Fui chamada às pressas na escola do meu filho caçula.

Ele havia tido um surto nervoso, estava agressivo e chorava muito.

Cheguei a escola atônita.

_Filho, o que houve?

_O menino da minha sala disse que eu era gay.

_Primeiro meu amor, isso não deve te ofender…

Até quando vocês ensinarão os seus filhos a usarem termos referentes a sexualidade do outro como forma de ofensa? Estão ensinando a serem preconceituosos, por favor pensem nisso… Crianças não são cruéis, e não aprendem isso sem que alguém ensine.

Alguns anos atrás tive o mesmo problema com minha filha mais velha. A coleguinha a rotulou como homossexual porque aos 13 anos ainda não tinha ficado com a metade da escola.

Oi?!

Mas voltemos ao nosso caso em questão.

_Daí ele pegou minha mochila e correu.

(A diretora disse que a professora da aula relatou que ele tentou furar o colega com um compasso e depois ameaçou se furar).

_Filho, porque você não chamou a professora?

_Eu chamei.

_E porque você não disse nada depois?

_Fiquei com medo deles fazerem pior.

Então entrou na sala a professora, extremamente antipedagógica (me julguem). Ela dizia que meu filho estava exagerando, que os alunos eram todos ótimos e que ele é quem estava deixando a desejar.

Qual a razão para o “deixando a desejar”, queridos amigos que me leem?

Resposta:

_A letra dele é muito feia!!!!

Se já não bastasse dizer isso, na frente dele, acrescentou que se ele tem nota nas outras matérias, é porque os professores devem ficar com pena e dão nota. Pois ela dúvida que eles entendam a letra do meu filho. Ainda criticou o movimento que ele usa para desenhar a letra e quando perguntei se ele poderia usar a letra de forma, me respondeu que não era possível. Afirmou que já havia mandado tarefa de caligrafia, mas como ele não entregou ela não iria mais ajudá-lo. Mandou que eu o fizesse.

Claro que eu vou ajudá-lo, assim como já o faço. Porem eu não vivo só para eles, tenho três filhos, trabalho e estudo, respondi.

Com um desdém desnecessário, ela simplesmente me olhou e desviou o olhar novamente.
(Dias depois, chamou meu filho e questionou o que eu estudava, não sei se por curiosidade, receio de que eu saiba algo que ela não saiba, preconceito… mil possibilidades, eu só sei que ela perguntou).

Meu filho estava sofrendo bullying dos coleguinhas. Meu filho estava sofrendo bullying da professora. Meu filho estava sofrendo.

_ Mamys eu não queria que você tivesse vindo.

_Por que meu amor?

_Você já tem tantos problemas.

(Segurei o choro e a raiva de mim mesma por deixar que ele se preocupasse comigo).

_Meu amor, meus problemas perdem a importância quando vocês tem um problema.

_Eu só queria ser um bom aluno como você.

(Caraleo, pensei).

_Eu nunca fui boa aluna, só o suficiente para passar de ano.

_Sério?

_Sim, meu amor!

Neste momento, o rostinho dele se abriu e pude perceber que ele se sentia mais confiante novamente.

Quanto a professora, pobre dela, chegando em casa usamos a terapia do muito, que nos mesmos inventamos. A ideia consiste em dizer quantos muitos conseguirmos antes da palavra chata…

Me julguem, mas funciona, e nossa relação fica mais próxima.

 


Colunista: Sheila Ozsvath

  • Sheila Rodrigues Motta
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Quem sou eu? Essa é uma questão que busco a muito tempo responder. E nessa busca nascida em Sampa em 1980 mudei-me para Ribeirão Preto em 2003. Tornei-me mãe, cursei técnico em Rádio Locução (Senac), Bacharelado em comunicação social – habilitação em publicidade e propaganda (Uniseb) e pós em Gestão de Marcas e Marketing (Uniara). Sou uma apaixonada pela cultura em suas diversas formas de expressão e origem. Amo escrever, mas não sei se sei fazer isso direito. Como diz um amigo tenho opinião pra tudo.  Adoro um desafio, uma novidade, uma competição. Por hoje essa sou eu, amanhã não sei.
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