Os dois recém saídos da adolescência que moram nos EUA hoje, resolveram ir a uma loja de brinquedos, daquelas bacanudas para nós tupiniquins, mas até chinfrins para os padrões trumpianos; compraram várias armas plásticas que cospem canudos de espuma. Armaram um fuzuê daqueles no quintal entre gritos estridentes e trolagens quase incompreensíveis para quem tem mais de quinze anos.

O rapaz esquenta a faca com três maçaricos e quando a lâmina já está laranja como um pôr do sol, corta vários objetos ao meio; de bola de tênis e sabonete, passando por uma vã tentativa num celular. Mais gritos e grunhidos.

O grupo composto por duas garotas e um garoto decidiu; encher uma banheira com Nutella; é pote que não acaba mais! Mas a empreitada pareceu fadada ao fracasso. Isso não foi motivo para a repressão dos gritos cada vez mais incontroláveis.

O que liga as três performances é a chancela de vídeos que bombam alucinadamente no Youtube. Milhões de views atestam que a turma de imberbes e nem tanto, adora e quer mais desse entretenimento. A alta tecnologia serve para dar uma cara de improviso a tudo isso. Consumismo extremo, riscos de graves acidentes, desperdício e idiotice pura são expressões que não entraram numa inexistente reunião de pauta entre as engenhosas mentes por trás das façanhas. A fanfarronice parece ter sido friamente calculada. Teria sido?

Agora estamos no final dos anos 80. A precariedade dos aparelhos de TV faz daqueles caixotões figurantes de um episódio do Chaves. A iluminação quase circense dos cenários pintados à mão lembram aquelas telas naifs vendidas em beiras de estradas e arredores de rodoviárias. A trupe é variada e colorida. O cientista/professor com nariz, óculos, bigodes e sobrancelhas falsos era um músico virtuoso que acompanhou Elis Regina tocando flauta, flauta doce e fez o arranjo “Canção da América” no álbum “Saudades do Brasil”; ator de talento que encenou Brecht e Kurt Weil em “Mahagonny Songspiel”; foi premiado como melhor atuação no Festival de Brasília no filme “Beijo 2348/72” dirigido por Walter Rogério em 1990. Sua encarnação do “Amigo da Onça” (criado pelo genial desenhista Péricles) nos palcos, beirava a mediunidade. Chiquinho Brandão era o Professor Parapopó. Ali com a criançada ele ensinava arte com materiais reciclados, manipulava e fazia as vozes de vários fantoches, tocava violão ensinando antigas marchinhas e soltava tiradas geniais e cacos desconcertantes que só os “idosos” com mais de vinte anos conseguiam captar.

Certa vez, ao limpar uns pincéis com um trapinho, já deveras castigado pelo tempo comentou:

– Uau, esse paninho tá aqui na Cultura desde o tempo do Ziembinski!

Em outra ocasião fez um sketch maravilhoso em cima da marca tampada com fita crepe da cola branca protegendo-a do merchan.

Uma atriz contava histórias em uma bancada minimalista utilizando vassoura, funil, caneca, desentupidor e outros variados objetos improvisados para criar os personagens, cada um com uma voz diferente feita pela mesma. Aquele elenco de objetos in/animados exalava mais vida que o casting de muitas novelinhas teens de hoje.

Tocar bem um instrumento, manipular fantoches de um jeito que lhes davam o divino dom da vida, criar vozes tão díspares que era impossível imaginar terem saído da mesma pessoa, confeccionar origamis, robôs, animais e tudo que se possa criar um universo com coisas aproveitadas e até catadas em latas de lixo, contar histórias, lendas e clássicos da literatura. Ensinar coisas boas e eternas. Assim era o programa “Bambalalão”, com Chiquinho Brandão, Gigi Agnelli, Silvana Teixeira, Marilam Salles, Àlvaro Petersen, Helen Helene, João Acaiabe entre tantos e variados talentos. Ademar Guerra e Antonio Abujamra dividiam a direção com outros monstros da dramaturgia.

Saudosismo? Excesso de nostalgia? Pode ser, mas aquela TV gigante e em tubo era bem mais divertida que cortar um potão de “Amoeba” com faca incandescente.


Colunista: Renato Andrade Vieira

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Renato Andrade Vieira
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Sou cartunista, ilustrador, artista plástico, escritor e dublador de desenho animado. Gosto de inventar histórias para meus filhos Theo e Lino, adoro café e João Gilberto. Atualmente sou chargista do jornal A CIDADE de ribeirão preto-SP.
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