Há certa diferença entre a mentira propriamente dita (aquela que a criança tem consciência de que o que diz não é verdade, mas o faz para se livrar de uma situação de castigo ou bronca ou então para conseguir algo) e a fantasia (que é a que a criança diz e não tem plena consciência de que o fato não é real).

Desde bem novas as crianças já são capazes de fantasiar, inventando situações que lhe parecem mesmo reais. Por isso muitos pais sentem dificuldades em estabelecer limites para crianças muito pequenas, já que a partir de cerca dos 2 anos de idade já é possível identificar este comportamento e nem sempre é fácil interpretá-lo como fantasia ou uma mentira consciente dos pequenos.

Muitos pais tem dúvidas também se a criança, mesmo tão nova, seria capaz de compreender a correção dessas fantasias/mentiras. Mas é importante saber que, independente do motivo que tenha levado a criança a mentir (seja uma fantasia criada por ela ou uma mentira para se livrar de uma situação) é perfeitamente possível que os pais estabeleçam limites e expliquem a diferença entre a fantasia e a realidade. É importante que desde cedo a criança compreenda as consequências de suas atitudes e aprenda a se responsabilizar por elas. Na prática: Se a criança quebrou um brinquedo e, quando questionada, nega que tenha sido ela, é preciso explicar a consequência do ato em si (o brinquedo ficará quebrado e ela não poderá brincar com ele) e também da mentira (“quando ela mente, o papai fica triste” por exemplo, ou “quando ela diz que não foi ela, alguém pode acabar levando a culpa e isso não é legal”, etc).

É claro que quando a criança é mais velha e passa a ter maior noção do que é certo ou errado – a partir dos 6 anos de idade mais ou menos – a mentira ocorre muito mais de forma a se livrar de situações ou para obter algum benefício do que por fantasia. Ela compreende mais claramente também as explicações e consequências daquilo que ela fez (desde que sejam claros). Então é preciso explicar sempre a ela o porquê de aquele comportamento de mentir é errado e como ele afeta os outros, além disso, ela precisa perceber os prejuízos que decorreram de sua mentira para si mesma, para que entenda que, de fato, mentir é algo ruim.

Se a criança apresenta um comportamento constante de mentir, é preciso analisar com maior cuidado e, neste caso, o auxílio de um psicólogo é válido. E é claro que é preciso que haja coerência na hora de corrigir este comportamento na criança pois se ela presencia a mentira dos adultos com quem convive, é muito confuso entender que a mentira realmente seja algo ruim e que ela não possa fazer.

É preciso levar em consideração que nós, adultos, também cometemos estes erros e que exagerar na punição à criança não é algo positivo, pelo contrário. Então evite dizer coisas como: “nunca mais vou confiar em você”, “você é um mentiroso”, etc. São frases que podem fazer com que a criança acredite que ela seja uma pessoa ruim e não alguém que teve uma atitude errada e que pode consertá-la. Apesar de ser necessária a correção para que a mentira não “passe em branco”, é preciso dar a chance de a criança mudar o seu comportamento, preservando a sua autoconfiança e autoestima. Então, conversar abertamente para compreender os motivos que levaram a criança a mentir é, antes de tudo, a melhor forma de frear este comportamento. Assim, os adultos podem mostrar a ela melhores formas de lidar com determinada situação do que contando uma mentira.

Colunista: Ane Caroline Janiro

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Ane Caroline Janiro
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Psicologia
Ane Caroline Janiro (CRP 06/119556) é Bacharel em Psicologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo. Tem experiência na área de Recursos Humanos (Recrutamento e Seleção) com atuação em consultorias e processos seletivos de alto volume.
Atualmente tem foco na área Clínica e realiza atendimentos na abordagem Cognitiva-Comportamental.
É idealizadora do Projeto “Psicologia Acessível”, que tem como objetivo de tornar as práticas em Psicologia mais próximas ao cotidiano de todas as pessoas e evidenciar a sua importância em diferentes áreas do nosso cotidiano. Assim, este projeto busca contribuir para a promoção de saúde e o bem-estar, priorizando ainda práticas inclusivas e a valorização da profissão de Psicólogo.
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