“Uma dúzia e meia de bichinhos”, livro que encanta as crianças e de uma maneira especial a este “velho professor”. A musicalidade dos versos, o encanto contido em cada poema tem servido como motes poderosos para motivar a meninada a abrir livros e descobrir estéticas e significados“…camuflados, camuflados, escondidos no jardim” de suas palavras. As crianças “marotas”(no melhor sentido que a palavra sugere) vão sempre em “… busca da gota açucarada no fundo cálice da flor ensolarada”que suas estrofes e versos nos ofertam.

Anos 70. Os livros abertos sobre as pesadas carteiras escolares esperavam os comandos da professora. Então, ela disse: “Rubens Mauro, leia o primeiro parágrafo. ”Neste momento, o meu coração desacelerou e respirei aliviado, pois estava sentado do lado oposto da sala e, pelo número de parágrafos contidos no texto, pude verificar que, desta feita, não participaria da leitura em voz alta. Cada criança lia um parágrafo obedecendo a sequência de fileiras de carteiras. Esse era o procedimento que sempre antecedia os exercícios de interpretação de textos. Nada contra a professora que, inclusive, era muito querida e competente. Eu é que era introvertido e sentia muita dificuldade nesses momentos de exposição perante o grupo, mesmo demonstrando uma fluência razoável na leitura. O tempo passou. Cursei Pedagogia, dirigi uma escola de Educação Infantil, especializei – me em Psicopedagogia Clínica e Institucional.

Um dos projetos que venho desenvolvendo já há alguns anos leva o nome de “Fluência e entonação na leitura”. No início de 2002, recebi a incumbência de minha coordenadora para “tomar” a leitura das crianças do segundo ano. A escola havia adotado um novo livro de poemas e as crianças seguiriam um cronograma, lendo o poema estipulado em casa para depois ler para o psicopedagogo, em algum canto da sala. Ao final de cada leitura, eu, o psicopedagogo em questão, deveria registrar o nível de fluência apresentado em cada leitura. Não tenho dúvidas quanto a importância desses registros para o acompanhamento da evolução de cada aluno e para que as intervenções psicopedagógicas aconteçam. Assim foi feito. Durante um semestre, me posicionava no canto da sala e enquanto a professora ministrava a sua aula, eu ia chamando as crianças para  dar o “veredito” da semana.

Acontece que o livro adotado, UMA DÚZIA E MEIA DE BICHINHOS, era encantador e merecia ser melhor aproveitado, ou melhor, as crianças mereciam degustar todos os saberes e sabores oferecidos pelo autor Marciano Vasques. O procedimento utilizado até então, me remeteu aos meus tempos de aluno ao que me reporto no início desse texto, quando livros “deliciosos” não eram curtidos como poderiam por conta das metodologias utilizadas. Os livros não eram os protagonistas neste processo e sim, o medo, a timidez, e até leituras fluentes, porém, vazias em significados. Livros, ao meu ver, têm de atingir a infância pela harmonia, beleza e potencialidades das palavras, pela alegria e emoção que percorre cada página, cada verso.

A bela obra de Marciano Vasques, definitivamente precisava ser trabalhada de outra forma. Pois daquela maneira, os sapos não cantariam, a abelha não faria mel, a aranha não teceria no imaginário dos pequenos. Pensando nisso desenvolvi um projeto chamado “Fluência e entonação na leitura” e incorporei ao mesmo atividades lúdicas como: Expressão Corporal, jograis, jogos de linguagem, teatro, entre outras linguagens. 2016, o projeto está completando 13 anos. Ao longo desses anos todos, uma vez por semana, em aulas de 45 minutos, me renovo e com a ajuda dos novos leitores, redescubro o livro e sua magia.


Colunista: André Luis de Oliveira

  • André Luís Ferreira de Oliveira
    André Luís Ferreira de Oliveira
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André Luís Ferreira de Oliveira
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Psicopedagogia e Escritor (Literatura Infantil)
André nasceu em Ribeirão Preto, em 1964. Pedagogo, com especialização em psicopedagogia clínica e institucional. Iniciou em 1983, no Colégio Pequeno Príncipe( Ribeirão Preto – SP) como recreacionista. Fundou a Escola Calidoscópio, atuando durante 10 anos como diretor da Educação Infantil. Em Campinas, foi instrutor pedagógico na Fundação Síndrome de Down. Na UNIFRAN( Universidade de Franca) exerceu durante 4 anos a função de docente nos cursos de Pedagogia e Fonoaudiologia. Em 2000, retornou ao Colégio Pequeno Príncipe, onde atua como diretor, psicopedagogo, desenvolvendo projetos de jogos corporais e atividades ligadas à leitura e escrita. Ministra cursos e oficinas para professores, além de oferecer atendimento psicopedagógico clínico para crianças. É autor de A CIDADE DOS CACHORROS, BICHOS DIVERSOS, POEMINHAS RADICAIS, entre outros livros, para o público Infanto-juvenil. Criou o JOGO DA ACESSIBILIDADE – Ministério da Educação – Ministério das cidades – ABEA – MEC. André é colunista na revista “Leque” de Ribeirão Preto.

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1 COMENTÁRIO

  1. Adorei o texto de André Luiz Ferreira sobra o livro do Mestre Marciano que nos deixou recentemente!
    De onde quer que esteja o Anjo Marciano estará aplaudindo as belas contidas neste relato!

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