João Pedro sabia que a morte estava perto. Além de seus muitos anos, eram constantes os avisos do velho coração. Mas, a morte não o assustava ou aborrecia. Tivera boa vida, guardara ótimas lembranças. Amado pelos pais crescera em um lar de pobreza, mas muito carinho, dificuldades que não impediam momentos de alegria e ternura. Obrigado desde cedo ao trabalho, tivera empregos com pessoas maravilhosas, prontas para ensinar com paciência e perdoar com serenidade. Feliz no casamento, fora capaz de dar aos filhos preparo que não pudera ter, garantia de futuro marcado pela dignidade do trabalho, esforço por conquistas e serenidade na administração de perdas. Chegara sem sobressaltos à velhice e com ela ganhara reconhecimento que jamais ousara sonhar, referências que sabiam serem bem superiores aos seus pequenos méritos.

Mas, essa vida de encanto e felicidade, agora que chegava ao fim trazia para João Pedro um vago sentimento de nostalgia. Tinha vontade de não ir embora sem deixar aos filhos alguma lição, restos de lembranças que pudessem ficar como ícone de seu tempo e de sua vida. Mas como deixar lição se tudo correra tão doce, tão sereno e bonito nos tempos que vivera?

Havia aprendido que lições se extraem da dor, da angústia, do desespero, do martírio e esses sentimentos jamais vivera. Tivera sempre excelentes filhos, patrões admiráveis, esposa compreensiva e amorosa, amigos alegres e companheiros e, portanto, não pudera aprender exemplos que, segundo os poetas e compositores, somente na amargura se revela. Tivera dificuldades é claro (Quem não as tem?), mas, dificuldades superáveis, nenhum desafio que com persistência e luta não o coroasse vitorioso. Chegava ao fim de seu caminho sem mágoa e sem ódio, sem o veneno de lembranças amargas e emoções pungentes e com isso nada ficava para seu epitáfio, para a lição final.

João Pedro partiu de maneira doce como vivera, apenas com a tristeza de não ter lição para deixar. Mas, nesse ponto sua observação falhou. Deveria ter mostrado a todos a grande lição que em vida esculpira. A felicidade é construção e não delegação; é conquista que com paciência e esmero se esculpe e não prêmio que na loteria da vida se recebe.


Colunista: Celso Antunes

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BACHARELADO E LICENCIATURA: GEOGRAFIA – ESPECIALISTA EM INTELIGÊNCIA E COGNIÇÃO – MESTRE EM CIÊNCIAS HUMANAS, UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, 1968/1972
• MEMBRO DA ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL PELOS DIREITO DA CRIANÇA BRINCAR (UNESCO)

• EMBAJADOR DE LA EDUCACION – ORGANIZACIÓN DE ESTADOS AMERICANOS

• MEMBRO FUNDADOR DA ENTIDADE “TODOS PELA EDUCAÇÃO”

• CONSULTOR EDUCACIONAL DA FUNDAÇÃO ROBERTO MARINHO (CANAL FUTURA)

• EXÉRCITO BRASILEIRO – COLABORADOR EMÉRITO
PRODUÇÃO INTELECTUAL:

• AUTOR DE MAIS DE 180 LIVROS DIDÁTICOS – ED. DO BRASIL, ED. SCIPIONE. ED AO LIVRO TÉCNICO E OUTRAS

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• OBRAS TRADUZIDAS: ARGENTINA, MÉXICO, PERU, COLÔMBIA, ESPANHA, PORTUGAL E OUTROS PAÍSES

PALESTRAS E CURSOS:

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