Ele acordou sem ter pregado o olho, despertado para um pesadelo que só estava no princípio. Sim, apesar de ser publicitário e estar acostumado a maquiar as imperfeições da vida, agora nada podia fazer a respeito. Encarou o fato de cara limpa, sem subterfúgios. Ele acordou órfão de mãe.

E descobriu que quase as todas dores que antes foram sentidas eram apenas um arremedo. Cócegas, um ridículo prenúncio. Que mesmo se todas fossem somadas (com exceção da morte do pai, que também havia lhe devorado o espírito), todas elas não passavam de um treino mal dado para o infortúnio que agora lhe sufocava a alma.

E percebeu que estava mais desamparado que um protozoário flagelado nadando a esmo em um mar de sombras e pus.
E engoliu em seco, quase se afogando com as lágrimas que faziam questão de dar as caras neste visceral momento.
E pensou que talvez estivesse exagerando. Não era um homem feito? E como resposta começou a trovejar e chover.
E arrependeu-se de não ter ficado mais tempo com ela, de não ter usufruído mais de sua generosa companhia, de não ter se dedicado mais. E decidiu parar de pensar nisso, porque era mais cômodo e porque temos que seguir em frente. E viu como era egoísta e fraco.

E notou que a memória lhe apresentava os últimos momentos vividos com ela, em um looping que esfolava seu coração de saudade e impotência. E ouviu um sussurro: “veja, tudo isso é definitivo, nada mais pode ser acrescentado à sua história.”
O último beijo.
O último sorriso.
O último abraço.
O último toque.
A última palavra.
A última olhada.
O último encontro.
A última vez.

E se esforçou para se concentrar não no final, mas em outros instantes infinitos.

E tateando as lembranças, uma minúscula e recorrente frase dela “ah, filho…” soou como uma cantiga completa que lhe deu o colo que lhe fora arrancado e o acalentou por alguns segundos.

E assim tentou sorrir. E certamente sentiu-se sereno, e foi tomar banho para aquecer-se de luz. E pensou que estava deixando o seu lado publicitário falar mais forte. Ou o seu lado humano, já não sabia mais.

E então, lembrando do sorriso dela, ele finalmente libertou cada um de seus dentes. E juntos eles se enfileraram em sua boca, alinhados fizeram uma senhora reverência e refletiram o orgulho de ser filho dela.

“Ah, filho… isso, não fica triste não. Sorria.”

Ele obedeceu. Porque ela sabia das coisas, sempre tinha razão, ela sempre fazia de tudo para ele ficar bem. E ele não queria decepcioná-la. Nunca mais.

“Ah, filho…”
“Ah, mãe! No final das contas, a senhora teve uma boa vida, não é? Uma vida boa. Obrigado por seu inesgotável amor”, ele pensou e fechou os olhos. Ainda estava envolto pelo mais temível dos pesadelos, mas já podia sonhar.


Colunista: Raul Otuzi

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Raul Otuzi
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Raul Otuzi é Redator, Professor e autor do livros: “Tristes Finais para Começos Infelizes”, “Cenas de um casal publicitário”, “25 contos sobre relacionamentos humanos, seus abusos e absurdos”.

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