A partir de 2016, os pais serão obrigados a matricular os filhos, a partir de 4 anos de idade completados em 31 de março, em uma escola de Educação Infantil. Até então, essa obrigatoriedade começava quando a criança completasse 6 anos. A determinação é do Ministério da Educação (MEC) e altera a Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional (versão atual sancionada em 1996). Há uma série de aspectos, que vão desde a esfera pedagógica e legal, até da própria gestão escolar, que devem ser levados em consideração para garantir que essa obrigatoriedade seja benéfica para as crianças e também viável para a escolas. Acredito que a principal delas está na necessidade de consolidar uma proposta pedagógica para a educação infantil.

Independente do modelo educacional seguido pela instituição de ensino, um bom planejamento e uma proposta pedagógica consistentes e, de preferência, construída coletivamente, podem fazer com que uma escola seja referência em seu segmento. Pode-se afirmar que a proposta é a identidade da escola, definindo as diretrizes básicas e a linha de ensino e de atuação. Além disso, envolve um compromisso entre funcionários, professores, líderes comunitários, pais e alunos em relação a um mesmo projeto educacional. Esse documento formal também permite que a comunidade escolar exerça sua autonomia financeira, administrativa e pedagógica, uma espécie de “pequena Constituição” a ser seguida.

Proposta pedagógica para educação infantil é oportunidade para reflexão coletiva

Diante disso, é importante considerar que a nova lei pode ser uma excelente oportunidade para que a escola escolha um currículo adequado e organize tempo, espaço e recursos humanos de acordo com as necessidades de ensino para os processos de aprendizagem específicos para as crianças. A elaboração de uma proposta pedagógica para educação infantil deve partir de uma reflexão coletiva, que exponha objetivos e interesses, buscando harmonizar as diferenças. Depois de definida, é importante ainda mantê-la atualizada por meio de uma revisão periódica, ou seja, identificar os aspectos que funcionam e corrigir aqueles que não se mostram valiosos para a dinâmica em sala de aula e para o desenvolvimento infantil.

Um dos temas mais polêmicos quando se trata da educação infantil é antecipação da alfabetização. Acredito que há riscos nesse processo, pois aos quatro e cinco anos, a criança tem muitas necessidades de desenvolvimento sociais, motoras e cognitivas, e pode não estar preparada para enfrentar um processo complexo como é a alfabetização. Nesta fase é muito importante proporcionar interações ludopedagógicas que visem as reais necessidades dos pequenos.

Uma criança que brinca, desenha, pinta, ouve histórias, participa de atividades de teatro e música está se preparando para esta fase, já que muitas destas atividades são precursoras da leitura e da escrita. Antecipar o processo de alfabetização, mesmo que para muitas crianças seja totalmente plausível, pode acarretar o negligenciamento de etapas importantes no desenvolvimento infantil, como coordenação motora e capacidade de raciocínio e concentração. O estimulo precoce da leitura e da escrita, quando feita sem critérios, pode fazer com que a criança tenha sofra com apatia, desinteresse, desmotivação e estresse.

O peso do lúdico na proposta pedagógica da educação infantil

Ao elaborar uma proposta pedagógica para a educação infantil, professores e gestores em educação devem priorizar atividades condizentes com a fase de desenvolvimento da criança e respeitar as necessidades dessa etapa da vida, que é, sobretudo, brincar. Um dos principais defensores deste argumento é o filósofo austríaco Rudolf Steiner, um dos introdutores da pedagogia Waldorf,  que defende que crianças com até 7 anos de idade devem se preocupar somente em brincar. As referências lúdicas na educação infantil permitem que os alunos desenvolvam habilidades cognitivas e motoras, fundamentais para o desenvolvimento sensorial e neurológico. Além disso, faz com que os pequenos confiem em seu corpo e suas potencialidades, o que é fundamental para a boa parte das atividades do dia a dia.

Sendo assim, é fundamental levar em conta a importância da criatividade e do brincar, quando o objetivo for consolidar uma proposta pedagógica para a educação infantil. Pois, é nesse contexto, por meio de intensa estimulação, que se desperta o processo de ensino-aprendizagem infantil e o desejo pelo conhecimento. Desse modo, a nova lei deve ser vista como oportunidade para gestores em educação e professores inovar em sala de aula, e também oportunidade de reflexão para os pais que buscam uma instituição de ensino para matricular os filhos.

 


Colunista: Cristiano Sieves

  • Cristiano Sieves
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Cristiano Sieves
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Especialista em ludopedagogia da Playmove, com mais de sete anos de experiência em projetos educacionais. Acredito que o lúdico é fundamental para tornar a vida escolar mais prazerosa e assim, mais eficaz.
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