O resultado do IDEB de 2015, finalmente saiu! E gerou comentários em jornais, redes sociais, tevê. A maioria dos quais mostrando perplexidade diante dos resultados desalentadores. Dentre tantos houve consenso apenas em relação aos sofríveis resultados do Ensino Médio, o que gerou propostas diversas: algumas reafirmando a necessidade de mudanças curriculares; outras apostando no aumento da carga horária – que já consta do Projeto de Lei 6840/13, que trata do Ensino Médio Integral; houve quem sugerisse adotar o Currículo por Áreas de Estudo, utilizado no Ensino Fundamental a guisa de solução. Não faltaram ideias e algumas estão até sendo discutidas em Brasília.

O que me deixa insone é verificar que, dentre as inúmeras discussões, não tenha havido uma referência sequer ao que previ e consta em livro publicado no distante ano de 2006! Não que eu tenha algum dom de adivinho; é que me parece cristalino: como não esperar grave crise de qualidade no Ensino Médio, se, faz tempo, estamos tendo resultados pífios a cada avaliação nacional ou internacional a que se submete o Ensino Fundamental brasileiro?

O Ensino Médio sequencia o Fundamental. Como não imaginar que resultados ruins numa etapa, não provoquem resultados também baixos a cada uma que se sucede?  Um nível é progressão do outro. Também não dá para não prever – com igual e triste clareza, e mesmo não sendo dotado de capacidade extraterrena -, que, até nichos de qualidade, como são ainda as universidades públicas brasileiras, aos poucos, não acabem tendo resultados gradativamente decrescentes.

Em outras palavras: se o Ensino Fundamental está péssimo há décadas, é óbvio que não se pode esperar nada de diferente, anos depois, do Ensino Médio, e mais outros depois disso no Ensino Superior. É bola de neve sem remédio. A não ser que – ironizando – as autoridades tenham a “incrível” ideia de universalizar a aprovação automática… Uma penada e acabou-se o problema. Seremos então nação sem igual, composta, toda ela, de engenheiros, enfermeiros, médicos, professores e cientistas!

Todo mundo com canudo de papel (desempenho por aqui parece ter cada vez menor relevância: as autoridades pouco se importam com isso). Seremos nação com diploma (e sem saberes), orgulhosa do “crescimento” inigualável da multidão de diplomados em nível superior!E é bem provável que, à época, ninguém perceba a razão de tantos mortos e feridos, já que ninguém estará apto a “fazer o link”, como é charmoso se falar agora.

Quem construiu casas que desabaram, conduz os feridos a hospitais onde equipes também despreparadas completarão o estrago, e onde pacientes serão facilmente trocados, visto que também não se saberá preencher formulários.Será bem fácil se perder de vista entes queridos, porque, no percurso da incompetência, alguém não conseguirá interpretar instruções do mapa que os conduziria à exata alameda, de uma das inúmeras quadras, onde o ente querido descansa, agora, em paz.

E assim viveremos entre um sobressalto e outro. Mas todos com canudos de papel, certamente. Quem viver, verá!


Matéria por: Tania Zagury

  • Tania Zagury
    Tania Zagury
    Colunista
Tania Zagury
Colunista

Filosofa, Escritora, Membro da Academia Carioca de Letras.
-Professora Adjunta da UFRJ / Universidade Federal do Rio de Janeiro/ De 1977 a 2000.
-Coordenadora dos Cursos de Graduação em Supervisão Escolar, Administração Escolar e Orientação Educacional da Faculdade de Educação, da UFRJ. De 1987 a 1992.
-Mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro / UFRJ
-Filósofa, graduada na Universidade Estadual do Rio de Janeiro / UERJ-Escritora com 25 livros publicados no Brasil e no exterior
-Conferencista e Pesquisadora em Educação
Mais de 1850 entrevistas concedidas para televisão, jornais e revistas de circulação nacional, dentre os quais: Veja (Entrevistada das Páginas Amarelas, entre dezenas de outras), Nova Escola (Entrevista nas Páginas Verdes), Isto é (Entrevistada das Páginas Vermelhas, entre outras), Época, Folha de SP, Estadão, Zero Hora, O Globo, Correio Brasiliense, Jornal do Brasil, Diário de Natal, Estado de Minas, Jornal Nacional, Globo Repórter, Programa do Jô (quatro vezes) Mais Você, Sem Censura (cinco vezes), Marília Gabriela Entrevista, Fantástico, Globonews, Almanaque etc.

Clique aqui para acessar todos os textos da colunista
Site Próprio
E-mail
Fanpage


DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here