Segundo o Aurélio, família são pessoas aparentadas, que vivem, em geral, na mesma casa, particularmente o pai, a mãe e os filhos. Pessoas do mesmo sangue. E nada mais.

Mas qual é a nossa realidade, a realidade verdadeira — não a virtual — verificada por meio da observação da vida escolar de nossos alunos?

Família, hoje, para a grande maioria, são pessoas, nem sempre do mesmo sangue (por exemplo, são mães e   pais com seus respectivos filhos de outros relacionamentos) que repousam algumas horas — nem sempre as mesmas —, num mesmo lugar: tipo hospedaria de beira de estrada.

De manhã, a mãe sai para um lado, o pai para o outro, e a perua escolar, que já saiu com os filhos, só voltará com eles à tarde.

O café da manhã é tomado na padaria da esquina, apressadamente, e o almoço no prato feito, quando dá tempo.

Os filhos comem o lanche nada dietético, bebem refrigerante e enchem-se de doces de todos os tipos e cores. E são os primeiros a chegar a casa.

Às dezenove horas — ou vinte — chega a mãe e, às   vinte e uma, vinte e duas, chega o pai. Ambos exaustos, ruminando os problemas não resolvidos no trabalho e somente com uma vontade:  tomar banho e dormir.

Não passa pela cabeça de nenhum pai exausto perguntar aos filhos como foi o dia no colégio: eles poderão acreditar que, realmente, os pais   querem saber e tentarão contar.

No final do bimestre, perguntar pelo boletim, então, é impensável. O boletim, preso na gaveta do Orientador Educacional da Escola, deixa a consciência tranquila para, no final do ano, quando a reprovação for fato consumado, poder-se dizer indignado: eu não sabia, e/ou a escola não me avisou.

São poucos os lares onde, hoje, a família de reúne para, pelo menos, numa das refeições, trocarem informações sobre o dia-a-dia, sobre as atividades de cada um, e, quando conseguem se reunir, a televisão, na sala de jantar, absorve a maior parte do tempo disponível.

Não existe mais o bate-papo com os vizinhos, o jogar conversa fora e, ao mesmo, tempo o comentar problemas da rua, do bairro, da vida alheia.

Missa ou Culto, aos    domingos, então, nem pensar —   seria mais uma hora, pelo menos, em que a família estaria em comunhão — tem o futebol com os amigos, a academia de ginástica, o tênis com as amigas, a cerveja no bar da esquina.

E os filhos?

Cada um na sua, já que estão com o celular próprio, mesada garantida e a escola paga: a educação e a formação estão sendo terceirizadas.

Só em alguns momentos críticos, a família tenta se sentir   como tal: na gravidez precoce e imprevista, na hora em que o uso da droga se manifesta irremediável, no instante em que a violência das ruas deixa marca indelével.

Mas aí, em geral, é sempre tarde, a família já se foi: faltou a base, o alicerce, a vivência de uma relação familiar que exercita a reciprocidade, o respeito, a preocupação com o outro, a empatia, a fraternidade e o amor.


Colunista: Antonio Carlos Tórtoro

  • Antonio Carlos Tórtoro
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Antonio Carlos Tórtoro
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Antonio Carlos Tórtoro, é casado com a fotógrafa Lu Degobbi, e pai de dois filhos: Rodrigo (32) e Giovana (34).
Ex-presidente da Academia Ribeirãopretana de Letras e Idealizador e fundador da Academia Ribeirãopretana de Educação.
Cidadão Emérito de Ribeirão Preto e ex-presidente da ACRECE-Associação dos Cidadãos Ribeirãopretanos e Eméritos.
Membro da ALARP- Academia de Letras e Artes de Ribeirão Preto.
Fundador da casa do Poeta e do Escritor de Ribeirão Preto.
Escritor/poeta com 14 livros publicados, citado na Enciclopédia de Literatura Brasileira de Afrânio Coutinho.
Jornalista com colunas em jornais e revistas.
Professor de Matemática e Orientador Educacional do Colégio Anchieta /Objetivo.
Fotógrafo/ diretor do Grupo Amigos da Fotografia de Ribeirão Preto.

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