Antes mesmo de me graduar em Filosofia e começar a lecionar, eu me questionava sobre os motivos de, no ensino formal, não darem tanta importância à Filosofia.

Será que não é importante, para construir um pensamento político, estudar Maquiavel, para quem o governante deve fazer de tudo para se manter no poder? Ou estudar o embate ideológico entre o Liberalismo e o Comunismo no século XIX?

Será que não é importante saber que a religião cristã, seguida pela imensa maioria dos brasileiros, na verdade é uma “adaptação” do pensamento de Platão? Ou saber que até as pessoas mais simples, mesmo sem conhecerem Platão são platônicas na medida em que acreditam na dicotomia essência-aparência (existiria uma essência velada por uma aparência)?

Será que não é importante, para sermos éticos, conhecer o pensamento de Aristóteles, para quem o homem é, essencialmente, um ser social e político que deve buscar a felicidade através do bem-comum?

Será que não é importante saber que a concepção de corpo e mente, tão enraizada no pensamento ocidental, é uma criação de Descartes no século XVII e que, antes dele, não se acreditava que o ser humano era uma substância dupla?

Será que não é importante conhecer o conceito de Indústria da Cultura, de Theodor Adorno, que critica os meios de comunicação de massa e aponta para a coisificação da cultura e do ser humano?

Será que não é importante questionar os preconceitos do senso comum? Será que não é importante compreender os sentidos das criações nas artes e nas ciências? Será que não é importante perceber as diversas camadas de um fato do mundo (como uma notícia jornalística, por exemplo)? Será que não é importante dar ao sujeito a possibilidade de ele ser consciente de si? Será que não é importante discutir os meios para a felicidade, a liberdade e a justiça?

Será que aprender essas coisas é menos importante do que aprender sobre a “função de X” ou sobre as “moléculas de carbono”? Creio que não. E, justamente por ser tão importante para a formação da reflexão e do pensamento crítico, a Filosofia não pode ser devidamente explorada.


Colunista: Matheus Arcaro

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Matheus Arcaro
Colunista

Professor de Filosofia e Escritor.
Matheus Arcaro nasceu em 1984 em Ribeirão Preto, onde vive atualmente. Graduado em Comunicação Social e também em Filosofia. Pós-graduado em História da Arte. Atua como professor de Filosofia e Sociologia, artista plástico e palestrante. Desde 2006 tem artigos, crônicas, contos e poemas publicados em veículos regionais e nacionais. Seu livro de contos ‘Violeta velha e outras flores’, publicado em 2014 pela Patuá, vem recebendo ótima crítica em âmbito nacional. Seu romance será publicado em 2016.

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