diretamente e estabelecidas antes da ocorrência do evento (por exemplo, horário para voltar de uma festa). Negociá-las eventualmente dependerá da conquista do grau de confiança.

Não existe uma receita de sucesso. Tudo deve girar em torno das características da família, do grupo escolar, de todas as pessoas envolvidas no processo. Por exemplo, uma sala de aula imatura pode não conseguir perceber o momento em que o professor passa de uma brincadeira à aula novamente, e continuar tumultuando o ambiente. Seguramente, a postura precisa ser mais séria nesse caso.
Apesar de não parecer, os jovens “clamam” por limites, pois são estes são responsáveis por oferecer segurança e conforto.

– Respeito

Para ser respeitado, é preciso primeiramente aprender a se respeitar, o que significa reconhecer os próprios limites, sentimentos, assim como seus pontos fortes. Dessa forma, o ser humano estará aberto a uma relação de respeito com o outro. Isso se faz através da prática da empatia, que se dá, por exemplo, quando o adulto coloca-se no lugar do jovem, desloca-se para o seu ponto de vista, tentando entender seu mundo interior.

Trata-se aqui de reconhecer que cada indivíduo é único, por isso tem habilidades, características e potenciais próprios. Nesse sentido, não existe um ser humano melhor ou pior, existem pessoas diferentes entre si.

– Amor

É preciso gostar de crianças para ter filhos, gostar de jovens para lecionar, gostar da vida para mostrar que ela pode ser leve e que os problemas podem ser solucionados.

É condição primordial gostar do que se faz, demonstrando que também se pode obter felicidade mediante o trabalho, a paternidade e as situações que não sejam de lazer. Quando os pais dizem que filhos dão muito trabalho, ou quando professores anseiam por férias nas redes sociais, a mensagem que passam para os jovens é de que eles são cansativos e chatos, o que faz com que se afastem ainda mais.

– Parceria

Definitivamente, a relação entre jovens e adultos não pode ser de competição, principalmente na escola. A educação é um processo multidirecional. O adulto, por uma questão cronológica, estudou mais, viveu mais, teve mais erros e acertos, aprendeu mais. É a ele que cabe então a sabedoria de recuar e, quando necessário, de agir com autoridade. Ele precisa interagir e conhecer o mundo dos garotos, para que consiga caminhar lado a lado com eles, e, para que isso ocorra, é essencial que mostre que, além de ensinar, está disposto a aprender. Se a educação é um processo contínuo, como alguém pode se considerar pronto para a vida? Não haverá coisas importantes a serem aprendidas com as novas gerações?

Num momento em que tanto se fala em desrespeito e agressões aos pais e professores, é importante resgatar o que há de muito valioso: o potencial humano. Resgatar com respeito, regras e normas a relação com os jovens, mostrando que o aprendizado só é completo quando ocorre nas esferas intelectual, psíquica, emocional e social.

Esse é um grande desafio, pois A REFERÊNCIA SOMOS NÓS!


Matéria por: Mariana Abdala Garcia

  • Mariana Abdala Garcia
    Mariana Abdala Garcia
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Mariana Abdala Garcia
Colunista

Psicóloga formada pela USP de Ribeirão Preto.
Possui experiência em psicologia organizacional e clínica. Atua há 27 anos como psicoterapeuta de adolescentes e adultos, na abordagem Gestáltica, e em orientação profissional.

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