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“Aquilo que a memória ama se torna eterno” diz Adélia Prado.

Uma das memórias afetivas mais recorrentes de minha infância: as viagens de férias com os meus pais. Na estrada de terra que levava à fazenda de meus avós maternos em Minas Gerais; na via Dutra, rumo à cidade maravilhosa, ou mesmo, na serra do mar, com destino ao Guarujá. A bordo do Galaxie 500, meus dois irmãos, meus pais e eu criávamos um delicioso universo lúdico. Brincávamos de adedanha, cantávamos os hits da época, sabíamos todas as letras das músicas contidas no antológico álbum de 1973, dos Secos & Molhados. Quando avistávamos o mar, a música tema era “Pegue a sua esteira e seu chapéu, vamos para praia que o sol já vem… a praia estava deserta, o sol surgia no céu e eu contente cantava pra você Maria Izabel…”.

Quando cruzávamos a divisa de estado São Paulo-Minas, minha mãe como uma boa mineira, puxava o coro: “Oh, Minas Gerais, oh Minas Gerais, quem te conhece não esquece jamais… Oh, Minas Gerais…” A tudo isso juntava-se o deslumbramento com as paisagens contempladas da janela do automóvel. Naturalmente, sobretudo, nas viagens mais longas, alguns momentos de tédio e a famosa e irritante pergunta: “Falta muito pra chegar?!”

Finda a sessão saudosismo, uma cena contemporânea que considero mais fato do que estória: um SUV desliza sobre a rodovia, o silêncio só é quebrado pelo som da mastigação de Doritos ou algo similar. Conversa quase não há, tão pouco deslumbramentos com a paisagem ao redor, uma vez que as crianças ou estão atentas aos monitores nas costas das poltronas dianteiras, assistindo aos DVDS preferidos, ou quando livres dos monitores, desconectam-se do momento, viajam por tablets e smartphones. Para a tranquilidade dos pais, também não há a tediosa pergunta: “Vai demorar pra chegar?!”

Meu filho, seu filho, nossos filhos… enfim, os filhos da geração da telemática estão passando pela infância grudados aos seus aparelhos. A interação com o presente real, pessoas e vivências importantes, muitas vezes se perdem. Como a criança conhece o mundo através de sua ação, de suas experiências exploratórias que vêm dos sentidos e das relações com as pessoas que as cercam, as necessárias intercomunicações pessoais diminuem, são prejudicadas.

O testemunho que dei no início deste texto, há algumas décadas atrás, da viagem em família, era, desde o trajeto, com todos reunidos no automóvel, uma experiência riquíssima de convivência e estreitamento de vínculos familiares. Cantar juntos, brincar, jogar… Lembro-me de Platão: “Você pode descobrir mais sobre uma pessoa em uma hora de brincadeira, do que em um ano de conversa”.

Como diz o psicólogo Guilherme Davoli: “As atividades em família têm o poder de conspirar para a possibilidade de um leve despertar das competências humanas que, desde os primeiros anos de vida, precisam ser descobertas e utilizadas como ferramentas básicas no processo de construção da felicidade”, da amorosidade, dos afetos. Sim, felicidade se aprende, e é fundamental que vivenciemos com nossos filhos esses momentos de interação, quando nossas histórias são tecidas e pode-se aprender sobre a empatia. Nesse ponto recordo o protagonista do fabuloso filme “A natureza selvagem” que, após aventurar-se pelo Alaska, fazendo e descartando amigos por toda a viagem, tem a revelação momentos antes de sua solitária morte: “A felicidade só é real quando é compartilhada.” Precisamos exercitar mais a alegria da convivência, do pertencimento. Mesmo minha geração, que teve a oportunidade de ter acesso a esses modelos de bem viver, compartilhar, está desaprendendo e escolhendo covardemente a solidão. O que dirá a geração de nossos filhos que pouco tem a oportunidade de experimentar uma infância com abundância de vivências, digamos assim, gregárias, comunitárias?

Muitas crianças de hoje, bem ao contrário do que vivemos há poucas décadas, não ouvem histórias e pouco experimentam os sabores de um crescimento realizado em meio a saberes compartilhados com familiares. A retomada do envolvimento entre a criança e seu meio familiar é uma das boas possibilidades para o desenvolvimento psíquico, trazendo benefícios para o desenvolvimento da autoestima, da autoconfiança (quem conhece e confia em suas raízes torna-se forte para enfrentar as demandas cotidianas, como na música de Walter Franco “ Quem puxa aos seus não degenera…”), capacidade de se colocar no lugar do outro. Com o olhar para outras pessoas, conseguimos nos colocar no “espaço”, entre o “outro” e o “eu”, e é justamente nesse espaço “entre” que se entrega e se recebe algo significativo com alternância dinâmica, surgindo amizades, amores, vínculos e aprendizagens.

Em tempos de uma sociedade triunfante em seu materialismo devastador, de uma competição exacerbada e de agendas “over” dos pais e, sobretudo das crianças, o usufruir e regozijar-se com a presença do outro, seja a esposa, o filho, o professor, o aluno… vive uma crise em meio à má e excessiva utilização de ferramentas tecnológicas. É preciso pensar neste descompasso e buscar modos de convivência mais proveitosos e educados entre as máquinas e os usuários das mesmas. Precisamos usar os nossos algoritmos e não ficarmos à mercê dos que inventam, ou programam, ou comercializam, ou idolatram tais objetos.

O mais difícil, em todos os tempos da humanidade, tem sido “ser contemporâneo”, isto é, viver o momento (presente) com capacidade para analisá-lo e enfrentá-lo, reconhecendo seu valor em relação ao passado e podendo projetá-lo para outro tempo. Podemos decidir.

Repito, podemos decidir. Escolher estar inteiros com nossos filhos, por exemplo. Talvez por isso, o meu filho João Pedro deixou o seu tablet desligado em nossa última viagem.  Então cantamos, contamos placas, curtimos a paisagem pela janela…É bem verdade que vez ou outra surgia a fatídica pergunta: “ Falta muito pra chegar?” 

 


Colunista: André Luis de Oliveira

  • André Luís Ferreira de Oliveira
    André Luís Ferreira de Oliveira
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André Luís Ferreira de Oliveira
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Psicopedagogia e Escritor (Literatura Infantil)
André nasceu em Ribeirão Preto, em 1964. Pedagogo, com especialização em psicopedagogia clínica e institucional. Iniciou em 1983, no Colégio Pequeno Príncipe( Ribeirão Preto – SP) como recreacionista. Fundou a Escola Calidoscópio, atuando durante 10 anos como diretor da Educação Infantil. Em Campinas, foi instrutor pedagógico na Fundação Síndrome de Down. Na UNIFRAN( Universidade de Franca) exerceu durante 4 anos a função de docente nos cursos de Pedagogia e Fonoaudiologia. Em 2000, retornou ao Colégio Pequeno Príncipe, onde atua como diretor, psicopedagogo, desenvolvendo projetos de jogos corporais e atividades ligadas à leitura e escrita. Ministra cursos e oficinas para professores, além de oferecer atendimento psicopedagógico clínico para crianças. É autor de A CIDADE DOS CACHORROS, BICHOS DIVERSOS, POEMINHAS RADICAIS, entre outros livros, para o público Infanto-juvenil. Criou o JOGO DA ACESSIBILIDADE – Ministério da Educação – Ministério das cidades – ABEA – MEC. André é colunista na revista “Leque” de Ribeirão Preto.

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