(Carta ao meu pai)

Acontecia o festival de final de ano da Escola “Viva a Música”, de Ribeirão Preto, evento em que  os alunos de 8 a 80 anos se apresentariam em diversos números musicais.

De olho no encarte da programação, a família toda, na plateia, aguardando a décima sétima apresentação. Meu pai, que neste ano, 2017, completará 80 anos, sentaria diante de sua bateria, baquetas nas mãos e tocaria o que havia preparado para aquela audição. Expectativa.

Mesmo acometido de Alzheimer, meu pai tem conseguido manter o élan pela vida, preservando os “lugares” para os quais gosta de ir. A música, assim como a medicina, o futebol, a dança e a literatura são esses lugares sagrados que fazem algum sentido para ele e que ainda fazem os seus olhos brilharem e a vida ter grande significado.

Começa a apresentação, a ansiedade dos primeiros acordes deu lugar ao encantamento da família-ouvinte. Nos momentos iniciais de sua performance, lembrando-me da expressão “lugares para os quais gosta de ir”, volto à infância e reescuto uma de suas frases: “Filho, neste mundo precisamos ter para onde ir.” Pensei: “ ele está em um de seus lugares sagrados.”

Ao final da décima sétima apresentação, o público do anfiteatro da USP levantou-se e meu pai foi muito aplaudido. Como disse o neto João Pedro depois: “Vovô mandou bem, quebrou tudo com sua batera!”

Com os olhos marejados, abracei meu filho e pensei, “será que estou conseguindo passar para ele pelo menos um pouco da beleza que meu pai conseguiu e ainda consegue me fazer ver?!”

Em casa, ainda emocionado, pego a esferográfica e escrevo:

Bravo!!! Palmas pra você, meu papai querido!

Você que tanto me ensinou, continua nos ensinando e confirmando com atitudes o aprendizado de lições passadas.

Lembro-me de minha infância quando você nos presenteava, a mim e aos meus irmãos, com frases e aforismos de filósofos, escritores, grandes pensadores… Embora não compreendesse muito bem o seu objetivo, curtia muito e esperava ansiosamente as próximas citações para minha coleção.

Um dia – e foi esse dia que me veio à memória nos momentos iniciais dos toques da bateria — perguntei e você respondeu algo assim: “Filho, neste mundo precisamos TER PARA ONDE IR.” E eu, sem entender, retruquei: “ Uai, pai, mas nós temos…nossa casa, a fazenda do vovô, o clube de campo…”Ao que meu pai continuou: “ Não é disso que falo, estou falando de arte: música, literatura, cinema, dança, grandes pintores. André, algumas vezes esses lugares legais como a nossa casa, o clube, a fazenda não serão suficientes, e mesmo nesses lugares físicos precisaremos alçar voo, viajar também pela imaginação.” Meu pai ainda completou: “E só a arte nos permite tal voo. Aprender isso é muito importante, torna a vida  plena, além do que, se um dia tudo ruir, e, acredite, isso também faz parte da vida, você TERÁ PARA ONDE IR, escutando uma canção, lendo um livro… É no silêncio do universo interior que alcançamos esses lugares.”

Pai, um dia desses estava observando você e meu filho João Pedro, juntos. Vocês estavam na varanda, você sentado e João deitado com a cabeça sobre suas pernas. Vez ou outra você passeava suas mãos nos fios de cabelos de seu neto. Não falavam nada, ficaram um bom tempo assim, inteiros, um com o outro. Lembrei-me daquele famoso seriado de televisão dos longínquos anos 70, estrelado por David Carradine que contava sobre os ensinamentos que Mestre Po, um ancião cego, ministrava ao discípulo Monge Shaolin, a quem mestre Po apelidou de Gafanhoto. Pois bem, seu neto, o Gafanhoto, quando comentei que havia achado legal ele curtir o colo do avô, me disse: “ O silêncio do vovô é bonito.”

Pai, fiquei muito feliz em ouvir o João, pois hoje é muito difícil, digamos assim, satisfazer e apaziguar crianças. Elas andam “pilhadas”, são alvos constantes de estímulos intermináveis de consumismo e de entretenimento exacerbado. O silêncio, o “nada para fazer” são elementos necessários para a criação e a saúde psíquica. Infelizmente, estão deixando de fazer parte da infância contemporânea. Que bom ver o João aprendendo a curtir o silêncio com você. Silêncio melhor, não há. Um silêncio criador de imagens indeléveis.

Obrigado, nosso eterno mestre! E que bom te ver no palco, confirmando o que me ensinou, TENDO PRA ONDE IR, quebrando o seu silêncio bonito, em seu banquinho de baterista! Bravo!


Colunista: André Luis de Oliveira

  • André Luís Ferreira de Oliveira
    André Luís Ferreira de Oliveira
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André Luís Ferreira de Oliveira
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Psicopedagogia e Escritor (Literatura Infantil)
André nasceu em Ribeirão Preto, em 1964. Pedagogo, com especialização em psicopedagogia clínica e institucional. Iniciou em 1983, no Colégio Pequeno Príncipe( Ribeirão Preto – SP) como recreacionista. Fundou a Escola Calidoscópio, atuando durante 10 anos como diretor da Educação Infantil. Em Campinas, foi instrutor pedagógico na Fundação Síndrome de Down. Na UNIFRAN( Universidade de Franca) exerceu durante 4 anos a função de docente nos cursos de Pedagogia e Fonoaudiologia. Em 2000, retornou ao Colégio Pequeno Príncipe, onde atua como diretor, psicopedagogo, desenvolvendo projetos de jogos corporais e atividades ligadas à leitura e escrita. Ministra cursos e oficinas para professores, além de oferecer atendimento psicopedagógico clínico para crianças. É autor de A CIDADE DOS CACHORROS, BICHOS DIVERSOS, POEMINHAS RADICAIS, entre outros livros, para o público Infanto-juvenil. Criou o JOGO DA ACESSIBILIDADE – Ministério da Educação – Ministério das cidades – ABEA – MEC. André é colunista na revista “Leque” de Ribeirão Preto.

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