A “verdade científica” nem sempre é eternamente verdadeira. Um exemplo marcante dessa ousada afirmação era a certeza no mundo Ocidental, no século XIX, da superioridade racial. Segundo se tinha como indiscutível, os povos e sociedades brancas e ocidentais possuíam crânios maiores e, portanto, eram mais inteligentes que as situadas no Oriente e ocupadas por povos amarelos e negros. Essa “certeza” foi, entretanto, derrubada na primeira década do século XX, graças a um judeu alemão, Franz Boas, decano da Antropologia, que explodiu as bobagens da craniologia e mostrou que as sociedades não poderiam ser classificadas em termos de um modelo de pensamento que determinava o que era certo e o que era errado.

Demonstrou assim, com exemplos realistas, que as pessoas pensam de forma diferente em diferentes culturas não por serem mais ou menos inteligentes, mas porque todo pensamento é fruto de circunstâncias e de tradições, do ambiente e das técnicas do qual se é herdeiro e pelo qual se está cercado. Em outras palavras, demonstrou que brancos, negros e amarelos ou ocidentais e orientais pensam de maneira semelhante se as condições da geografia e da história fossem semelhantes. Enfim, o valor maior que se dá a uma ou outra civilização deve-se ao fato de na mesma se ter nascido e crescido controlado por seus costumes. Boas criava, assim, a ideia do relativismo que, lentamente, se espalhou pelo mundo e que no século XX e XXI substituiu a verdade científica do século anterior.

A certeza dessa verdade, para a educação brasileira, choca-se com duas situações que nesta pequena crônica se busca retratar: A primeira é a oposição entre a ciência e as tendências e a segunda a dificuldade em que se estabelecer a linha divisória entre o que é o certo e o errado e, assim, o que ensinar e o que repudiar.

A oposição entre a ciência e a tendência se manifesta claramente. Afirma-se o que o Brasil repudia o racismo e que não se pode conceber que pessoas desta ou daquela cor, religião ou valores sejam superiores. Mas, é evidente, que essa é uma afirmação mentirosa e vergonhosamente desmentida pelo cotidiano. A oposição entre o discurso e a prática é rotina e, nas salas de aula de todo país, sempre se manifesta que os bons e os maus alunos se revelam entre os que são mais ou parecidos com seus professores, pela etnia que pertencem e pelos hábitos que frequentam. Não é necessário multiplicar exemplos de toda parte para se constatar que professor que toma banho todos os dias e não sai de casa sem desodorante e perfume adora alunos que tomam banho diariamente e diariamente se perfumam. Enfim, prega-se a ciência, vive-se a tradição.

A questão da linha divisória é ainda educacionalmente muito mais complicada. O relativismo antropológico garante que nenhuma cultura é errada e nem melhor que outra e é isto que ensinamos aos nossos alunos e nesse contexto não se deveria repudiar o canibalismo, o infanticídio, o machismo, o aborto, o incesto, a circuncisão do clitóris, os casamentos arranjados e muito mais. Conclui-se com a imensa dificuldade em se educar com bom senso: combater a diversidade com palavras e exercê-la com procedimentos? Aceitar o relativismo cultural e discriminar diferenças?
Como é torturante a ausência de linha divisória coerente entre o certo e o errado.


Matéria por: Celso Antunes

  • Celso Antunes
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Celso Antunes
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BACHARELADO E LICENCIATURA: GEOGRAFIA – ESPECIALISTA EM INTELIGÊNCIA E COGNIÇÃO – MESTRE EM CIÊNCIAS HUMANAS, UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, 1968/1972
• MEMBRO DA ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL PELOS DIREITO DA CRIANÇA BRINCAR (UNESCO)

• EMBAJADOR DE LA EDUCACION – ORGANIZACIÓN DE ESTADOS AMERICANOS

• MEMBRO FUNDADOR DA ENTIDADE “TODOS PELA EDUCAÇÃO”

• CONSULTOR EDUCACIONAL DA FUNDAÇÃO ROBERTO MARINHO (CANAL FUTURA)

• EXÉRCITO BRASILEIRO – COLABORADOR EMÉRITO
PRODUÇÃO INTELECTUAL:

• AUTOR DE MAIS DE 180 LIVROS DIDÁTICOS – ED. DO BRASIL, ED. SCIPIONE. ED AO LIVRO TÉCNICO E OUTRAS

• AUTOR DE CERCA DE 100 LIVROS SOBRE TEMAS DE EDUCAÇÃO – ED. VOZES. ED. PAPIRUS. EDITORA PAULUS, EDITORA LOYOLA, ED. ARTMED. ED. ROVELLE ED. CIRANDA CULTURAL E OUTRAS.

• OBRAS TRADUZIDAS: ARGENTINA, MÉXICO, PERU, COLÔMBIA, ESPANHA, PORTUGAL E OUTROS PAÍSES

PALESTRAS E CURSOS:

• MINISTROU PALESTRAS E CURSOS EM TODOS OS ESTADOS DO PAÍS, MAIS DE 500 MUNICÍPIOS.

• MINISTROU PALESTRAS E CURSOS NA ARGENTINA, URUGUAI, PERU, MÉXICO, PORTUGAL, ESPANHA E OUTROS PAÍSES.

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