Os jovens têm sido responsabilizados por muitos dos danos causados à sociedade. A mídia, particularmente, exibe todas as transgressões cometidas por eles – quanto mais atrozes, mais audiência proporcionam. Em princípio, parece que estão dominando o mundo, mas seguramente não estão felizes; frequentemente, aliás, sentem-se desorientados e sem rumo. Há vários indícios que apontam para essa infelicidade: aumento de consumo de drogas entre os adolescentes, aumento na taxa de suicídios, evasão escolar, improdutividade.

Se consideramos apenas os comportamentos dos jovens, ao buscarmos explicações para esses fenômenos, deixamos de nos avaliar enquanto adultos responsáveis pela sua formação.

Estabelecimentos escolares e pais atribuem, uns aos outros, o papel de educar as crianças. Professores esperam que elas venham disciplinados de casa, e os pais esperam que as escolas resolvam os problemas de comportamento de seus filhos.  Na verdade, somos todos responsáveis pela educação de nossos jovens: pais, professores, tios, vizinhos, cuidadores, enfim, todas as pessoas que interagem com eles. Educação é tarefa de toda a sociedade. Entretanto, pais e professores têm os papéis mais importantes, pela autoridade que exercem, pelo tempo em que estão presentes na vida deles, pela influência direta na formação de suas personalidades.

Ao longo dos anos, porém, houve uma espécie de ruptura na relação entre essas duas figuras igualmente importantes para a formação do ser humano, um distanciamento que, muitas vezes, deixa-nos com a impressão de que pais e mestres atuam em lados opostos, como adversários. As razões para essa situação são várias e complexas, mas é essencial começarmos a pensar sobre elas.

É muito comum dizermos que antigamente os adultos e professores eram mais respeitados. Entretanto, na maioria das vezes, nos calávamos por medo de punição, e não por educação ou respeito ao próximo. Era usual e considerado adequado sofrer punição física e moral. Muitos professores usavam réguas enormes para ameaçar os alunos e, com isso, obter silêncio e disciplina. Várias pessoas cresceram com traumas, bloqueios e baixa autoestima, sem que sequer os adultos percebessem. Afinal, o comportamento esperado era obtido: fomos adestrados a trabalhar, produzir, e exigir pouco. Em função da rigidez e austeridade em que vivemos, tentamos evitar a mesma situação para nossos filhos, promovendo, assim, uma superproteção e excesso de liberdade. Dessa forma, atingimos outro extremo, que é a falta de regras e limites.

Segundo o dicionário Aurélio, limite é o “momento ou espaço que corresponde ao fim ou ao começo de algo”. Não ensinamos isso, e como resultado temos crianças e jovens confusos e egocêntricos, que não sabem fixar metas. Por outro lado, se o jovem mudou, tem outro comportamento, outras necessidades, habilidades e talentos, a escola pouco mudou – a despeito da aparente incorporação de novas tendências pedagógicas. O conteúdo, que já era chato no passado, continua praticamente o mesmo. O jovem tem vários estímulos externos, principalmente tecnológicos, que competem com a escola, mas vê-se forçado a digerir um conteúdo dissociado de sua realidade. O professor substituiu a régua pelo registro de ocorrência, pela indiferença com o aluno, pelo distanciamento do compromisso com a formação do ser humano. Nessa perspectiva, atém-se a seu papel de ministrar conhecimento, ignorando que não existe interação sem que se exerça influência sobre o outro. Parte do pressuposto de que o aluno não quer aprender; quer apenas nota. Atribui, geralmente, esse comportamento apático aos baixos salários da categoria, à falta de envolvimento dos pais, à carga horária exaustiva a que se submete.

Nesse contexto, muitas das reações negativas das crianças e jovens (deboche, agressividade, improdutividade) são provocadas por nós mesmos. Por exemplo, um aluno que se sente inferiorizado pode reagir de maneira rude, como mecanismo de defesa. Em casa, rebate qualquer proibição dos pais, pois não desenvolveu sentido de autoridade e resistência à frustração.

A sociedade só vai conseguir modificar essa situação se estabelecer relações de afeto, acolhimento, firmeza e direcionamento com os jovens; quando deixarmos de simplesmente cumprir tarefas como pais e professores, e nos comprometermos com eles mediante o estabelecimento de vínculos, de parcerias, de afetos. Precisamos promover a relação entre pais e professores, resgatar o respeito mútuo, reaprender a importância do papel de cada um, e ter objetivos comuns. Aos pais cabe contextualizar as medidas tomadas pelo professor, para deixar de reagir sempre, aparentemente, em defesa do filho, como se ele estivesse sendo agredido ao se deparar com limites. Ao professor cabe entender e perceber que toda criança sente quando é respeitada, ainda que isso não se expresse imediatamente por vias cognitivas. A todos nós cabe compartilhar com essa juventude nossos medos, anseios, vitórias, fracassos, sonhos, metas, ou seja, compartilhar histórias que estreitam os vínculos, situam as pessoas e criam fortes raízes.  Agindo assim, constituiremos um itinerário pedagógico mais favorável ao diálogo educativo, à verdadeira superação de conflitos e ao estabelecimento de uma sociedade digna e justa!


Colunista: Mariana Abdala Garcia

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Mariana Abdala Garcia
Colunista

Psicóloga formada pela USP de Ribeirão Preto.
Possui experiência em psicologia organizacional e clínica. Atua há 27 anos como psicoterapeuta de adolescentes e adultos, na abordagem Gestáltica, e em orientação profissional.

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