Falar de maternidade ou da materna idade é coisa relativamente fácil. Enquanto a primeira se refere ao local tecnicamente preparado para recepcionar mães e rebentos dispostos a estrear nesse mundo de meu Deus, a segunda expressão diz respeito ao momento em que a mulher passa a sentir-se preenchida pela nova pessoa que está a se formar dentro de seu corpo. Interessante que muitas vezes esse fenômeno acontece até mesmo antes da gravidez, quando o desejo se revela mais marcante que a própria alteração hormonal. Redundante falar, mas ser mãe é um processo que costuma se instalar a partir da expectativa do sonho, se firmando com as primeiras sensações da desejada mutação. Se na mulher a idade de se tornar mãe está diretamente vinculada à gravidez, em que momento o homem daria início a sua descoberta como pai?

“…Nas últimas décadas, com o crescimento da presença feminina nas diferentes áreas do mercado de trabalho e até mesmo na política, abriu-se uma oportunidade fantástica para que pais se reconheçam como membros ativos na formação da personalidade de seus filhos e filhas, não apenas recordando ou inventando histórias mirabolantes de momentos heroicos, do tipo “no meu tempo eu…”, mas principalmente exercendo a prática da troca de informações e opiniões…”

O processo que leva um homem a descobrir-se pai é bem mais complexo, só eclodindo a partir do momento em que esse passa a se sentir realmente pertencente à confraria instituída pela zelosa mãe e seu filhote inocente, o que pode demorar ou até nunca vir, dependendo de como ele se posicione nesse sentido.

O que deveria ser um processo natural, na verdade chega muitas vezes a emperrar, pois em certas situações esse espaço não lhe é concedido ou a educação machista, que lhe foi imposta, o impede de se manifestar nas funções paternas, chegando a se enxergar como incapaz de tais tarefas.

A questão é que ser pai não é uma função diretamente ligada à realização de determinadas tarefas e muito menos a sua capacidade de sustentar os descendentes. Não significa apenas dedicar-se a educação de filhos naturais ou adotivos, pois isso também pode ser muito bem realizado até mesmo por instituições especializadas.

Nas últimas décadas, com o crescimento da presença feminina nas diferentes áreas do mercado de trabalho e até mesmo na política, abriu-se uma oportunidade fantástica para que pais se reconheçam como membros ativos na formação da personalidade de seus filhos e filhas, não apenas recordando ou inventando histórias mirabolantes de momentos heroicos, do tipo “no meu tempo eu…”, mas principalmente exercendo a prática da troca de informações e opiniões.

A formação de cada filho precisa e deve ser lapidada, de preferência a quatro mãos, em uma parceria de ideias, valores e atitudes sempre pautadas nas novas formas de se enxergar o mundo, porém sem perder as características inerentes de cada família.

Foi-se o tempo em que ser pai se bastava em ser correto e digno de exemplo.

Para os jovens de hoje, mais importante que pensar: -“diante desse problema, o que meu pai faria em meu lugar”, fica a necessidade de reflexão a respeito de todas as informações captadas em casa, na escola, e nos meios de comunicação, e tomar a decisão lhe pareça mais sensata. Nesse contexto, se a presença paterna se restringiu ao contar historinhas desconectadas do burburinho atual, os interesses da mídia e a insegurança dos discursos adolescentes ganham espaço, podendo gerar muito mais fracasso que sucesso.

Assumir-se como pai, muito mais que uma mera obrigação, é uma saborosa oportunidade de conhecer-se além das obrigações do dia a dia, que alias só fazemos crescer. O homem que tem a chance de desfrutar desse presente não pode deixar de usufruir desse espaço em que passa a descobrir sua importância enquanto ser que deve interferir no meio em que está inserido.

Por outro lado, dentro desse momento histórico em que as instituições procuram por profissionais que além de conhecimento técnico, apresentem maleabilidade em suas relações (networking), pais precisam aprender a transferir a seus filhos suas experiências positivas e negativas; debatendo caminhos e alternativas que sejam facilitadores para esse desempenho futuro.

Quanto mais informação debatida e contextualizada maior o leque de visão na hora da tomada de decisão diante das incertezas da própria vida. A esse leque complementado pela disponibilidade no agir chamamos de maturidade, o que o líder chinês Lin Tse-hsu (1785-1850) definiu como “uma opção que algumas pessoas fazem enquanto envelhecem”.

Assumimos a paterna idade no momento em que nos colocamos como exemplo através do diálogo e não apenas da autoridade que durante séculos vigorou nessas relações.

A paterna idade também tem início em um sonho que caminha desde a descoberta de nossa própria identidade até o ver em espelho alguns desses (mesmo que poucos) detalhes revelados em cada cria, o que comemoraremos a cada aniversário de cada filho.

Como disse a poetisa Cora Coralina “feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”. A chave da felicidade humana sempre esteve nas conexões resultantes do diálogo.


Matéria por: Guilherme Davoli

  • Guilherme Davoli
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Guilherme Davoli
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Psicólogo atuante como psicoterapeuta, professor de psicologia, consultor empresarial e educacional. Autor dos livros:
“Admirando a tempestade e brincando com o vento”
“Vítimas e aprendizes da própria história”
“Somos mais que um simples espetáculo” “Colecionadores de histórias”
Articulista das revistas: “Evidência”, “Profissão Mestre”, “Conectado”, “Ultimato online”, SME-Sistema Mackenzie de Ensino” e do jornal “The Brasilians” (New York). Palestras, cursos e oficinas em empresas, órgãos públicos e instituições de ensino, desenvolvendo temas pertinentes à educação, relacionamento interpessoal e qualidade de vida.

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