O Momento da Difícil Escolha Profissional por Mariana Abdala Garcia
A adolescência é a fase do desenvolvimento humano que caracteriza-se pelas mudanças mais radicais e complexas, tanto físicas quanto psíquicas, fisiológicas e sociais. Deparam-se os jovens com uma série de transformações corporais às quais precisam se adaptar e com um turbilhão de sentimentos que precisam conciliar e organizar. Simultaneamente, a iminência da passagem para a vida adulta impõe a necessidade de uma definição profissional que, teoricamente, determinará os rumos de toda a sua vida. Essa escolha, por sua vez, torna-se a cada dia mais difícil, por vários fatores: mudanças contínuas e rápidas na sociedade, expectativas familiares, desconhecimento de si mesmo, falta de informação e, principalmente, a multiplicidade de profissões existentes no mundo contemporâneo.

A CBO (Classificação Brasileira de Ocupações) reconhece hoje 2169 ocupações do mercado de trabalho, universo amplo o suficiente para dificultar a tomada de decisão. Nesse contexto, no qual a pressão por uma definição profissional torna-se mais intensa, observam-se fenômenos preocupantes. Muitos jovens escolhem aleatoriamente seus cursos universitários, o que gera uma evasão escolar cada vez maior e, consequentemente, angústia e sensação de fracasso. Pode-se notar isso claramente através do Enem, forma de avaliação que permite ao vestibulando visualizar com razoável precisão em quais faculdades passaria com os pontos obtidos. Dessa forma, muitos deles têm optado por cursos em que ingressariam mais facilmente, para tentar colocar fim ao stress dos vestibulares disputadíssimos e às angústias da indefinição.


“…muitos deles têm optado por cursos em que ingressariam mais facilmente, para tentar colocar fim ao stress dos vestibulares disputadíssimos e às angústias da indefinição.”

Observa-se também, com considerável frequência, uma postura inadequada por parte dos pais: tentam impor a ideia de um curso para seus filhos ou transferem para as escolas a responsabilidade de ajudá-los a escolher. Ambas atitudes contribuem para que os jovens sintam-se inseguros. Cabe aos pais ajudá-los no processo de decisão, mediante a busca conjunta de informações, o esclarecimento de dúvidas, a permanente abertura para diálogos e muita serenidade. A definição, sem dúvida, é importante, e precisamente por isso não deve ser precipitada: é melhor decidir com mais convicção do que alternar entre faculdades, colecionando sensações de fracasso.

Sugerem-se alguns passos que podem ser desenvolvidos em conjunto por pais e filhos, para facilitar essa escolha. Trata-se de listar características internas e externas, considerando os seguintes fatores:

. Habilidades. Englobam a capacidade e a facilidade de desenvolver determinados tipos de tarefas. É importante determinar quais são as habilidades que se destacam nas áreas cognitiva, psicomotora, artística e social. A área cognitiva diz respeito a características intelectuais, como o raciocínio lógico, a memória, o domínio de línguas, a realização de cálculos e a compreensão verbal. A área psicomotora envolve agilidade de movimentos, destreza para movimentos finos, coordenação corporal, coordenação motora e resistência física. A área artística concerne à sensibilidade para perceber e desenvolver aspectos ligados às artes, como desenho, pintura música, ou seja, ao campo estético em geral. E, por fim, a área social abrange facilidade de relacionamentos, o que implica saber ouvir, compreender pontos de vista diferentes, ser flexível e ter fluência verbal. Como ilustração, pode-se citar um jovem que demonstre mais facilidade com cálculos, raciocínio mecânico, lógica. Nesse caso, é possível que se verifique uma tendência para as ciências exatas.

. Interesses. É essencial definir quais são suas preferências, aquilo que se gosta de fazer, pois este talvez seja o fator mais importante para a escolha profissional. Algumas habilidades podem ser desenvolvidas, como, por exemplo, a fluência verbal, se o interesse por letras ou pedagogia, que requerem essa facilidade, for grande.  O jovem pode identificar e definir suas áreas de interesse por meio das atividades escolares, dos hobbies, das relações com as pessoas. É importante saber se prefere trabalhar em ambientes fechados ou abertos, com planejamento ou execução, em contato mais ou menos direto com o público, com muita ou pouca leitura. Pode-se ter muita habilidade em uma área e, ao mesmo tempo, demonstrar total falta de interesse por ela.

. Características pessoais. Momento de olhar para si mesmo e fazer uma autocrítica, a fim de definir um perfil pessoal, lembrando sempre que nada é imutável. Trata-se de uma leitura atual. Deve-se verificar o próprio grau de introversão ou extroversão, de atividade ou passividade, de dinamismo, de sensibilidade e de sociabilidade, dentre outros aspectos. Uma pessoa, por exemplo, que tenha muita necessidade de se comunicar poderá ter dificuldades em se adaptar a uma profissão que requer predominantemente planejamento, como é o caso, digamos, da engenharia. Entretanto, pode-se optar por esse curso e direcionar sua atuação para gestão de pessoas, vendas de projetos, trabalho em equipe.

. Viabilidade. Torna-se essencial definir alguns itens, como possibilidade de morar em outra cidade, valor disponível pela família para gastar com o jovem ou para pagar curso pré-vestibular. Há cursos mais dispendiosos, em que são necessários em média dois anos extras de estudo para que se passe num vestibular, em virtude do grau de dificuldade e da concorrência. O sonho de estudar em uma faculdade muito distante, sem que existam condições financeiras para isso, não precisa ser descartado. Pode ser adiado para um momento em que os recursos sejam maiores, até como uma segunda faculdade.

Examinados articuladamente todos esses dados, o passo seguinte consiste em descartar cursos que não estejam de acordo com os parâmetros levantados e definir uma área de maior probabilidade de sucesso. Na sequência, é essencial que se busque o mínimo de informações sobre os cursos de interesse, mediante leitura e conversas com profissionais da área. É importante para o jovem saber se a carreira adapta-se ao seu estilo de vida, como está o mercado de trabalho, quais são as condições de remuneração e quais são os campos de atuação. Alguém que opte pelo estudo do direito com o propósito de escapar da matemática precisa saber que esta será uma das matérias estudadas, já que um advogado tributarista, por exemplo, lida constantemente com cálculos.  Uma decisão baseada em informações criteriosas certamente trará mais conforto e segurança para o adolescente e a família.

A tarefa da escolha profissional não deve se tornar um processo solitário e pesado para os jovens, mas sim um momento de aproximação familiar e postura positiva, em que eles traçam seus projetos de vida, conscientes de que estes podem se modificar ao longo dos anos. O importante é buscar conciliar seu futuro exercício profissional com seus sonhos, habilidade e expectativas.
É possível, dessa forma, encontrar prazer no trabalho!


Matéria por: Mariana Abdala Garcia

  • Mariana Abdala Garcia
    Mariana Abdala Garcia
    Colunista
Mariana Abdala Garcia
Colunista

Psicóloga formada pela USP de Ribeirão Preto.
Possui experiência em psicologia organizacional e clínica. Atua há 27 anos como psicoterapeuta de adolescentes e adultos, na abordagem Gestáltica, e em orientação profissional.

E-mail
Clique aqui para acessar todos os textos da colunista


DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here