Quando menino, ao chegar o período de férias escolares, geralmente eu ia para a casa de minha madrinha que eu peguei emprestada de meu irmão. É que os meus padrinhos de verdade, se mudaram para longe quando eu ainda era bebê e por conta disso, eu adotei os padrinhos de meu irmão como sendo meus também.

Eram realmente férias dessas de encher as redações que as professoras invariavelmente pediam que fizéssemos quando voltavam as aulas: “minhas férias inesquecíveis”. Fico aqui pensando como os meus colegas que não tinham padrinhos como os meus poderiam fazer suas redações. Quantos contadores de histórias não terão sido abortados ao longo desses anos todos de árduos trabalhos sobre as tais “férias inesquecíveis” justamente por que não tinham férias tão inesquecíveis assim e, diante da comanda da professora, sentiam-se tão fracassados por não saberem o que escrever que desistiam dessa coisa de ficar tentando se comunicar com o mundo através da escrita.

Mas vamos voltar às minhas férias. Só pelo fato de pegar a jardineira (que é o modo como chamávamos o ônibus) e sair da cidade, já valia a pena para todos nós. A viagem, as paisagens da janela, o trem passando lá longe, o rio, as vaquinhas que víamos extasiados pela janela do ônibus, tudo isso contribuía para a nossa felicidade infantil.

Havia amigos que revíamos de seis em seis meses. E isso era muito bom. Tinha também as brincadeiras no campinho, a lagoa, as pescarias, as noites passadas ao redor das fogueirinhas que nós mesmos fazíamos. Lembro-me também de me sentar ao lado de meu padrinho, após o jantar e ficar observando-o esboçar os desenhos que ele iria aplicar nas paredes de seus fregueses no dia seguinte. Meu padrinho era pintor de paredes e fachadas. Um hábil letrista/cartazista. Fazia arabescos em carroças e caminhões com uma perfeição de dar inveja. Talvez essa convivência tenha influenciado minha inclinação para o desenho.

Mas o que mais marca em minhas lembranças, era o leite engrossado com maisena e chocolate que minha madrinha nos servia logo cedinho. Era simplesmente inigualável. Por muito tempo eu fiquei tentando descobrir o que havia de tão diferente naquele leite. Não era a marca do chocolate, não era o tipo de açúcar ou maisena e nem a procedência do leite. Era carinho. Este era o ingrediente que o deixava com um sabor tão especial.

Penso que toda escola deveria ter gosto de leite engrossado com maisena e chocolate, como o que a minha madrinha fazia. Não que as merendeiras não façam leite assim, não se trata disso. Mas às vezes penso que falta um pouquinho daquele ingrediente tão especial que a minha madrinha esbanjava tão bem. Sinto sinceramente que falta carinho no preparo da merenda, no modo de servi-la para as crianças, na diversidade de sabores oferecidos aos pequeninos, na decoração do ambiente em que a merenda é servida, por exemplo.

E não estou aqui falando de culinária, mas de prazer, de desejos, de alegrias infantis, enfim, do cardápio oferecido na sala de aula. A escola há muito deixou de ser uma cozinha tão apetitosa como era a de minha madrinha. As crianças não são mais tão motivadas a se alimentar e a comida lhes parece muitas vezes indigesta. As pessoas encarregadas de alimentar as crianças também não são motivadas a despertar o prazer do apetite, até mesmo porque há muito elas não são mais tratadas com a devida importância que têm, nem pelos governantes e nem pela sociedade.

Há muito tem se falado sobre a educação. Há muito se diz que todo espaço da escola é um espaço pedagógico, mas há muito que pouca coisa ou quase nada tem sido feita para valorizar os que lidam com a educação no dia a dia das escolas espalhadas por todo o país. Fala-se muito na educação pelo afeto, mas eu pergunto: alguém pode dar a outro o que não tem? A gente não quer só comida, a gente quer prazer, é o que diz a música. Quem sabe, daqui a algum tempo os educadores não possam cantar outra canção como aquela que diz que com açúcar e com afeto, o seu doce predileto, agora eu vou preparar. Bom apetite, crianças.


Colunista: Arnaldo Junior

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Arnaldo Junior
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Arnaldo Martinez de Bacco Junior é doutorando em Ciência da Educação (Universidad do Rosário – Argentina), mestre em Educação (Unesp – Araraquara), pós graduado em História Cultural (Claretianas – Batatais) e Metodologia do Ensino de História (São Luis – Jaboticabal) e graduado em História (Uni-Mauá – Ribeirão Preto).

Professor efetivo nas redes estadual e municipal de Ribeirão Preto e das Faculdades São Luis de Jaboticabal, é poeta, escritor, quadrinista, ilustrador e cartunista. Colabordor de vários órgãos de imprensa, é co-fundador do Fanzine cultural Boca de Porco, atuou como radialista no programa Tribo Verde de educação ambiental, é chargista/caricaturista do canal TVMais Ribeirão e do blog Farofa Cultural Ribeirão, entre outras coisas. Tem alguns livros publicados, entre eles, História Popular do Brasil em Quadrinhos, Chico, Chiquinha & Chicão, O palhaço que era triste, A panela Amarela e O menino que falava com as mãos.

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