Recentemente dois grandes eventos em escolas tomaram uma proporção exorbitante nas redes sociais: uma escola da grande São Paulo que começou a oferecer serviços que normalmente não são praticados. Foi chamada de “escola que faz tudo para os pais”. Os serviços oferecidos vão desde lavar uniformes até mesmo refeições, inclusive para o final de semana. Alunos que ficam das 8h às 20h. O outro caso foi do chamado “trote”, fenômeno que acontece com as turmas de 3ª série de Ensino Médio. Os alunos normalmente escolhem temas e em um determinado dia da semana vão fantasiados. É uma grande brincadeira que marca o encerramento de um ciclo.

O que os dois casos têm em comum? Para mim o julgamento precipitado e equivocado de muitos. No primeiro caso, temos um colégio particular que ofereceu serviços que foram demandados e adquiridos pelas famílias. No mundo competitivo em que estamos inseridos, a escola nada mais fez do que oferecer o que as outras não oferecem. Perceberam demandas diferentes das famílias que não têm mais o perfil de 10 ou 20 anos atrás. Esta escola se mostrou inovadora sob o ponto de vista da prestação de serviços. Ampliou sua oferta e encontrou ressonância nos pais. Aí me pergunto: o que tem de errado nisto? Afinal as famílias já compram comida congelada, terceirizam a lavagem das roupas, buscam comodidades que não existiam. No contexto em que vivemos, podemos comprar os serviços que desejarmos e podemos pagar. O que se colocou em destaque é se a escola não estaria fugindo de sua atividade principal que é educação. Insisto que, na lógica e no contexto em que vivemos trata-se apenas da oferta de serviços diferenciados. Fazendo uma comparação muito simples, podemos ver que, em um posto de combustível podemos adquirir produtos e serviços que vão muito além de abastecimento. E me pergunto, por que a escola não pode inovar neste sentido também? Estas ofertas em momento algum diminuem ou reduzem a qualidade pedagógica da escola.

No segundo caso, uma brincadeira que se tornou um pesadelo para a escola. Os alunos criaram o tema “e se nada der certo” e apareceram “fantasiados” de funcionários de lanchonetes de fast foods, garis, pedreiros e outras profissões consideradas inferiores. A própria escola emitiu uma nota destacando o equívoco da “brincadeira”. Mais uma vez o colégio foi duramente criticado. Neste caso, a meu ver, temos sim uma questão pedagógica envolvida. Trata-se da discussão de valores, da falta de respeito com profissionais de áreas técnicas ou braçais. Porem não podemos analisar nada sem o contexto. Os alunos em questão estão em um universo em que são preparados de forma muito direta e árdua para prestar os principais vestibulares do país. Não dar certo significa fracassar em seu propósito, ou seja, não ser aprovado. Significa o fracasso, a derrota e a consequente necessidade de mais um ano nos cursos preparatórios para vestibular. Neste caso, entendo que o erro não esta na escola em si, mas na própria sociedade, afinal a escola é reflexo da sociedade e não a sociedade que é reflexo da escola. Os valores são determinados na forma como esses jovens foram criados pelas famílias. Claro que tudo poderia ter sido evitado se a questão fosse colocada em pauta em uma discussão com os alunos e com as famílias. A meu ver cabe a escola a preservação do espaço da discussão. Poderia ter sido um momento de reflexão sobre o outro que não fez faculdade por opção ou por falta de oportunidade.

Esses dois casos me levaram a refletir o quanto precisamos preservar os espaços de discussão nas escolas. Para mim a escola não pode ser um espaço da exclusão, mas deve ser o ambiente da inclusão. A escola é o espaço de todos os partidos, de todas as religiões, de todas as crenças, de todas as orientações sexuais. A escola é o espaço da convivência saudável com o outro, com o diferente. O pré-julgamento sempre levará a análises superficiais e muitas vezes equivocadas.

 


Colunista: Rodrigo Pires de Morais

  • Rodrigo Pires de Morais
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Rodrigo Pires de Morais
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Área de Atuação: Gestão Escolar
Coordenador do Curso de MBA em Gestão de Escolas (Instituto Brasileiro de Formação de Educadores – IBFE Campinas), Gestor Escolar, MBA em Gestão Empresarial pela FGV. Graduado em Química pela USP/RP. Experiência de 22 anos na área de educação, atuando como Diretor Escolar (Anglo/Campinas e SEBCOC/Ribeirão Preto), Coordenador de Curso de EAD (Estácio/UniSEB), professor de Pós Graduação (FGV-Pós em Administração), Graduação (UniSEB-Licenciatura em Química), Ensino Médio e Pré-Vestibular. Consultor Pedagógico em Projetos Educacionais. Implantação e gerenciamento do curso de High School do Grupo SEB. Palestrante e Conferencista.
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