Interessante o quanto que, dentro da sempre melhor das intenções, estamos sempre buscando aliviar o sofrimento e as preocupações das pessoas a nossa volta, usando expressões como “calma, que tudo vai passar”.

Os problemas não precisam passar, nós é que precisamos buscar compreende-los, em suas causas e dimensões.

Dizem até mesmo que problemas e coisas ruins existem para ser esquecidos.

De tanto se ouvir essa ladainha, ela chega a soar como natural em nossos ouvidos, apesar do estranho heroísmo, de se tentar a façanha de romper, filtrar ou até mesmo selecionar os próprios pensamentos. Parece até coisa de hindu fazendo meditação assentado em uma cama de pregos, lá no alto de uma cordilheira.

Deixando de lado essa tola mania de se esquivar das dificuldades ou simplesmente torcer e fazer de conta que tudo pode melhorar a partir do nada, precisamos lembrar que ninguém é capaz de se livrar de problemas, apenas ignorando e expulsando os fantasmas perturbadores da própria existência; até porque na maioria das vezes foi à própria pessoa que os criou, enjaulou e insiste em diariamente alimentar.

Fantasmas que propiciam a interessante oportunidade de se conviver com o status de boa pessoa, sempre preocupada com “os mundos” à sua volta ou até mesmo se passando de vítima de “incompreensíveis” circunstâncias do destino.

A coisa tem se complicado, pois sem sombra de dúvidas, temos sido constantemente estimulados a acreditar que existimos para produzir e que é essa produção incessante, preocupada e responsável que vai nos definindo enquanto bons humanos, a exemplo de um belo e forte garanhão, que o proprietário vê seu preço subir a cada nova e emocionante vitória nos diferentes jóqueis clubes da vida.

A ideia de sermos seres produtivos, diariamente avaliados das mais diferentes e, às vezes perversas formas, tem suas raízes bem fincadas e difusas em um misto de educação tradicionalmente tecnicista, recheada de um famigerado conceito de globalização que, em prol de uma suposta unificação de mercados internacionais, vem forçando a descaracterização de hábitos e condutas regionais. Traduzindo, de tanto olharmos para as “coisas” que o mundo nos oferece, deixamos de viver os hábitos comuns de nossa micro e fantasticamente íntima sociedade.

Enquanto no campo educacional o ato de estudar vai ficando cada vez mais distantes das descobertas e prazeres do aprender, com uma grande maioria de alunos se preocupando muito mais em alcançar notas para se “livrar” de suas matérias e respectivos anos letivos, buscando exclusivamente vencer os estreitos funis dos vestibulares ou “se garantir” em concursos públicos; observamos que no campo de trabalho, em grande parte das empresas vive-se exclusivamente sob a ótica de metas a serem rápida e certeiramente atingidas, muitas vezes se desrespeitando os limites orgânicos e emocionais das pessoas envolvidas, bem como as prováveis consequências positivas de bem dosados planejamentos de médio e longo prazo.

Certa vez Caetano Veloso disse que “gente é pra viver, não pra morrer de fome”, o que obviamente todos concordamos, mas é sempre bom lembrarmos de que existem fomes e fomes, e que não querendo desprezar a importância dos problemas de nutrição, principalmente em um país como o nosso, só é possível se pensar o viver bem, observando o quanto ele depende da permissão que damos, ou não, para que o mundo aconteça e nos oportunize os caminhos.

Existem caminhos retos, sinuosos e até bastante difíceis, mas o diabo é quando eles se bifurcam, nos causando dúvidas e agonia. Note que o significado da palavra “diabo” é justamente esse: aquele que divide e nos proporciona a dúvida.

Estamos diante de situações diabólicas toda vez que nos confrontamos com dúvidas e, por inexperiência ou medo não sabemos que caminho tomar.

Na maior parte das vezes acredito que o melhor a se fazer é optar por um deles, e em caso de arrependimento voltar atras, admitindo o erro ou culpa, para só depois vir a buscar outras vias.

Boa parte das pessoas que procuram terapias não conseguem dizer a causa de seus sofrimentos, pois ainda estão se alimentando das dúvidas. Ainda nem se arriscaram em se expor diante das verdadeiras causas.

A eliminação dessas dúvidas só ocorre a partir do momento em que retomamos a crença em nossa função de existir e consequentemente dar bons frutos, e não ao contrário em que teríamos que em primeiro lugar produzir, para depois sermos merecedores da própria vida.

Costumeiramente, quando conhecemos pessoas que produzem muitas vezes até acima de seus limites, tendemos a ficar perplexos e a tecer elogios quanto à competência e esforço empregados por esse indivíduo, mas por outro lado é sempre bom lembrar que com o passar do tempo, essa atitude de alta produtividade tende paulatinamente a ir desgastando o humor e as pessoas, e que sem ele o humano tende a tornar-se frágil, e facilmente se perder.

Vive-se tanto para o produzir, que de tanto ter que produzir, esquece-se de viver.

A partir da desistência de se ser o administrador da própria vida, muitos passam a acreditar que o melhor seja buscar esquecer e se livrar de todas as chamadas coisas ruins, inclusive das emoções que estão ou possam vir a dar errado.

Em relação a tudo que vivemos, acredito que duas atitudes precisam urgentemente ser tomadas:

  • os acertos precisam ser degustados, e
  • os erros ou dificuldades estudados, pois afinal de contas é somente a partir da compreensão e correção desses, que seremos capaz de crescer.

Cada vez que somos torturados por um fracasso, incerteza ou culpa, temos a grande oportunidade de uma auto avaliação na busca de se viver com mais qualidade.

A ideia precisa ser a de viver em paz, para consequentemente produzirmos bem, e nunca o contrário.

Se o teu intuito é de estudar, trabalhar ou engajar-se em uma determinada causa, lembre-se que em primeiro lugar faz-se necessário encontrar e acreditar nas razões que estão te direcionando para tal ato. Se por acaso teu estímulo é uma simples resposta aos anseios das pessoas ou “mundos” à sua volta, sinto-lhe dizer que seu projeto esta fadado ao fracasso.

Estude, trabalhe ou engaje-se em propostas que no mínimo você discutiu e sabe o porque de acreditar.

No livro de Salmos 119:96 esta escrito que “… toda perfeição tem o seu limite…”, e se para alguns a ideia da imperfeição significa defeito, observe que seres imperfeitos são os únicos em condição de melhorar.

Indivíduos perfeitos são imutáveis, e caso sejam infelizes, fadados a jamais se libertarem de seus sofrimentos.

O fato das “coisas do mundo” muitas vezes não admitirem erros, revela o quanto de preconceito anda embutido dentro de nossos grupos sociais, inclusive nos intitulados de mais liberais e modernos. Não se esqueça que preconceito é sintoma de medo, e que quanto mais me pauto neles para justificar alguma atitude, mais demonstro o receio que tenho de que descubram minhas fragilidades.

É justamente a imperfeição humana que nos permite perceber, conviver e aprender com as diferenças, e os humanos só podem dar inicio às grandes transformações sociais, depois que experimentam suas próprias mudanças.

Ao permitirmos que as interferências externas sejam responsáveis por nossas frustrações, estamos nitidamente nos esquecendo, de que todas as nossas ações devem partir da tentativa de nos despirmos da crosta de incertezas e medos que diariamente nos são sucessiva e lentamente incutidos.

Medos que chegam a nos perturbar e convencer de que nada somos, e que por essa razão devemos simples e tão somente nos adequar a certos modelos predeterminados.

Tem sido muito comum ouvirmos algumas pessoas dizendo que “tal coisa (emprego, título social ou até mesmo outra pessoa) é tudo”, o que em outras palavras significa dizer que “sem a tal coisa” elas se sentem nada.

Não se pode admitir que sejamos tudo ou nada, capaz ou incapaz, feliz ou infeliz, pois nossas possibilidades estão sempre ligadas aos próximos passos, e esses só se realizam quando agimos no presente, almejando o futuro, sempre pautados naquilo que aprendemos com as experiências do passado.

Cada vez mais, a ciência social tem comprovado o fato de sermos seres dotados de competências que precisam ser exploradas e colocadas em prática, pois só assim teremos condições de nos sobrepormos sobre as dificuldades, e nos reconhecermos.

Nossas competências precisam ser exploradas em suas minúcias para que possamos usufruir o verdadeiro viver em sociedade, que seguramente não significa a união de iguais, mas sim o entrelaçar coerente de diferenças que se completam.

Grandes pessoas sempre fazem diferença, entre os diferentes. Grandes professores, empresários, políticos são os que não se assustam diante de problemas, e estão sempre atentos e dispostos a experimentar novas pessoas e oportunidade.

Filhos são diferentes, alunos são diferentes, colegas são diferentes, e é justamente o conjunto dessas imperfeições que enriquecem e viabilizam o crescimento de nossa sociedade. 

Aqueles que preferem continuar fugindo de problemas, se esquivando de maus pensamentos ou evitando confrontos, apenas para ficarem “de bem com o mundo” me perdoem, pois, o sentido da vida, mesmo entre os animais mais peçonhentos nunca esteve em se esconder, ignorando os próprios objetivos.

 


Colunista: Guilherme Davoli
www.guilhermedavoli.com.br

  • Guilherme Davoli
    Guilherme Davoli
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Guilherme Davoli
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Psicólogo atuante como psicoterapeuta, professor de psicologia, consultor empresarial e educacional. Autor dos livros:
“Admirando a tempestade e brincando com o vento”
“Vítimas e aprendizes da própria história”
“Somos mais que um simples espetáculo” “Colecionadores de histórias”
Articulista das revistas: “Evidência”, “Profissão Mestre”, “Conectado”, “Ultimato online”, SME-Sistema Mackenzie de Ensino” e do jornal “The Brasilians” (New York). Palestras, cursos e oficinas em empresas, órgãos públicos e instituições de ensino, desenvolvendo temas pertinentes à educação, relacionamento interpessoal e qualidade de vida.

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