Em um momento tão refrigerado por aparelhos de ar condicionado, umidificadores de ambiente e ventiladores dos mais diversos tipos e tamanhos, chega a parecer estranha a idéia de se presentear alguém com um leque.

Não pretendo recriar o charmoso e antigo hábito, mesmo porque não estou me referindo a leques de seda ou madeirinhas, levemente adornados com singelas imagens de flores ou pássaros, mas sem dúvida gostaria de abordar a respeito da necessidade humana de “sentir e assimilar novos ventos”. Abruptamente essa questão me veio ao ouvir, de diferentes pais e mães, uma contínua indagação sobre o que fazer para evitar que seus filhos, das mais diversas faixas de idade, venham a se tornar escravos dessa ou daquela droga.

Sobre drogas muita coisa já foi escrita, mas, apesar de não me considerar uma sumidade a respeito do assunto, acredito estar certo ao abordar duas verdades que não devem ser esquecidas:

– drogarias vendem elixires para dores (um verdadeiro paraíso) e,

– o aumento do comércio de drogas está diretamente ligado à “dor resultante do vazio”, que assustadoramente cresce em nossa população, e não ao aumento do número de traficantes. Todo vazio pede um preenchimento.

Em certas situações, quando diante de uma dor de cabeça, muscular, azia ou gastrite, vem aquele “santo remédio” e nos devolve a normalidade, chegamos a acreditar que nunca mais poderemos viver sem ele. Ele é o algo de fora, que resolve o algo de dentro.

Alívio para a dor.

Quando a alma dói, via de regra por estarmos nos afastando da essência humana de aprender, apreender e intervir no mundo em que estamos, certas drogas (entre elas as ilícitas) sempre aparecem para compensar essa falta das próprias pernas ou a saudade de si mesmo.

Se só acredito em mim a partir do trabalho, família, status, dinheiro, ou seja, lá o que for, vivo à beira de um abismo. Toda pessoa que só se reconhece competente a partir de uma, ou poucas características, caso ocorra algum fracasso nesse âmbito, passa a desacreditar que pode se levantar por outros caminhos. Em outras palavras, só vislumbramos um “mundinho”, onde nos sentimos um poderoso rei dependente da permanência de uma normalidade.

Para que crianças, jovens e, porque não incluir, adultos não venham a precisar de drogas (felicidades externas ao corpo), a solução está em presentear (proporcionando e estimulando) essas pessoas com belos e grandes leques. Leques abertos escancaram veias que unidas são capazes de arrastar o ar, nos propiciando o frescor e o encorajamento.

Se alguma coisa dá errado, com certeza, existem outras que sou capaz de buscar. Cada frustração precisa ser encarada como aprendizagem e saudável desafio para o viver, e viver com dignidade.

Quanto a como proteger nossos filhos do risco de se transformarem em escravos das tais drogas, que tal nos doar como exemplos de pessoas que se arriscam em diferentes fontes de prazer ou função para o auto-conhecimento?

Cada indivíduo precisa reconhecer-se em funções.

Esporte, música, teatro, artes plásticas, estudos formais e informais, religião, diálogos e diálogos.

Quanto mais se abre o meu leque de possibilidades, na relação com o mundo, mais serei capaz de satisfazer-me das drogas (felicidade interna da alma), que por mais que alguns duvidem, já vem inserida em nosso kit de seres humanos.

Que tal dar uma espanada e tirar a poeira de seu leque? Talvez ele possa estar escondido no fundo de alguma gaveta…


Colunista: Guilherme Davoli

  • Guilherme Davoli
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Guilherme Davoli
Colunista

Psicólogo atuante como psicoterapeuta, professor de psicologia, consultor empresarial e educacional. Autor dos livros:
“Admirando a tempestade e brincando com o vento”
“Vítimas e aprendizes da própria história”
“Somos mais que um simples espetáculo” “Colecionadores de histórias”
Articulista das revistas: “Evidência”, “Profissão Mestre”, “Conectado”, “Ultimato online”, SME-Sistema Mackenzie de Ensino” e do jornal “The Brasilians” (New York). Palestras, cursos e oficinas em empresas, órgãos públicos e instituições de ensino, desenvolvendo temas pertinentes à educação, relacionamento interpessoal e qualidade de vida.

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