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Uma das grandes questões da Estética repousa sobre as possíveis funções da arte. E, para responder a isso, temos diferentes linhas de pensamento.

A vertente do “pragmatismo” defende que a arte serve como meio para se alcançar um fim não-artístico. É valorizada, portanto, não por si mesma, mas só pela sua finalidade. Esses fins não-artísticos variam muito no decorrer da história. Exemplos são as pirâmides do Egito ou filmes que passam uma “lição” de melhoria de vida ao espectador. As finalidades a serviço das quais a arte pode estar podem ser pedagógicas, religiosas, políticas ou sociais.

Para os “naturalistas”, por sua vez, o interesse está voltado mais ao conteúdo da obra do que para seu modo de apresentação. A obra de arte seria como uma janela que deixa entrever uma realidade que está além e fora dela, isto é, não no mundo artístico, mas no dos objetos retratados. Os critérios de avaliação são a correção da representação (se é o assunto que nos interessa, deve ser representado corretamente para que possamos identificá-lo), a inteireza, ou seja, a qualidade de ser inteiro, íntegro (o assunto deve ser representado por inteiro) e o vigor, que confere um poder de persuasão, especialmente se a situação representada for imaginária.

Já os “formalistas” afirmam que o importante é a forma de apresentação da obra, forma essa que contribui decisivamente para o significado da obra de arte. Esse, assim, é o único dos interesses que se ocupa da arte enquanto tal e por motivos estéticos, isto é, que fazem parte do mundo artístico. Nessa função, há uma valorização da experiência estética como um momento em que, pela percepção e pela intuição, temos uma consciência intensificada do mundo. Os formalistas defendem a “arte pela arte”. A arte é por si, serve somente a si mesma, não sendo, portanto, meio para qualquer fim, seja moral, político, social, religioso ou mercadológico.

Apresentados os três pontos de vista, trago à tona Friedrich Nietzsche, que não acredita na “arte pela arte”, mas também não acredita na arte como meio para um fim moral. E sua visão é sintetizada nesta passagem da obra “Crepúsculo dos Ídolos”:

“A arte pela arte. – A luta contra a finalidade na arte é sempre uma luta contra as tendências moralizadoras, contra a subordinação da arte à moral. A arte pela arte quer dizer: “ao diabo com a moral”. Essa mesma inimizade denuncia o poder preponderante ainda daquela preocupação. Porém ainda que se excIua da arte o fim de edificar e melhorar os homens, não se conclui daí que a arte deva carecer em absoluto dum fim, duma aspiração e dum sentido; que seja, numa palavra, a arte pela arte -;- a serpente que morde a própria cauda. – ‘Antes não ter um fim que ter um fim moral!” Assim fala a paixão. Porém um psicólogo pergunta, ao contrário: O que em toda espécie de arte faz? Não louva? Não glorifica? Não isola? Com tudo isso a arte fortalece ou enfraquece certas avaliações; é isso um acessório, uma coisa acidental? É algo em que o instinto artístico não tem participação completa? É que a faculdade de poder do artista não é a condição primeira da arte? Está o seu instinto básico dirigido à arte, ou preferivelmente ao sentido da arte, à vida, a um desejo de vida? A arte é o grande estimulante da vida”


Colunista: Matheus Arcaro

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Matheus Arcaro
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Professor de Filosofia e Escritor.
Matheus Arcaro nasceu em 1984 em Ribeirão Preto, onde vive atualmente. Graduado em Comunicação Social e também em Filosofia. Pós-graduado em História da Arte. Atua como professor de Filosofia e Sociologia, artista plástico e palestrante. Desde 2006 tem artigos, crônicas, contos e poemas publicados em veículos regionais e nacionais. Seu livro de contos ‘Violeta velha e outras flores’, publicado em 2014 pela Patuá, vem recebendo ótima crítica em âmbito nacional. Seu romance será publicado em 2016.

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