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Quando menino, me lembro da feira livre que acontecia todas as sextas feiras na extensão da rua Pará, no bairro onde morávamos. Minha mãe, quando podia, frequentava aquela feira e ás vezes, meu irmão e eu também a acompanhávamos. Era um passeio pitoresco. As barracas oferecendo os mais variados produtos, os vendedores esbanjando criatividade para atrair os clientes, os aromas das especiarias misturados ao cheirinho do pastel… Era uma festa para nossos olhos infantis. Porém, o que mais me chamava atenção era banca que ficava quase no final da feira, na qual eram comercializadas revistas usadas. Minha mãe, leitora voraz, sempre que as moedinhas permitiam, passava por essa banca para comprar ou trocar revistas de fotonovelas e de curiosidades e informação, como O Cruzeiro, por exemplo. Foi nessa banca que ela comprou minhas primeiras revistas de quadrinhos. Foi nessa banca que este universo começou a se revelar para mim. Eu estava a prendendo a ler e a escrever e o contato com os quadrinhos foi de grande valia para a minha formação naquele momento. Tempos depois, já mais velho, comecei a frequentar a feira da Dois de Julho, na Vila Tibério, que acontecia aos domingos. Ainda tenho alguns exemplares de quadrinhos guardados que comprei nesta feira com o meu próprio dinheirinho, fruto de meu trabalho. Na banca da Dois de Julho tive contato com os grandes nomes do quadrinho nacional, como Rodolfo Zalla, Eugenio Colonesse, Edmundo Rodrigues, Julio Shimamoto, Rubem Francisco Luchetti, entre outros. As aventuras do Targo, do Gato, de Frankstein, de Mirza e do Judoka, dividiam espaço debaixo do colchão da minha cama, com Tarzan, Terry e os piratas, Príncipe Valente e muitos outros. Nessa época comecei a esboçar meus primeiros personagens. Passei a fazer meus próprios gibis, já que a grana era pouca e não dava prá comprar sempre revistas de quadrinhos. Tornei-me adulto, formei-me professor de história, fui lecionar, mas nunca deixei de ler e muito menos de desenhar quadrinhos. Como na época em que comecei a lecionar os livros didáticos não traziam alguns assuntos ainda considerados tabus, como revoltas populares, ecologia ou relações étnico raciais, passei a abordar esses assuntos por meio de apostilas feitas por mim mesmo, em quadrinhos, além de levar gibis para a sala de aula. Não satisfeito, o passo seguinte foi fomentar este tipo de atividade entre os alunos, prática nem sempre vista com bons olhos, já que os quadrinhos sempre sofreram muito preconceito, vistos no mínimo como subleitura, chegando até serem acusados de subverter a juventude, existindo inclusive, um código de ética disciplinador dos quadrinhos. O tempo passou e hoje, vejo com alegria que não caminhei sozinho todo esse tempo. Conheci a algum tempo o professor Luciano que leciona Geografia em Sertãozinho e que também produz gibis com seus alunos; também conheci a professora Patrícia de Língua Portuguesa que trabalha os clássicos da literatura em quadrinhos com seus alunos em São Simão. E para minha felicidade maior, meu filho Arnaldo Neto que também leciona História e, como eu, produz seu próprio material em quadrinhos, além de fomentar essa prática com seus alunos. Hoje existe no mercado editorial muito material bom em quadrinhos, como as adaptações dos clássicos da literatura brasileira, as famosas novelas gráficas (Grafic Novel) que elevaram as HQ ao nível de literatura Cult. No entanto, eu continuo preferindo o bom e velho gibi com seus heróis de papel, seus super poderes e muita fantasia. E continuo levando para a sala de aula, não apenas os meus gibis, mas HQs do Conan, do Flash Gordon, da Mônica, do Pererê, histórias de guerra como o gibi Combate, enfim, todos os quadrinhos dos quais eu possa fazer uma ponte entre os alunos e a leitura. Muitos alunos que afirmam não gostar de ler, ao se deparar com quadrinhos de qualidade (e existem muitos) começam a tomar gosto pela palavra escrita e logo estão enveredando para outras formas de leitura. As histórias em quadrinhos, ao contrário do que por muito tempo se pensou, não torna o aluno preguiçoso e o afasta da leitura: muito ao contrário, abre as portas do prazer de ler e ler, tenho dito isso há tempos, tem que ser um ato prazeroso. Leitura é encantamento. Portanto, não tenha receios em colocar HQs nas mãos de seus filhos, de seus alunos. Existe, como já disse, muita coisa boa e as escolas estão cheias de caixas lacradas com este tipo de literatura que nem sequer é colocada nas estantes das salas de leitura. Aproveite, leve gibis e histórias em quadrinhos. Vamos chegando, experimentando e levando, porque hoje é dia de feira!

 


Colunista: Arnaldo Junior

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Arnaldo Junior
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Arnaldo Martinez de Bacco Junior é doutorando em Ciência da Educação (Universidad do Rosário – Argentina), mestre em Educação (Unesp – Araraquara), pós graduado em História Cultural (Claretianas – Batatais) e Metodologia do Ensino de História (São Luis – Jaboticabal) e graduado em História (Uni-Mauá – Ribeirão Preto).

Professor efetivo nas redes estadual e municipal de Ribeirão Preto e das Faculdades São Luis de Jaboticabal, é poeta, escritor, quadrinista, ilustrador e cartunista. Colabordor de vários órgãos de imprensa, é co-fundador do Fanzine cultural Boca de Porco, atuou como radialista no programa Tribo Verde de educação ambiental, é chargista/caricaturista do canal TVMais Ribeirão e do blog Farofa Cultural Ribeirão, entre outras coisas. Tem alguns livros publicados, entre eles, História Popular do Brasil em Quadrinhos, Chico, Chiquinha & Chicão, O palhaço que era triste, A panela Amarela e O menino que falava com as mãos.

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