“ […]A formação do professor relaciona – se com toda a sua pessoa: capacidades conscientes, assim como sua afetividade, seu imaginário e seu inconsciente total. Isto é, fantasmas, inibições, resistências, desejos[…] ” Jack Beillerot

Sou professor, há mais de 30 anos, no Ensino Infantil e séries iniciais. Quando o assunto é Educação, logo penso em crianças, em escolas e seus espaços pedagógicos, mas já faz algum tempo, tenho associado o tema, com frequência, a adultos e a seus espaços no cotidiano. Não falo de adultos que não tiveram acesso à educação, pelo contrário, refiro–me a adultos, professores ou não, letrados, formados que atuam no mercado de trabalho com prestígio e responsabilidade.

Ao mencionar espaços pedagógicos, não me refiro somente aos espaços físicos, como: salas, bibliotecas, e quadras de esportes, mas aos espaços relacionais que se estabelecem no dia a dia de uma escola: coordenação – corpo docente, professor – colega, professor – aluno, aluno – amigo. Quando falo de espaços do cotidiano, refiro – me também à qualidade dos vínculos existentes nas relações familiares, de trabalho, de amizade, enfim, falo do espaço a que se refere a saudosa psicopedagoga argentina Alícia Fernandez, entre o outro e o eu, pois é justamente no espaço “entre” que se entrega e se recebe algo significativo com alternância dinâmica, surgindo daí amizades, amores, empatias e aprendizagens.

Em tempos velozes de globalização, amizades virtuais, competição exacerbada e agendas “over”, tanto das crianças quanto dos adultos, o usufruir e regozijar – se com a presença do outro, seja o outro: a esposa, o filho, o aluno, vive uma crise sem precedentes.

Podemos ainda, num exercício de abstração, pensar no outro como sendo a nossa cidade, o nosso planeta. Ampliando ao máximo a ideia do outro pode –se incluir possíveis situações como as tragédias humanas e ambientais.

Nunca se discutiu tanto nos bancos escolares sobre temas, como: ética e cidadania, desenvolvimento sustentável, aquecimento global e tantos outros assuntos. Mas, essas discussões não se restringem aos bancos escolares, elas  tem sido exigidas também em relação ao trabalho do professor. Além dos docentes discutirem meramente problemas pedagógicos em reuniões, grupos de estudos, a fim de uma preparação para novas abordagens, técnicas e estratégias de ensino, tornou – se premente o recurso a textos com abordagens filosóficas, sociológicas, psicológicas  para o entendimento das situações e para a tomada de posições  críticas e coerentes, em relação às crianças desta época. O momento, que se caracteriza cada vez mais pelo excesso, por mais que pareça contraditório, necessita de tempo para a contemplação, para a seleção e aprofundamento dos conteúdos transmitidos.

Penso que, além de investirmos em nossa formação profissional, precisamos “investir” em nosso ser onírico, o ser essencial e singular, o ser que sonha e, por sonhar, se encanta e se deixa arrebatar pelas pessoas, pelas crianças, pela literatura, pela música, pelas artes plásticas, pela arquitetura, pelo cinema, pelo seu ofício, pela vida. É certo que não dá para sonhar e ser feliz o tempo todo, mas, como diz o meu amigo Guilherme Davoli,  “[…] só é possível imaginar que as crianças e os jovens sigam as orientações transmitidas por seus pais ou mestres, se esses forem rigorosamente percebidos como sinônimos de felicidade.” Construímos nossa relação com o educando no dia a dia de nossa prática pedagógica.

É nessa relação que educador e educando, mediados pelo que querem aprender, experienciam – se como seres que pensam, sonham e desejam. Para que essa “experiência”seja a mais rica possível, é fundamental uma consistente fundamentação teórica, agregada às características singulares de cada educador, que resultem em uma qualidade pedagógica com saber e sabor. Qual será o nosso sabor? Quais serão as possibilidades?


Colunista: André Luís Ferreira de Oliveira

  • André Luís Ferreira de Oliveira
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André Luís Ferreira de Oliveira
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Psicopedagogia e Escritor (Literatura Infantil)
André nasceu em Ribeirão Preto, em 1964. Pedagogo, com especialização em psicopedagogia clínica e institucional. Iniciou em 1983, no Colégio Pequeno Príncipe( Ribeirão Preto – SP) como recreacionista. Fundou a Escola Calidoscópio, atuando durante 10 anos como diretor da Educação Infantil. Em Campinas, foi instrutor pedagógico na Fundação Síndrome de Down. Na UNIFRAN( Universidade de Franca) exerceu durante 4 anos a função de docente nos cursos de Pedagogia e Fonoaudiologia. Em 2000, retornou ao Colégio Pequeno Príncipe, onde atua como diretor, psicopedagogo, desenvolvendo projetos de jogos corporais e atividades ligadas à leitura e escrita. Ministra cursos e oficinas para professores, além de oferecer atendimento psicopedagógico clínico para crianças. É autor de A CIDADE DOS CACHORROS, BICHOS DIVERSOS, POEMINHAS RADICAIS, entre outros livros, para o público Infanto-juvenil. Criou o JOGO DA ACESSIBILIDADE – Ministério da Educação – Ministério das cidades – ABEA – MEC. André é colunista na revista “Leque” de Ribeirão Preto.

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