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Ao longo de 25 anos como escritora, venho fazendo uma espécie de “linha de tempo” publicando livros, frutos de estudos e pesquisas sobre o tema. Chamaram a atenção porque a minha postura sempre foi de equilibrar liberdade, responsabilidade e limites, o que ia na contramão das demais publicações da época, que só falavam em dar liberdade e em não reprimir a criança.

Pensando em meu último trabalho, “Filhos adultos mimados, pais negligenciados – efeitos colaterais de uma educação sem limites”, ressalto algo especial: este teve origem a partir de conversas informais, com pessoas que hoje são avós. Quando percebi a importância do que me diziam, resolvi transformar em um projeto de pesquisa. Foram cerca de 100 depoimentos com pessoas da terceira idade, de profissões e níveis educacionais diversos, com filhos adultos e que são pais por sua vez. Foram elas que inovaram criando seus filhos com muita liberdade e mordomias, que impuseram pouquíssimos limites, e que praticamente eliminaram a hierarquia que existia. Protegeram e mimaram os filhos, numa guinada de 180 graus na forma de se relacionar e educar – daí o título Filhos adultos mimados.

Senti que seria interessante investigar como os avós de hoje se sentem em relação a seus filhos adultos. Publiquei vários livros alertando para os perigos da liberdade excessiva e de se criar jovens com a ótica centrada no “eu”, mais do que para o outro e a sociedade. Senti necessidade de saber como se sentem observando o que as mudanças que implementaram produziram de positivo e negativo. Só que, desde os primeiros depoimentos, percebi uma convergência alta em relação a expectativas afetivas não atendidas. Sentimentos de tristeza e perplexidade com a forma pela qual as relações evoluíram, em direção diversa a que pretendiam. Achavam que educando com liberdade teriam companheirismo e entendimento quando os filhos se tornassem adultos, mas sentem-se ignorados em suas necessidades, especialmente as afetivas.

À medida que analisava os depoimentos, ia me convencendo da urgência de, mais uma vez, alertar sobre a importância de educar para a sociedade, dentro de uma visão humanista (e não, como fizeram os babyboomers), para a satisfação quase que exclusiva de desejos e egocentrismos. Os pais que têm filhos adultos hoje estão assustados com a falta de percepção e a insensibilidade, e, em alguns casos, de negligência, que percebem em seus filhos adultos, especialmente no que se refere às necessidades que, como idosos e mais frágeis, eles sentem. Reafirmo o que já afirmara em livros anteriormente publicados: quem é criado para pensar só em si, torna-se incapaz de perceber ou ouvir os sinais que lhes enviam – mesmo que sejam seus pais idosos, que estão frágeis agora e por vezes sozinhos, necessitando de pequenos retornos afetivos daqueles por quem deram os seus melhores esforços. O objetivo do livro é exatamente esse: fazer com que os pais de hoje percebam com clareza os enganos a que a liberdade excessiva conduziu, e que visualizem o que o futuro lhes reserva se educarem seus filhos com mimo e superproteção.

Todo este estudo mostrou também, com muita clareza, que jovens criados pensando apenas em si mesmos, que têm praticamente todos os desejos atendidos, que não precisam se esforçar ou batalhar por nada, seja um item essencial ou apenas um acessório a mais, não importa, crescem sem perspectiva ampla do mundo, tornando-se imediatistas e com dificuldades de autoavaliação isenta; em geral, são autocomplacentes e incapazes de ter empatia, a não ser por si próprios. Tornam-se insensíveis em alguns casos, utilitaristas e interesseiros em outros, e até mesmo, em casos extremos, capazes de viver sem considerar nada que não seja interesse próprio. Em suma, viver olhando apenas para o próprio umbigo apequena o ser humano e o incapacita a desenvolver e ampliar a sua própria humanidade. Se desejamos um mundo melhor e relações mais profundas, verdadeiras e duradouras, é preciso reverter essa tendência que começou nos anos 1970 e que agora, quarenta anos depois, começa a nos apresenta sua feição obscura e não prevista: no campo pessoal, a negligência com o outro; no campo social, descompromisso, marginalização e uso crescente de drogas; no trabalho, a geração Nem-nem, que já representa 20% dos jovens entre 14-14 anos, entre outros problemas que cito no livro.

Outro ponto que merece ser salientado, e que está presente dentro deste contexto, é que tem sido bastante comum encontrarmos pessoas que se queixam de que não têm amigos, mas poucas percebem que, provavelmente, são suas próprias atitudes que conduzem à situação de que reclamam. O livro é um alerta contra isso também. É preciso investir nas relações, que estão se deteriorando rapidamente e por motivos banais, exatamente pela falta de cuidado que se tem com o outro. Não é o uso imoderado da tecnologia a causa dos problemas: tem a ver com ser capaz de se doar ao outro – ou não. Muitos são os que hoje pensam somente nos seus próprios prazeres: ah, se eu posso ir ao cinema hoje, por que vou visitar meus pais, meus avós? É a esse tipo de atitude egocêntrica que me refiro. São os pais desses jovens que estão sentindo esse tipo de descaso – e desprezo em alguns casos -, o que os deixa extremamente magoados e inseguros. Especialmente porque foram eles que mais deram atenção e todo o tipo de regalias aos filhos. Esperavam portanto, encontrar um pouquinho disso para eles também, agora que estão mais velhos e frágeis.

Estamos diante de jovens que cresceram ouvindo todo o tempo elogios; viveram superprotegidos. Não é de estranhar que se considerem maravilhosos, e que julguem merecer reconhecimento e ascensão rápida. Têm uma visão tão positiva de si próprios que quando se defrontam com a realidade, mostram-se despreparados e frágeis. Sentem dificuldade em lidar especialmente com qualquer tipo de crítica – embora todos as recebamos, justas ou não, ao longo da vida e especialmente na profissão.  Um simples pedido de revisão em um relatório, por exemplo, pode ser interpretado como perseguição ou humilhação; quase sempre se sentem injustiçados com seus salários. Não compreendem que o progresso profissional é, o mais das vezes, gradual. Por essa razão sentem-se subvalorizados e dificilmente vestem a camisa da empresa. Geralmente são comprometidos tão somente com o seu projeto pessoal. Muitos abandonam o trabalho sem nem mesmo ter outro em vista, porque tornaram-se jovens com baixa tolerância à frustração.

Nesse trabalho tentarei ser a porta-voz dos sentimentos dos avós de hoje, revelando o que eles não conseguem dizer a seus filhos, por pudor ou medo de afastá-los de si. Acho que vale muito a pena fazer isso, porque acredito nos jovens e na sua capacidade de se sensibilizar e, em consequência, de mudar.  E mesmo nos que têm demonstrado dificuldade para perceber os sentimentos de seus pais, mesmo nesses eu acredito, porque vejo o amor que nutrem pelos seus filhos. Assim como creio na não intencionalidade de suas atitudes. E acredito, também, no poder da educação. Tenho, por fim, esperança de que isso os oriente como pais, e, especialmente que os reaproxime dos avós de seus filhos, fortalecendo a família: pais, filhos e netos unidos e afetuosos!


Matéria por: Tania Zagury

  • Tania Zagury
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Tania Zagury
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Filosofa, Escritora, Membro da Academia Carioca de Letras.
-Professora Adjunta da UFRJ / Universidade Federal do Rio de Janeiro/ De 1977 a 2000.
-Coordenadora dos Cursos de Graduação em Supervisão Escolar, Administração Escolar e Orientação Educacional da Faculdade de Educação, da UFRJ. De 1987 a 1992.
-Mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro / UFRJ
-Filósofa, graduada na Universidade Estadual do Rio de Janeiro / UERJ-Escritora com 25 livros publicados no Brasil e no exterior
-Conferencista e Pesquisadora em Educação
Mais de 1850 entrevistas concedidas para televisão, jornais e revistas de circulação nacional, dentre os quais: Veja (Entrevistada das Páginas Amarelas, entre dezenas de outras), Nova Escola (Entrevista nas Páginas Verdes), Isto é (Entrevistada das Páginas Vermelhas, entre outras), Época, Folha de SP, Estadão, Zero Hora, O Globo, Correio Brasiliense, Jornal do Brasil, Diário de Natal, Estado de Minas, Jornal Nacional, Globo Repórter, Programa do Jô (quatro vezes) Mais Você, Sem Censura (cinco vezes), Marília Gabriela Entrevista, Fantástico, Globonews, Almanaque etc.

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