Ilustração de Capa: Cordeiro de Sá

Perto de casa havia um armazém que vendia de tudo. Esses armazéns, conhecidos como “vendas”, eram muito comuns. Lembro que tinham um cheiro forte de temperos exóticos, misturados a aromas mais adocicados. Sobre o balcão, estampavam-se os varais nos quais se penduravam queijos, salames defumados, lingüiças e carne seca. Aos arredores, sacos de cereais que eram vendidos a granel, pesados e colocados em pequenos sacos de papel pardo. Também o óleo era vendido em litros, colocados em garrafas de vidro por meio de uma maquininha que funcionava com uma alavanca que impulsionava o liquido por um caninho até à abertura da garrafa, desenhando um espetáculo à parte para os olhos curiosos de criança. No balcão ficavam expostos os famosos doces de pé-de-moleque, maria-mole, coração-de-abóbora, canudinho de leite, sem falar nos sonhos e pudins de farinha e leite, os tais “pudins de padaria”. Só de lembrar desses sabores da infância, minha boca se enche d’água.

Nas vendas, não havia apenas gêneros alimentícios, mas também aviamentos, botinas, regadores, enxadas, chapéus, fumo de corda, canivetes, caldeirões, caçarolas, cortes de fazenda (que era como se chamavam os tecidos) e artigos de época, entre outras coisas. Tudo na base da caderneta. A palavra dada valia ouro e o acerto no final do mês era sagrado.

Foi numa dessas vendas que minha mãe comprou o meu primeiro material escolar. Ainda trago na memória o dia em que fui com ela para comprá-lo. Um caderno brochura que trazia no verso a letra do hino nacional e o desenho de nossa bandeira, uma caixinha de seis lápis de cor com um soldadinho estampado na embalagem alaranjada, um lápis preto, um lápis vermelho, uma borracha e um apontador. Muito caprichosa, porém, ela ainda comprou um estojo plástico azul e branco, com tampa sanfonada. Para mim, aquele material tinha um valor inestimável. Hoje mais ainda, quando penso no quanto deve ter sido custoso, naqueles dias de poucas posses, ainda mais quando me lembro da bolsa em forma de pasta, preta, com presilhas prateadas que ela me trouxe da “cidade”, que era como nos referíamos ao centro comercial.

Lembro disso hoje, quando as papelarias e hipermercados expõem infinitos modelos de fichários e cadernos perfumados, acolchoados, com os heróis e ídolos da moda estampados em suas capas, mochilas dos mais variados modelos, canetas dos mais variados tipos, lápis de todas as cores, borrachas de todos os formatos, enfim, uma variedade tão imensa que os olhos até se perdem. Apaixonado que sou por tudo o que possibilite a escrita e o aprender, penso que seja até saudável que haja tantas opções para estimular as crianças a irem para a escola. No entanto, fico pensando em algumas situações que também devem ser levadas em consideração.

Não vou nem discutir os custos desses materiais diferenciados e a falta de acesso a eles por boa parte das crianças que frequentam as escolas públicas, por exemplo, e que dependem do material doado pelo Estado para continuar frequentando a escola. Aliás, penso que o governo não deveria doar materiais e livros aos milhões como tem sido feito, mas propiciar aos pais dessas crianças a possibilidade de ganho digno por meio do trabalho para comprarem o que melhor lhes conviesse.

Tudo o que se refere à escola tem que ter, a meu ver, um caráter educativo, inclusive a compra do material escolar. Lembremo-nos disso e não percamos a oportunidade de discutir com nossos filhos sobre a importância da leitura do mundo e, conseqüentemente, do consumo ético e consciente.

Isso valerá a pena, certamente.


Colunista: Arnaldo Junior

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Arnaldo Junior
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Arnaldo Martinez de Bacco Junior é doutorando em Ciência da Educação (Universidad do Rosário – Argentina), mestre em Educação (Unesp – Araraquara), pós graduado em História Cultural (Claretianas – Batatais) e Metodologia do Ensino de História (São Luis – Jaboticabal) e graduado em História (Uni-Mauá – Ribeirão Preto).

Professor efetivo nas redes estadual e municipal de Ribeirão Preto e das Faculdades São Luis de Jaboticabal, é poeta, escritor, quadrinista, ilustrador e cartunista. Colabordor de vários órgãos de imprensa, é co-fundador do Fanzine cultural Boca de Porco, atuou como radialista no programa Tribo Verde de educação ambiental, é chargista/caricaturista do canal TVMais Ribeirão e do blog Farofa Cultural Ribeirão, entre outras coisas. Tem alguns livros publicados, entre eles, História Popular do Brasil em Quadrinhos, Chico, Chiquinha & Chicão, O palhaço que era triste, A panela Amarela e O menino que falava com as mãos.

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