Assim que a sua mãe disse tchau, Renato ligou para a noiva:

– Vem cá, vem – pediu com voz apaixonada. – Estou sozinho, minha mãe saiu e só volta daqui a duas horas. Vem, amor. Vem, por favor.

E Fernanda:

– Não dá, Rê. Tenho mil coisas pra fazer. Vê se entende.

Ele não entendia e não iria desistir. Era um persistente nato. Quando queria alguma coisa, fazia e acontecia até conseguir. Desde criança era assim. Mãe, eu quero ir para Disney. Mãe, eu quero ver o Pateta, o Mickey e o Pato Donald. Vamos para a Disney, mãe! Diz que sim. Mãe, tá me ouvindo? Vou continuar falando. Disney! Disney! Disney! Mãe? Jura? Obrigado, mãe!  Por isso, ele insistiu mais uma vez:

– Eu estou te pedindo, Fer. O que é que custa? Eu tenho uma surpresa para você.

– Tá legal – disse ela, dando-se por vencida. Sabia que seria inútil resistir. – Eu vou dar uma passadinha aí. Mas é rapidinho, tá?

Feliz da vida, Renato respondeu que sim e desligou o celular ao mesmo tempo em que acendia um cigarro. Era o seu primeiro dia de férias. Ele estava se sentindo carente, solitário, sem nada para fazer e ainda por cima excitado à beça. Fernanda trabalhava ali pertinho, era hora do almoço e dia dos namorados. Portanto o mundo estava conspirando para ele se dar bem.

Levou o Marlboro à boca, esfregou uma mão na outra e foi até o quarto buscar o presente que havia comprado para ela, que se não passasse em nenhum lugar antes deveria aparecer em no máximo 5 minutos.

Com o pacote nas mãos, Renato começou a admirar o laço. Era um belo enfeite, sem dúvida, o embrulho também era de muito bom gosto, assim como o papel de presente em tons fortes. Mas o mais importante era o seu conteúdo. Ali dentro estava uma coisa que ele vivia namorando para Fernanda há tempos, o grande fetiche dele: um maravilhoso par de sapatos de salto alto. Renato não via a hora de vê-la calçada com eles. Sonhava com isso.

– Oi, amor – disse ela logo que chegou, já arrancando a sandália, desabotoando metade da blusa e se jogando nos braços dele. – Eu não posso demorar, hein?

– Eu sei, mas espera um pouco – e entregou-lhe o presente. – É para você. Espero que goste.

Fernanda olhou para o noivo com ternura, ficou na pontinha dos pés, deu-lhe um beijo de agradecimento na testa e começou a abrir cuidadosamente o embrulho. Era caprichosa, não iria achar legar se o papel rasgasse.

– Gostar? – disse ela, tentando demonstrar contentamento, apesar de bastante desapontada. – Eu amei – ela mentiu. Na verdade, não havia gostado do presente. Odiava salto alto, mas sabia que Renato adorava e queria que ela usasse. Por isso, fingiu ter gostado. O amor tem dessas coisas.

– Você gostou mesmo?

– Muito. Te amo, Rê. Mais que tudo – completou, dando-lhe um abraço apertadíssimo.

– Também te amo – disse Renato, realizado. – Experimenta. Você já está descalça mesmo.

– E quase pelada, não é? É que eu pensei que a gente ia…

Os dois riram.

– Meu Deus! Ficaram maravilhosos. – dissimulou ela mais uma vez. Não parava de desfilar para o noivo a admirar. Mesmo que a contragosto.

– Me dá um beijo – pediu – Um, dois, três milhões de beijos.

Ele deu. Ela deu. Foi o melhor amor que fizeram em três anos de relacionamentos. Depois ficaram leves, cheios de paz.

– Nossa! – disse ela, voltando ao mundo dos mortais. – Eu preciso ira embora. Minha hora de almoçou já acabou.

Renato tocou-lhe o rosto, pegou a sua mão:

– Fica mais um pouco, fica.

– Bem que eu queria, mas não dá. Eu não estou de férias como certas pessoas – disse, rindo, vestindo a blusa e tirando os sapatos novos.

– Você vai tirá-los? – perguntou Renato, meio decepcionado. – Vai com eles – sugeriu.

– Não. Nem pensar.

Só dela se imaginar andando com eles na rua lhe dava arrepios.

– Por quê? – perguntou ele.

– Não é hora – desculpou-se.

– Vai com eles, amor. Por favor.

– Acho melhor não. – disse ela, descalça.

– Eu te peço. – disse ele, ajoelhando-se. Pegou os sapatos e, com um olhar de cachorro sem dono, entregou para ela. – Põe, vai. Eu te imploro.

– Não, Renato.

– Põe – ele pediu com aquele tom de voz que ela sabia que não iria conseguir contrariar. – Você vai ficar linda. Mais ainda. Põe! Põe! Põe!

– Mas usar para trabalhar?

Ela não queria colocá-los e ainda tinha uma tola esperança de que ele desistisse da ideia. Como se não o conhecesse.

– O que é que tem? Aproveita para mostrar para tuas amigas.

– Eu tenho medo de estragar. Usar para trabalhar um sapato tão chique assim chega a ser pecado. Esses sapatos são apenas para sair e olhe lá.

– Bobagem – disse Renato – Se eu fosse você, iria com eles. Pelo menos hoje.

– Tá bom – concordou ela, finalmente. – Acho que você tem razão. Você me convenceu. Você sempre me convence, não é? Por mim eu não iria, mas já que você quer, eu vou.

Ela calçou os sapatos novamente e disse:

– Eles são tão lindos que não dá vontade de tirar mesmo – mentiu de novo, só para fazê-lo feliz.

Então, já vestida, Fernanda pegou a bolsa e tirou de dentro um pacotinho retangular.

– Agora é a minha vez. O meu presente é bem mais humilde, mas é de coração, como dizem. Que frase brega, hein! – e riu. Os dois riram.

– Ah, sua boba, não precisava se preocupar.

– É um cinto. Só um cinto.

– Estou vendo – disse ele, desembrulhando o pacote. – É muito bonito.

– Espero que você use logo. Porque como você está vendo, eu já estreei o presente que você me deu – disse ela, dando uma voltinha. O que não fazia por ele…

– Claro. Prometo que vou usá-lo assim que tiver uma oportunidade. Hoje quem sabe. A gente vai sair, não vai?

Os dois se beijaram com sofreguidão. Despediram-se em seguida, trocando carícias no rosto e declarações de amor.

Renato fechou a porta e foi para a sacada do prédio, ele morava em um apartamento no segundo andar. Como sempre, queria ver Fernanda ir embora. Toda vez que ela saía, ele ficava espiando, admirando-a. Ela abanava a mão, jogava-lhe dois beijos, atravessava a rua e virava a esquina, sumindo da visão dele.

Porém naquele dia não foi o que aconteceu. Fernanda estava caminhando com dificuldade, mas ele achava charmoso. Ela parou, olhou para Renato e mandou-lhe pelo menos uns dez beijos. Depois, distraída, resolveu atravessar a rua. O salto do pé direito dela engarranchou, caiu em um pequeno vão, entre dois paralelepípedos e ela tombou. Tentou se levantar, mas não conseguiu: o pé preso. Um ônibus vinha a toda velocidade e atingiu o corpo de Fernanda em cheio. Só conseguiu brecar depois de ter esmagado o tronco e membros, passando inclusive por seus tornozelos. O impacto foi brutal. Mas os sapatos não sofreram um arranhão sequer. Mantiveram-se reluzentes.

Renato assistiu a tudo, incrédulo e pasmo, sem poder fazer nada a não ser gritar, com os braços estendidos como se fosse capaz de salvá-la. Atônito, soluçava forte.

Cambaleante, como se o ônibus tivesse passado por cima dele também, repleto de culpa e remorso, instintivamente dirigiu-se para o quarto com o presente da namorada nas mãos. Chorando, decidiu estreá-lo imediatamente.  Fez os devidos preparativos, subiu em uma cadeira e depois de um ou outro ajuste, envolveu o pescoço com o cinto, apertando o mais forte que podia, como a dor que sentia. Precisava encontrar Fernanda o mais rápido possível, para ajoelhar-se aos seus pés, tirar seus sapatos e pedir-lhe perdão.

Perdoa! Perdoa! Perdoa!

A mãe de Renato chegou dez minutos depois e já abriu a porta chorando.

Conto publicado no livro: “Tristes Finais para Começos Infelizes”. Relacionamento humano, dia dos namorados

Raul Otuzi é autor dos livros “Tristes Finais para Começos Infelizes” e Cenas de um Casal Publicitário: ou qualquer outro nas galáxias


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Raul Otuzi é Redator, Professor e autor do livros: “Tristes Finais para Começos Infelizes”, “Cenas de um casal publicitário”, “25 contos sobre relacionamentos humanos, seus abusos e absurdos”.

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