Aproxima-se o dia tão esperado por muitos. O senso comum grita aos quatro ventos que é tempo de amor, de fé, de renovação da esperança e blá-blá-blá… E, seguindo esse clima, desde novembro lojas e ruas estão saturadas de enfeites e frases de amor.

A grande questão é: para quê? Para que o espírito de fraternidade se espalhe entre os homens? Pouco provável! Quem tem um tanto de razoabilidade desconfia que todo esse “espírito” é forjado para saciar o bicho-consumidor, a criatura que trabalhou arduamente vários meses para ser recompensada no final do ano. É para este animal desejante que são feitos os anúncios com sorrisos e embrulhos ao redor de um pinheiro; é para o homo consumitos que as empresas colocam frases convidativas abaixo de suas logomarcas e que as redes televisivas põem suas celebridades a cantar, na tentativa de nos convencer que a festa é nossa, é de quem quiser.

A imagem do gordo de barbas brancas, que, aliás, foi popularizada pela Coca-Cola, é um dos símbolos da coisificação das relações sociais criticada por Marx. O “bom velhinho” é o instrumento entre a mercadoria-produto e a mercadoria-sujeito. Onde já se viu Natal sem presente? E não me venha com “lembrancinha”, você não me ama?

Capítulos notáveis dessa tragicomédia podem ser vistos nas celebrações familiares. Pessoas com pouca intimidade entre si, reunidas em nome dos laços genéticos, abraçam-se com uma verdade só vista nos reality shows. E mais: embora, supostamente, se comemore o dia do mais humilde dos homens, são evidentes os pecados capitais: a gula é incitada pela mesa farta; a ira surge com o presente ganho pelo irmão; a cunhada desperta a inveja porque turbinara os seios e o genro soberbo fala do seu carrão, fabricado (não sei como) no ano que sequer começou.

Mas não sejamos pessimistas. Afinal, o Natal é a celebração do natalício do Salvador. Será? Mesmo aos que necessitam de salvação (de que, me pergunto), a história não é muito clara. Segundo alguns historiadores, Jesus não nasceu em 25 de dezembro. Esse dia foi adotado pela Igreja para fortalecer o cristianismo, já que coincidia com a festividade romana pagã dedicada ao “nascimento do deus sol”. Poderíamos ainda discutir inúmeros pontos sobre a faceta religiosa do Natal, como por exemplo a construção da divindade de Cristo, mas isso demandaria muitas laudas, o que não é o caso dessa singela verborragia.

De qualquer modo, o propósito deste texto não é descolorir o Natal. Ao contrário. Quem sabe, ensejando reflexões dessa natureza, consigamos resgatar o sentido que a própria palavra Natal traz em si: nascimento. O nascimento de uma visão de mundo mais humana.

 


Colunista: Matheus Arcaro

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Matheus Arcaro
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Professor de Filosofia e Escritor.
Matheus Arcaro nasceu em 1984 em Ribeirão Preto, onde vive atualmente. Graduado em Comunicação Social e também em Filosofia. Pós-graduado em História da Arte. Atua como professor de Filosofia e Sociologia, artista plástico e palestrante. Desde 2006 tem artigos, crônicas, contos e poemas publicados em veículos regionais e nacionais. Seu livro de contos ‘Violeta velha e outras flores’, publicado em 2014 pela Patuá, vem recebendo ótima crítica em âmbito nacional. Seu romance será publicado em 2016.

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