Que fatores determinam a forma como os seres humanos se relacionam? O que torna alguns contatos prazerosos e outros extremamente ruins? Por que certas pessoas estão sempre bem consigo mesmas, enquanto outras mostram-se negativas, mal-humoradas e pessimistas? Essas são algumas das intrigantes questões apresentadas pela vida. São questões complexas e de difíceis respostas. Seguramente não há uma única causa, mas sim um conjunto de fatores que determina a maneira como somos, bem como os tipos de relacionamentos que mantemos com outros seres humanos.

Um dos caminhos para refletirmos acerca dessas questões consiste em analisá-las sob o prisma dos estímulos que oferecemos e recebemos. Um ponto de partida para tanto é a tese de que a procura pelo contato social é uma necessidade psicológica de todas as pessoas. O ser humano busca ser percebido, ser visto, notado pelos outros. Nesse sentido, o psiquiatra Eric Berne denominou de carícia o reconhecimento que uma pessoa faz da presença de outra, seja por intermédio de um olhar, de um toque ou de uma palavra. As carícias podem ser positivas ou negativas. Positivas são aquelas que provocam bem-estar e aumentam a autoestima, funcionando como um prêmio ou recompensa, tais como: reconhecer um trabalho bem-feito por um aluno, dar flores para a namorada, abraçar seu filho. Carícias negativas são aquelas que causam dor ou mal-estar no outro, atingindo-o como uma punição e diminuindo sua autoestima. É o que acontece, por exemplo, quando se compara negativamente um aluno com o restante da classe, ao se criticar a roupa da namorada e na atitude de gritar com o filho.

O tipo de carícia que oferecemos e buscamos provém dos padrões familiares e sociais absorvidos na infância, quando aprendemos regras e parâmetros que influenciam nosso comportamento por toda a vida. Desde cedo internalizamos o tipo de carícias que podemos dar, receber, buscar, e, quando adultos, reproduzimos essas situações infantis em que obtínhamos reconhecimento. Segundo esse ponto de vista, uma criança que sempre seja alvo de críticas dos pais e professores, obtendo atenção dessa maneira, provavelmente, na idade adulta, reproduzirá situações passíveis de repreensão: uso de drogas, rotatividade excessiva em empregos, relacionamentos fracassados.

Quando não recebemos as carícias positivas, inconscientemente nos contentamos com as negativas, pois elas ainda são melhores que a indiferença. Preferimos o grito ao silêncio, o desprezo à indiferença, a compaixão à ignorância. O psicoterapeuta Claude Steiner elaborou as leis da abundância de carícias, indicando procedimentos adequados ao estabelecimento de relações mais saudáveis e prazerosas entre as diferentes pessoas e de cada pessoa consigo mesma. Reproduzimos, na sequência, o conteúdo de suas propostas.

1- Dê carícias positivas a si mesmo

Reconheça suas qualidades, atenda às suas necessidades com carinho e atenção. Alguém que tenha recebido muitas críticas na infância, por exemplo, pode precisar de permissão para errar e, assim, viver com menos stress.

2 -Aceite as carícias positivas

Muitas vezes, ao receber um elogio, nos envergonhamos e nos retraímos. Aprendemos desde pequenos que precisamos ser humildes, modestos e, desse modo, frequentemente nos situamos em um plano de inferioridade. É importante acatar a carícia positiva, agradecer, olhar a si mesmo pela perspectiva que, nesse caso, é oferecida pelo outro.

3 – Peça as carícias positivas de que necessita

Diga objetivamente o que quer: um abraço, a companhia de alguém, uma palavra de afeto. Para isso, é necessário que haja um grau de intimidade com o outro. As pessoas não têm o dom de adivinhar suas necessidades.

4 – Rejeite as carícias negativas que te oferecem.

Algumas pessoas têm a alta capacidade de efetuar críticas impertinentes. Nesse caso, exercite sua percepção: muitas vezes a crítica é proveniente do aprendizado do outro em distribuir carícias negativas. Por exemplo, se você fez um bom trabalho na escola e ouve de seu colega “que poderia estar melhor”, tente ignorar ou desqualificar essa observação. Pode retrucar sentenciando “eu gostei”, atitude simples e capaz de desarmar o espírito de quem faz a crítica dessa natureza.

5 – Dê carícias positivas

Expresse sua opinião positiva, sem medo da reação das pessoas, pelo prazer de mostrar algo positivo. Desenvolva relações abertas, autênticas, num clima de amizade e confiança.

A carícia é essencial para que mantenhamos a saúde física e psíquica, pois é tão necessária para a mente quanto o alimento orgânico é para o corpo. Precisamos apenas estar conscientes do nosso padrão de carícias, para que mudemos o que for necessário e, então, possamos manter relações humanas saudáveis. Não basta termos sentimentos positivos pelas pessoas; se não os expressarmos através das carícias, correremos o risco de viver num mundo estéril, vazio e frio. A humanidade pode ser mais alegre, e a vida, mais simples, se soubermos dar e receber mais carícias positivas.


Matéria por: Mariana Abdala Garcia

  • Mariana Abdala Garcia
    Mariana Abdala Garcia
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Mariana Abdala Garcia
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Psicóloga formada pela USP de Ribeirão Preto.
Possui experiência em psicologia organizacional e clínica. Atua há 27 anos como psicoterapeuta de adolescentes e adultos, na abordagem Gestáltica, e em orientação profissional.

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Ilustração de Capa: Cordeiro de Sá

  • Cordeiro de Sá
    Cordeiro de Sá
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Cordeiro de Sá
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Cordeiro de Sá (Campinas, 1972) é mestre em arquitetura e urbanismo. Já ministrou aulas em graduações e pós graduações de Arquitetura e Urbanismo, Design, Comunicação social e Marketing, em várias instituições educacionais de Ribeirão Preto e região. É ilustrador, animador e quadrinista. Coordena o selo alternativo RPHQ – Ribeirão Preto em quadrinhos, com três publicações indicadas ao mais importante prêmio nacional do gênero, o troféu HQ Mix.
Militante dos direitos humanos, foi duas vezes Conselheiro municipal dos direitos da Criança e do Adolescente e é Conselheiro municipal da Cultura, também em seu segundo mandato. Em  2005 recebeu o Prêmio PNBE de Responsabilidade Social, na categoria “a entidade educacional que queremos”, em nome do Centro Social Marista de Ribeirão Preto, que esteve sob sua  coordenação de 2002 a 2009.

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