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Vivemos em um momento de tanta velocidade das informações e mudanças, que muitas vezes passamos a acreditar que regras básicas de convivência, como dialogar para abrir nosso leque de temas, assuntos e visão de mundo, não cabem mais.

Enjaulados nessa correria é comum que, de uma hora para outra, fiquemos assombrados por alguma novidade capaz de nos tirar o sono, muito especialmente quando fazemos parte daqueles que transitam diariamente pelas relações humanas e a educação.

Nesse contexto, podemos dizer que a informação mais avassaladora do momento seja o “Desafio da Baleia Azul”; jogo que estaria envolvendo crianças e jovens em uma sequência de tarefas “macabras” com a indução ao ato do suicídio em seu desfecho.

Aparentemente a história tem seu início em 2015 na Rússia com o suicídio de uma menina que habitualmente visitava e compartilhava páginas sobre depressão, o que despertou o interesse na realização de diferentes pesquisas que levaram a descoberta do referido “Desafio”, bem como outras páginas de incentivo ao suicídio e/ou automutilação.

Essas informações podem parecer extremamente significativas do ponto de vista de nossa curiosidade e espanto, mas não podemos deixar que as mesmas (acrescidas de uma chuva de novos dados, comentários e até mesmo brincadeiras que as redes sociais andam espalhando), venham a nos desviar do centro da questão, pois o problema não está na existência de um jogo, droga ou mesmo o uso indiscriminado da internet (tão fundamental aos nossos dias), pois nosso foco precisa se voltar para o entendimento do porque muitas pessoas (e não apenas os mais jovens) se tornam dependentes tão fáceis desse tipo de estímulo ou indução externa.

Que sofrimentos atuais não existiam ou ao menos não eram tão carrascos quanto são nos dias de hoje?

Observe que entre 2002 e 2014 subiu em terríveis 10% a taxa de suicídio na população de 15 a 29 anos, no Brasil, o que nos torna hoje o 8° país com o maior índice de suicídios no mundo. Percebam que, nesse aspecto, a onda atual do Desafio da Baleia Azul, infelizmente é apenas mais um gatilho disponível e reluzente aos olhos daqueles que não conseguem encontrar sentido em suas existências, o que via de regra está ligado a uma “forma (distorcida ou patológica) de interpretação” e não necessariamente a existência de um grave problema pessoal ou social.

O desejo do suicídio na maioria das vezes não significa querer morrer e sim querer que algo ruim morra dentro de si. Desejar que todos os fantasmas e incertezas desapareçam. Algo muito mais próximo a uma doença daquele que vive a sensação de inutilidade, dentro de um mundo que cobra a perfeição, do que de um membro de clube ou seita de “desistente da vida”.

Precisando pensar as pessoas e não as aberrações por elas praticadas eventualmente, é necessário que tanto os educadores como os demais funcionários de instituições de ensino observem e passem a ter algumas atitudes objetivas (visto que o ambiente escolar funciona como um laboratório das expressões psicossociais):

1 – Identificando alunos que precisam de ajuda socioemocional.

Apesar da escola não poder ser confundida como uma clínica, a exemplo daquilo que vem ocorrendo em outras instituições empresariais, a preservação de um ambiente emocionalmente saudável viabiliza melhora dos resultados e gera uma condição de interpretação mais lúcida em cada membro.

O aluno que se sente aceito e engajado em projetos, sempre tem maiores possibilidades de superar seus momentos de insegurança.

2 – Não aceitando brincadeiras a respeito de temas geradores de sofrimento.  

Da mesma forma como temos assistido a importância da quebra de paradigmas com relação aos preconceitos de racismo e atitude sexual, o sofrimento de uma criança, jovem ou mesmo adulto não pode ser mensurado e por isso mesmo precisa ser respeitado em suas peculiaridades.

Importante não ridicularizarmos e, se necessário buscar minimizar comentários de outras pessoas que usam expressões como: “- Isso é coisa de quem não tem nada para fazer”, “- Frescura de adolescente ou criança mimada”, “- Coisa de doente mental” ou “- Pare de pensar e fazer bobagem”.

Nunca podemos acusar alguém, que já se discrimina como estranho, sempre errado ou infantil, pois quanto maior a crítica maior a possibilidade de esse vir a se fechar, buscando outras compensações para sua solidão ou fracasso.

A complexidade da linguagem (inclusive infantil) vem crescendo e consequentemente é cada dia mais difícil termos uma análise simples da importância do discurso de cada um. A mera expressão “- Eu sinto uma dor…”, pode variar muito de intensidade, trazendo consigo um número gigantesco de marcas do passado.

Se olharmos a tristeza de uma criança apenas por aquilo que imaginamos ser seu problema atual podemos estar ignorando-a, apesar de nosso esforço e sensação de dever cumprido.  

3 – Observando e aproximando-se dos mais isolados.

Com certeza existem pessoas silenciosas pelo equilíbrio que desfrutam, mas note que tem aumentado muito o número de jovens que se fecham por se considerarem “menos” ou até desprezados, mesmo em momentos que estão recebendo apoio e incentivo quer de colegas, professores e pais. Fenômeno nitidamente decorrente das exigências de sucesso, impostas por nossa atual sociedade.

Em caso de dificuldade na realização dessa aproximação e troca de ideias, em virtude do excesso de timidez do aluno, o ideal é buscar algum colega ou até mesmo funcionário “melhor aceito” por ele, para servir de referência durante essa aproximação.

OBS: Nesse aspecto é importante salientar a existência de alguns casos bastante específicos que precisam ser tratados em separado, em razão de outras complicações psíquicas agudas, que sugerem a busca de um contato da escola e da família com os profissionais responsáveis pelo acompanhamento do aluno.

4 – Criando canais socioemocionais de ajuda.

Além de viabilizarmos o debate da questão específica (por exemplo do Desafio da Baleia Azul ou outros modismos), é necessário que canais permaneçam abertos, através de trabalhos em grupo, debate de notícias, séries, jogos e mesmo colocações de alguns “youtubers de plantão”, pois a exemplo de alguns personagens de TV, em décadas passadas, eles estão entre os maiores formadores de opinião do momento, não sendo recomendável que educadores venham a ignorá-los ou criticá-los sem o conhecimento de seus conteúdos e da importância dada por seus seguidores.

Os alunos precisam sentir e se comportarem como membros colaboradores das questões psicossociais que ocorrem na escola, inclusive informando quando perceberem que algum colega não está bem ou, pensando no “Desafio”, apresentando sinais de sofrimento ou até mutilação, entendendo que isso não significa “dedar o colega”, mas sim cuidar de toda a sua comunidade. 

O debate a respeito dos valores humanos precisa estar sempre aberto, pois são complementos e não contraposições à educação formal.

5 – Aumentando a aproximação escola-família.

Por uma série de motivos já muito alardeados anteriormente, observamos o crescimento da distância afetiva dentro de grande parte das famílias ocorrendo em paralelo ao fato, também discutido há décadas, de que não cabe ás escolas substituir esses pais, em uma espécie de terceirização do afeto, porém chegamos em um momento tão confuso em nossas relações (com as virtuais muitas vezes falando mais alto que as físicas), em que educadores e demais membros do ambiente escolar, até mesmo por seus conhecimentos, habilidades e percepções aguçadas, precisam se posicionar sem receios, alertando essas famílias do quanto que questões relativas a amor, carinho, companheirismo e diálogo contínuo não fazem parte de livros de poesia e sim de saúde mental e física.

Porém, se por um lado os corredores das escolas são excelentes espaços para a aproximação calorosa de docentes e seus alunos, por outro, a conversa com esses pais (especialmente daqueles alunos que pressentimos riscos emocionais maiores) precisam ser técnicas e consistentes com tempo para a troca de ideias e, sempre que possível, com a presença de todos os responsáveis.

Não nos bastemos apenas em comentários de horário de entrada ou saída escolar, do tipo: “- Precisamos prestar mais atenção em…”.

Já que o Desafio da Baleia Azul, certamente passará e acredito que em tempo bastante curto, o que preocupa passa a ser se nossos jovens e até nós mesmos estaremos preparados para o próximo convite a fuga de nossas dores.

Triste, mas parece que quanto mais se sofisticam nossas tecnologias, parece que mais se fragilizam nossas emoções, o que deve nos levar cada dia mais ao exercício pessoal e profissional de atos de companheirismo.

“Companheiro: aquele que come o pão junto”.

Atente-se a essa interessante lenda de autor desconhecido.

“Era uma vez um povo sedento por informação.

As pessoas eram curiosas e adoravam falar umas sobre as outras.

Certo dia surgiu um ser muito poderoso, que sabia de todas as coisas, estava em todos os lugares, e dava todas as respostas.

A única coisa que ele pedia em troca era dedicação total.

A empolgação foi geral e todo mundo se tornou discípulo e seguidor, continuamente entregando ofertas de tempo e atenção.

Até que um dia chegou a mensagem terrível: o tempo gasto com o oráculo seria descontado da vida das crianças.

As pessoas entraram em pânico, mas era tarde demais. Pois enquanto os adultos deixavam de dar atenção aos filhos, dedicando-se ao oráculo, as próprias crianças e adolescentes haviam se tornado devotos, e agora voluntariamente se entregariam em sacrifício.

A única solução foi os pais voltarem a dedicar mais tempo para seus filhos, livrando-os de tão trágico destino. ”

 


Colunista: Guilherme Davoli
www.guilhermedavoli.com.br

  • Guilherme Davoli
    Guilherme Davoli
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Guilherme Davoli
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Psicólogo atuante como psicoterapeuta, professor de psicologia, consultor empresarial e educacional. Autor dos livros:
“Admirando a tempestade e brincando com o vento”
“Vítimas e aprendizes da própria história”
“Somos mais que um simples espetáculo” “Colecionadores de histórias”
Articulista das revistas: “Evidência”, “Profissão Mestre”, “Conectado”, “Ultimato online”, SME-Sistema Mackenzie de Ensino” e do jornal “The Brasilians” (New York). Palestras, cursos e oficinas em empresas, órgãos públicos e instituições de ensino, desenvolvendo temas pertinentes à educação, relacionamento interpessoal e qualidade de vida.

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