Crianças sentem necessidade de queimar suas energias em lugares abertos, nas praças ou ruas, prática que está cada dia mais difícil, dada a uma série de circunstâncias que vão da falta de tempo dos pais em estar junto a elas enquanto brincam, passando pelos interesses muitas vezes conflitantes entre os pais e seus filhos, tais como o jornal televisivo, o capítulo da novela, o jogo de seu time preferido ou a reunião com os amigos para o futebol ou qualquer atividade mais urgente do que simplesmente ficar olhando os filhos brincar, isso sem contar com o problema da violência, cada dia mais escancarado e de solução cada vez mais complexa.

Mas houve um tempo, não querendo parecer saudosista, mas já o sendo, que as coisas não eram assim. Houve um tempo, não muito distante, em que as crianças podiam brincar livremente nas calçadas de suas casas, mesmo durante a noite, sem os perigos do trânsito cada vez mais desenfreado ou dos sequestros, assaltos ou balas perdidas. Brincavam enquanto os adultos colocavam suas cadeiras para fora de suas casas para conversar com os vizinhos, noite adentro.

Lembro-me que logo depois do jantar, ao cair da noite, lá estávamos nós, correndo, sorrindo, gritando, esbanjando alegria nas noites de calor. Formávamos os grupinhos naturalmente e íamos nos divertir com os mais diversos folguedos: pique-esconde, balança-caixão, garrafão, passa-anel, pique-pega e muitas outras brincadeiras.

De todas elas, uma era bem peculiar. Tratava-se da brincadeira de “mamãe da rua” ou “dono da rua”. Essa brincadeira era assim: ficávamos em um lado da calçada, enquanto alguém ficava no meio da rua; tínhamos que atravessar a rua pulando em uma perna só, sem que aquele que estivesse no meio dela pudesse nos tocar. Quando tocava em alguém, ele ia imediatamente para a calçada e o que havia sido tocado então ficava no meio da rua para pegar os que se atrevessem a atravessá-la. Era ao mesmo tempo um castigo e um privilégio. Ser “mamãe da rua” era deter o poder de vigiar e punir os que o afrontassem.

Muitas vezes tenho visto pessoas se portarem como “mamães da rua”, pela vida afora. Basta uma oportunidade para que se coloque no papel de detentor do poder. Ordena, vigia e pune, sobretudo nas escolas. Tenho visto muitos colegas usando de sua cátedra para se prevalecer sobre seus alunos ou sobre seus pares, quando assumem algum cargo na escola. Preocupados muito mais no exercício do poder pelo poder, não atentam para os que estão nas calçadas da ignorância à espera do sinal para a travessia rumo ao saber.

Penso que, agora crescidos, talvez precisemos aprender a brincar de outra coisa, a reinventar a brincadeira. Sim, porque não consigo pensar a educação por outro caminho que não seja o do lúdico, o do brincar e, sobretudo, do partilhar. Para tanto, é preciso estabelecer uma nova regra para a “mamãe da rua”: ganha o jogo, aquele que mais oferecer seu ombro para que o outro, numa perna só, atravesse a rua apoiado por ele. Não se vigia mais para punir, mas se observa para ajudar. Procurar estabelecer uma relação horizontal fundamentada no respeito mútuo e na solidariedade. Desse modo, certamente todos os partícipes saem ganhando. Vamos tentar?


Matéria por: Arnaldo Junior

  • Arnaldo Junior
    Arnaldo Junior
    Colunista
Arnaldo Junior
Colunista

Arnaldo Martinez de Bacco Junior é doutorando em Ciência da Educação (Universidad do Rosário – Argentina), mestre em Educação (Unesp – Araraquara), pós graduado em História Cultural (Claretianas – Batatais) e Metodologia do Ensino de História (São Luis – Jaboticabal) e graduado em História (Uni-Mauá – Ribeirão Preto).

Professor efetivo nas redes estadual e municipal de Ribeirão Preto e das Faculdades São Luis de Jaboticabal, é poeta, escritor, quadrinista, ilustrador e cartunista. Colabordor de vários órgãos de imprensa, é co-fundador do Fanzine cultural Boca de Porco, atuou como radialista no programa Tribo Verde de educação ambiental, é chargista/caricaturista do canal TVMais Ribeirão e do blog Farofa Cultural Ribeirão, entre outras coisas. Tem alguns livros publicados, entre eles, História Popular do Brasil em Quadrinhos, Chico, Chiquinha & Chicão, O palhaço que era triste, A panela Amarela e O menino que falava com as mãos.

Clique aqui para acessar todos os textos do colunista
Facebook
Site Pessoal


DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here